Terça-feira, 31 de Março de 2009

CAMISA AMARELA

Estava a ver um filme, onde o actor principal, galã e bonitão, tinha vestida uma camisa amarela...então desde esse dia, que me apetece escrever sobre a camisa amarela do meu pai.
Escrever sobre a camisa amarela???? mas o que tem de tão especial esta camisa amarela???
É uma camisa amarela canário, mas um pouco mais desmaiado... não era amarelo claro, não! era entre o amarelo canário e a gema de ovo, mas mais clara...
Pronto, era amarela clara!!!
Sempre me intrigou porque razão o meu pai quis comprar uma camisa amarela!?
Ele, que nunca ligou à roupa que a minha mãe lhe compra e que veste automaticamente, sem ver se a camisa é branca, às riscas, ou azul..., quis comprar uma camisa amarela!
E comprou-a. E quando vai a algum lado, quando precisa de se vestir com um pouco mais de primor, pede à minha mãe, que lhe dê a camisa amarela!!
O meu pai ainda é do tempo, em que os homens achavam que não era muito viril, saberem onde está guardada a sua roupa pessoal; não sabe, em qual gaveta estão guardadas as meias, as cuecas ou as camisolas interiores... é a minha mãe que lhe prepara a roupa, que lha põe em cima da cama, pronta a ele vestir, quando sai do banho.
Nunca mostrou interesse especial pelo que vestia; qualquer peça de roupa, para ele, está sempre bem!
Contudo, há cerca de 5 ou 6 anos, ele desejou ter uma camisa amarela!!
E a minha mãe, que estanhava o desejo, dizia: " Mas queres comprar uma camisa amarela?!!"
E ele respondia-lhe: " Sim, quero comprar uma camisa amarela!! onde é que está a admiração???"
E a minha mãe retorquia: " Mas tu nunca mostraste interesse pela tua roupa!! pelo que vestes!!" E ele reafirmava: "Pois mas agora quero comprar uma camisa amarela... "
E lá foram os dois, ao Ficabem, comprar uma camisa amarela, a camisa amarela!!!
E quando havia uma festa de anos, quando saía para passear, levava vestida a camisa amarela. E eu via que ele se sentia contente e feliz com aquela camisa amarela... vestiu-a muitas vezes... ficava-lhe bem... e ele sentia-se bem com ela vestida...
Há tempos perguntei à minha mãe: " Oh mãe, então a camisa amarela do pai? nunca mais o vi com ela vestida!?!"
E a minha mãe, num tom muito natural disse-me: "Sabes, de tanto ser lavada, está quase branca!!! já não se nota que era amarela !..."
"Oh, o pai deve estar muito triste, pois ela gostava muito dela?"
" Pois... se calhar temos que lhe comprar outra! ele gostava muito da camisa amarela!!!" - respondeu-me a minha mãe, sem grande convicção.
Agora já sei, porque o meu pai quis ter a camisa amarela... só os galãs usam camisa amarela!!

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

A MARMELADA DA AVÓ BÁRBARA

Onze anos, depois de se terem casado, o meu avô, de 38 anos, morreu com uma trombose .
A minha avó, com 35 anos, ficou viúva. Estava grávida, e quatro meses depois, nasceu a minha tia Maria Zé. Ficou com cinco filhos. Todos menores de idade: a minha mãe tinha 7 anos e depois seguiam-se os restantes quatro filhos, o meu tio Jacinto, a minha tia Maria Zulmira, o meu tio Zé e a minha tia Maria Zé.
Quando eu era criança, muitas vezes, ia dormir com a minha avó. Como habitualmente, saíamos da casa dos meus pais, onde tínhamos passado o serão e lá íamos nós as duas, abraçadas uma à outra, pela rua escura, até à sua casa; a minha mãe ficava à porta da nossa casa, com o candeeiro a petróleo na mão, até nos ver entrar. Nunca dormiu sozinha. Quando a minha tia Maria Zé ia para Estremoz e quando mais tarde se casou, alguém tinha que ir dormir com ela, pois era muito medrosa.
Quando chegávamos junto da porta, a minha avó procurava a chave, que nunca estava no bolso onde ela procurava. Assim, muitas vezes, ficávamos ali ao frio, eu esperando impaciente para entrar e a minha avó revistando todos os bolsos. Metia a mão, voltava a meter, e nada! a chave nunca aparecia!
- " Ai filha, queres ver que perdi a chave!!! mas eu quando fechei a porta, meti-a no bolso!! onde é que ela está??!... queres ver que a deixei em casa da tua mãe, em cima da mesa!?!, ora esta!! ..." e ia falando, enquanto continuava a busca incessante... Levávamos sempre algum tempo naquela "cena" até que finalmente aparecia a chave!!! A noite estava escura como breu, e o conseguir meter a chave na fechadura era outra aventura! às vezes, tínhamos que acender fósforos, que se apagavam constantemente, para vermos o buraco da fechadura.
Finalmente, entrávamos.
A porta da entrada dava para a antiga loja, desactivada e fechada há alguns anos. Em cima do balcão estava o candeeiro a petróleo, com a chama muito baixinha, para gastar pouco, com a luz muito mortiça. Mal entrávamos, a minha avó levantava a luz do candeeiro, pegava-lhe e lá íamos nós, uma atrás da outra, corredor fora, até à cozinha.
A casa era muito grande. Reinava o silêncio. Contudo, ouviam-se sempre barulhos estranhos, que me assustavam. Eram o raspar dos cascos das bestas da Prima Maria Ezequiel, que ficavam na cocheira, mesmo ali ao lado; era o estalar das madeiras da mobília velha; eram os ruídos surdos vindos do sotão; eram as folhas das árvores que se agitavam com o vento. Eu precisava de algum tempo, para me habituar ao silêncio e àqueles "sons, depois ficava descansada e tranquila. Nunca fui medrosa, mas aquele ambiente, pesado e austero, provocava-me alguma ansiedade...
Na cozinha, a minha avó punha o candeeiro em cima da grande mesa de madeira. Abria uma das gavetas, e tirava de lá a faca do pão. Era uma faca própria, que servia unicamente para cortar o pão. Todas as semanas era areada com palha de aço, parecia de prata; cortava muito bem, apesar da lâmina estar muito gasta.
Eu sentava-me e observava os movimentos da minha avó. Íamos sempre falando, uma com a outra. A minha avó sempre foi uma óptima conversadora e sempre gostou muito de conversar comigo.
A minha avó tirava as tigelas de louça do armário. Ia buscar o fervedor, com o resto do caldo de farinha, que tinha feito pela manhã e colocava-o em cima da boca do fogão a gás para que aquecesse. Ia à despensa e trazia de lá, o saco de tecido branco imaculado, onde guardava o pão alentejano. Depois ia à casa de jantar buscar a saladeira da marmelada.
O caldo de farinha já estava quente e a minha avó enchia as tigelas. Depois cortava fatias muito finas, a todo o comprimento do pão. Por cima, colocava uma fatia fina de marmelada. Tudo era feito com muita delicadeza, com muita ternura, com muita calma e tranquilidade. Deliciávamo-nos com aquele manjar!!!
A marmelada da minha avó Bárbara era muito saborosa. Muito fina e macia, algumas vezes, encontrávamos torrõezinhos de açúcar, no meio, o que a tornavam ainda mais deliciosa.
A elaboração da marmelada era muito complicada e levava-se um ou mais dias a fazer.
Era feita em casa, com os marmelos da propriedade do meu bisavô. Depois de descascados, os marmelos eram cortados em bocados e cozidos em água. Depois, escorriam-se da água e passavam-se pelo passe-vite. Punha-se essa "massa" de marmelo num tacho de cobre, juntava-se o açucar amarelo e ia ao lume de chão, em cima duma trempe, mexendo-se continuamente, com uma colher de pau. Quando estava no ponto, arredava-se. A marmelada era posta em tigelas de louça que secavam ao sol, durante alguns dias. Depois, cortava-se papel vegetal do tamanho das tigelas e punha-se por cima a tapar a marmelada. Guardava-se e era comida durante todo o ano.
Quando acabávamos de comer, a minha avó metia o pão, novamente, dentro do saco de pano e guardava-o na despensa. As tigelas ficavam em cima do lava-louças, para serem lavadas no dia seguinte. Ia levar a marmelada para o armário da casa de jantar, onde sempre foi o seu lugar e depois de tudo arrumado, lá íamos para a cama.
A minha avó era uma pessoa muito delicada e de muito boas maneiras. Sempre a conheci muito atenta às necessidades da casa, muito perfeita em todas as tarefas que realizava, muito asseada e limpa. Era sobre tudo muito educada. A casa estava sempre muito arrumada e limpa, as roupas da cama era brancas de neve e a minha avó cheirava sempre muito bem... eu adorava ir dormir com ela...

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

DEUMALARANJAADOISGOMOS-BYPASS GÁSTRICO: A MINHA MENTE NÃO "SABE" QUE FIZ O BYPASS GÁSTRICO

DEUMALARANJAADOISGOMOS-BYPASS GÁSTRICO: A MINHA MENTE NÃO "SABE" QUE FIZ O BYPASS GÁSTRICO

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

MAIS UMA PRENDA DE ANOS

Este ano, as prendas não foram de grande valor!!! Bem pelo contrário!! Recebi algumas prendas, mas muito "fraquinhas"!!! A crise económica e financeira que o país atravessa e que nós portugueses e entre estes, os professores, estamos a enfrentar, foi a culpada disso!! mas eu não me estou a queixar, muito pelo contrário! Devo regozijar-me por ter estado rodeada dos meus pais, do meu marido, das minhas amigas, dos meus tios e tias. Mas, para além das prendas "fracotas" que me deram, recebi uma que me deixou muito emocionada e muito feliz.
A minha mãe, com os seus 81 anos, apareceu, logo pela manhã, para me dar os parabéns; trazia um embrulho na mão, que me deu timidamente, como a pedir-me desculpa por me estar a oferecer uma prenda tão insignificante ( a palavra é dela!!); mas junto com a prenda, trazia uma "carta" que me entregou.
Com o seu lindo sorriso, meigo e terno que sempre tem, olhava-me com os olhos brilhantes, pois agora, sempre que me dá um beijo e olha para mim, fica muito comovida. O facto de me ver magra e satisfeita por voltar a sentir-me bem fisicamente, dá-lhe uma enorme alegria e felicidade. O que a minha mãe tem passado nestes últimos meses!! Como ela tem vivido e sofrido todos estes "contratempos" ( para não lhes chamar outro nome!) que de vez enquando, ( mas demasiado frequentemente!!!) , me têm acontecido!!!
Assim, aceitei as prendas e peguei na carta e comecei a lê-la, só para mim. A minha mãe ia perscrutando a minha reacção. O seu sorriso nunca desapareceu dos seus lábios e quando terminei de lê-la, ela estava expectante. As palavras sairam-me com alguma dificuldade, devido à emoção que dificilmente consegui esconder. Abraçámo-nos... beijámo-nos e eu agradeci-lhe este presente tão pessoal, tão extraordinário.
Aqui vai o presente:

Casa Branca, 12/9/2008

Querida filha

Desculpa a prenta que te dei, mas realmente não sabia o que te havia de comprar porque felizmente tens de tudo.
Mas dou-te uma grande prenda que é a minha amizade que tenho por ti; não faço mais que é a minha obrigação, porque tu és uma filha exemplar, nem tenho palavras para te dizer, sei como tu és e o que pensas, mesmo quando estás longe de mim.
E estou sempre descansada contigo, pois tens um belo marido, graças a Deus. Eu vi o que ele era para ti quando estiveste doentinha. Mesmo o pai, que não é de conversar muito, nem reparar para certas coisas, mas dizia-me: - "O Zé é muito amigo da nossa filha, não sabe o que lhe há-de fazer!" e, realmente, era também isso que eu via.
Já não tenho mais tempo. Que para o ano eu cá esteja, para festejarmos os 61, eu e o pai; vamos assim pedindo um ano de cada vez.
Beijos da mãe que te ama, e reconhece o que tu és
M. Amélia

Domingo, 14 de Setembro de 2008

ANIVERSÁRIO

Dia 12 de Setembro fiz 60 anos!!!
Pois é!!!! e o normal seria ficar muito deprimida, aborrecida, e até revoltada... mas não!!! eu estou muito feliz e contente por ter completado 60 Primaveras, Verões ... sei lá!!!
Este contentamento tem razão de ser! pois se em Novembro de 2008, estive quase a despedir-me de todos e deste mundo, como é que eu não hei-de estar feliz!!! Estou viva, magra e feliz ... rodeada dos meus familiares, dos meus amigos, dos meus colegas, dos conhecidos, dos vizinhos, de toda a gente... o brilho de satisfação, que vejo nos olhos de todos eles quando me vêem e quando me perguntam se estou melhor, é compensador e deixa-me muito emocionada e agradecida a todos eles...
No dia dos meus anos, recebi tantos telefonemas, tantas mensagens de SMS, tantos emails, tantos parabéns dados pessoalmente ... como poderia estar aborrecida, por ter feito 60 anos!!! estou grata à vida, que às vezes tem sido muito ingrata comigo!!!, estou grata a todos os que me rodeiam, àqueles que me deram o seu apoio, que me deram as suas orações, àqueles que fazem o favor de ser meus amigos ...
De todos os votos de parabéns, foi o mail, que recebi da minha filha Rita, aqule me deixou mais feliz.
Quero partilhá-lo convosco ( não sei se ela gostará muito disso, mas como ele agora é meu, eu posso dispor dele !):
Querida e linda mãe,

Ontem estive o dia quase todo fora de casa e não consegui escrever este email. Mas hoje já tenho mais tempo (daqui a pouco vou para a praia) e por isso não quis deixar passar a data. Mais uma vez: parabéns! Fizeste sessenta anos. Deve ser estranho, não? Porque tu és muito mais jovem do que o número que agora se segue à tua idade. Tu és muito mais jovem, linda e alegre do que a maioria das pessoas de sessenta. Dizem que a idade é um estado de espírito e tu sem dúvida tens a inteligência para te manteres activa e jovem. Eu tenho muito orgulho na minha mãe. A minha mãe é linda, inteligente, meiga e lutadora. A minha mãe venceu a morte o ano passado e agora está mais bonita e elegante do que nunca. Ainda ontem, a Graça me disse como estavas moderna e bem vestida. Finalmente, as pessoas já não falam de ti por seres gordinha e quais as razões por detrás de todos aqueles quilos. Esta sociedade gosta mais das pessoas magras. Trata-as melhor. E eu fico mais feliz e tranquila por saber que és bem tratada e ainda mais admirada. Porque se sempre foste bonita, agora estás linda e mais importante: estás mais saudável. E isso para mim é o mais importante, porque eu quero que vivas para sempre. A minha vida sem ti não teria sentido e eu seria muito mais fraca e infeliz. Tu dás-me muita, mesmo muita força. E infelizmente tens de continuar a dar-ma porque eu nem sempre a tenho. Às vezes, falha-me a força, a coragem, a energia. Mas eu sou muito, muito feliz por ter uma mãe como tu. A melhor mãe do mundo, apesar de me desarrumar/arrumar a casa de maneira diferente daquela que eu arrumo e apesar de ser um furacãozinho que não deixa ninguém sossegar!! Eu amo-te muito, mãe. E tenho muito orgulho em ti. És o meu exemplo de coragem e força. A minha inspiração.


Em nome das tuas filhas,
Amo-te e desejo-te leveza, paz e saúde.

rita
Tenho ou não razão para estar feliz???

Domingo, 27 de Julho de 2008

A Tia Natália

Há cerca de um mês, a Tia Natália foi operada de urgência a um aneurisma, localizado no cérebro.
Fiquei muito preocupada. Com os seus 84 anos, iria resistir a uma operação tão melindrosa?! Felizmente, conseguiu ultrapassar todas as dificuldades e obstáculos e, apesar de muito debilitada, deram-lhe alta no hospital de Lisboa.
Agora, está no Centro de Apoio a Doentes da Clínica Rainha Santa Isabel, da Cruz Vermelha de Estremoz.
Na passada 3ªfeira, fui visitá-la, com a tia Marialena, o tio Jacinto e o Zé. Quando entrei na sala, vi uma velhinha, "muito velhinha!", de cabeça rapada, sem dentes, sentada num cadeirão, segura "amarrada!" por um lençol, para que não escorregasse nem pudesse sair dali. Recebeu-nos com um grande sorriso. O sorriso meigo e lindo que sempre teve a Tia Natália.
Puxei uma cadeira e sentei-me junto dela. Comecei a falar-lhe e a Tia Marilena perguntou-lhe se sabia quem eu era, e ela muito admirada com a pergunta, respondeu de imediato: " Mas, é a Zuzu!" e sorria-nos, com um sorriso cúmplice...
Ficámos todos muito admirados e felizes quando ouvimos aquela resposta, tão clara e acertada. A tia Marilena voltou a questioná-la se era mesmo eu que ali estava e ela olhou-nos e disse: " É evidente que é a Zuzu!" e continuou: " Hoje, sonhei contigo. Não me lembro do sonho mas sonhei contigo! e esta manhã pensei em ti!"
Quando ouvi estas palavras, ditas com uma enorme dificuldade, senti um arrepio pela espinha... ao mesmo tempo, senti uma alegria enorme por saber que eu tinha estado no seu pensamento. Ainda bem que fui visitá-la, pois tive mais uma alegria, vim confirmar o que sempre e há muito soube: que sempre gostou de mim, que sempre teve por mim um grande carinho e até mesmo admiração pelo meu feitio, pela pessoa que sou.
Eu continuei a falar com ela, mas, por vezes, ou melhor "muito frequentemente!", a Tia Natália usava palavras sem nexo, misturava diversos assuntos na "conversa" e tudo isto com uma dificuldade enorme em exprimir-se. Começava a ser difícil mantermos um diálogo. Ela começava a mostrar cansaço e a desligar-se de nós, começando a dar mais atenção às imagens da telenovela que a televisão transmitia.
E decidimo-nos ir embora, para a deixar descansar...