domingo, 2 de dezembro de 2018

A CASA DA PRIMA MARGARIDA


Luísa era uma criança alegre, muito amiga de conviver e adorava andar a brincar na rua, ia a casa dos avós, visitava a avó viúva, brincava em casa das amigas e o que ela mais desejava era estar fora de casa. Naquele tempo, com 7 ou 8 anos, era aluna da escola primária. E sobretudo, à sexta-feira, tinha a obsessão de ir brincar para casa da sua prima Margarida. Saíam as duas da escola e procurando as ruas que as levavam a casa da prima, sem passar pela sua casa, lá iam elas felizes e contentes, passar o resto da tarde e se possível dormir em casa da prima.
A tia Elisa, mãe da Margarida, estava como habitualmente, sentada no lado de dentro do balcão, junto à gaveta do dinheiro, num cantinho bem resguardado, onde lia; só se levantava dali para ir atender a cliente que chegava, depois voltava para o seu poiso preferido, calma e tranquilamente, lendo qualquer livro de romance, sobretudo. Era uma mulher muito forte, com umas grandes ancas, pernas gordas, que recebia  sempre Luísa e Margarida com um sorriso lindo na sua cara muito redonda e sem rugas, muito meiga, tranquila e simpática.
Luísa e Margarida iam para a pequena cozinha, onde ardia o lume de chão; lanchavam cheias de apetite o pão acabado de cozer no forno de lenha com manteiga e açúcar, com marmelada ou queijo. Sentavam-se à camilha, junto do lume e faziam os trabalhos da escola. Depois, se o tempo estivesse bom, iam para o quintal brincar com o que lhes apetecesse. O quintal não se podia considerar muito bonito. Havia muito lama e tinham que procurar um carreiro de pedra bem junto às paredes para não ficarem atascadas. Uma grande meda de lenha ficava junto ao portão que dava acesso à outra rua e que servia para alimentar o forno onde o pão e os bolos eram cozidos de madrugada. A seguir à lenha havia mais lama e depois o galinheiro. As galinhas estavam numa capoeira de rede, a meio do quintal e Luísa e Margarida entretinham-se tempos sem fim a vê-las com os seus pintainhos atrás da mãe, com os galarispos ou cocós que andavam sempre a brincar uns com os outros, ou com os galos de crista vermelha e de cauda adornada de lindas e grandes penas multicores.
 Aquele quintal não era bonito, mas tinha certos recantos maravilhosos. A tia Elisa adorava flores! Mandava vir pelo correio, sementes de todas as variedades, que ela semeava e via nascer e crescer com toda a paciência. Havia muitos, muitos vasos, junto às paredes que ladeavam o quintal, onde cresciam as sementes que tinham vindo de Lisboa ou do Porto. Luísa e Margarida entretinham-se a ver em qual dos vasos despontavam as primeiras folhinhas, e que mais tarde, seriam as flores maravilhosas do quintal. Não lhe tocavam, pois sabiam como a tia Elisa era ciosa com as suas flores. Na Primavera ou perto do Verão, nasciam flores maravilhosas como amores-perfeitos, brincos de princesa, gladíolos de todas as cores, cravos túnicos, estrelas imperiais e muitas, muitas mais flores.
O poço era outra das curiosidades do quintal, pois servia três casas. Umas paredes pequenas, laterais, dividiam-no, uma parte para a casa da tia Ana, outra para a casa da Maria e outra para a casa da tia Elisa. Não era largo, era estreito, cada vizinha tinha o seu caldeiro emborcado na parte que lhe cabia. Luísa e Margarida adoravam ir para junto do poço, pois a qualquer momento, uma das vizinhas vinha tirar dali água e elas adoravam falar com elas. Parecia um poço e um local de bonecas, parecia um brinquedo, em comparação com o poço enorme, rectangular e de paredes altas que existia no quintal de Luísa.
Quando chovia ou fazia frio, Luísa e Margarida iam brincar para a casa do forno. A casa do forno ficava por cima da padaria. Tinha uma enorme semi-circunferência bojuda e quente, que era a parte de cima do forno que ficava por baixo. Junto às paredes, pois não havia muito espaço, sentadas no chão morno, brincavam às casinhas, com as bonecas e os brinquedos de Margarida. Tanto brincavam que se esqueciam do tempo passar. De tempos a tempos, aparecia uma vizinha com um grande alguidar de roupa à cabeça, que ia estender por cima da cúpula quente. Nos dias de inverno, secar a pouca roupa que tinham era muito problemático. Os tios de Luísa sempre se disponibilizaram para que as vizinhas ali secassem a roupa.
Luísa nunca mais se lembrava da sua casa, nem se lembrava do que a esperava quando voltasse.
A tia Elisa insistia para que Luísa jantasse com eles. Luísa não se fazia rogada. O pai de Margarida, tio de Luísa, a tia Elisa, o primo, a Margarida e Luísa sentados à camilha junto do lume que ardia na chaminé, jantavam calmamente e tranquilamente, e Luísa adorava sobretudo aquela canja de arroz com muito pouco caldo e como segundo prato, a galinha corada com batatas fritas. Ia-se à loja buscar a fruta da época que lá havia para vender. Respirava-se um ambiente calmo e tranquilo. O tio, mal acabava de jantar, sentava-se numa cadeira baixa junto ao lume, a tia lavava a loiça, o primo já crescido saía com os amigos e Luísa e Margarida iam à pressa deitar-se, para quando o empregado dos seus pais a viesse buscar, a tia Elisa dizer que ela já estava na cama. Ela ouvira a tia Elisa a dizer ao empregado que ficassem descansados que Luísa estava a dormir lá em casa.
O quarto ficava junto à mercearia, o cheiro era um misto de pão fresco, de batatas, chouriços, bacalhau, fruta e tudo o que lá se vendia; aquela miscelânea de cheiros entrava pelo quarto e debaixo dos lençóis, Luísa sentia-se num mundo diferente. A cama de ferro, encostada à parede, onde dormiam as duas, ficava ao lado da cama de madeira onde os tios dormiam, fazia parte da restante mobília  de quarto. O tio deitava-se cedo, pois tinha que se levantar às 4h da manhã para ir para a padaria fazer o pão. A prima dormia, mas Luísa ouvia-o a levantar-se, a acender o candeeiro a petróleo, a deitar a água com o jarro na bacia, a lavar-se no móvel lavatório de madeira com a bacia incrustada, onde dos lados estavam penduradas as toalhas de rosto. Por baixo, havia duas portas de madeira onde o balde estava guardado e para onde caía a água da bacia. Cheirava a água fresca e a sabão. O quarto era interior, e por isso durante a noite a escuridão era absoluta. O tio vestia-se, calçava-se e tossia e quando saía apagava o candeeiro e tudo voltava a ficar na escuridão. Luísa ouvia o respirar profundo da tia Elisa e de Margarida a dormirem. Aos poucos, o sono voltava e ela adormecia. A manhã aproximava-se. Luísa começava a ficar assustada por uma vez mais, ter desobedecido à mãe, que não queria que ela saísse da escola e fosse para casa da prima sem avisar. Luísa sabia que se fosse dizer-lhe ela não a deixaria ir!
Os nervos começavam a apoderar-se dela. Já não tinha prazer em comer o pequeno-almoço com o pão acabadinho de cozer. Estava com medo. Pedia à prima que fosse com ela levá-la a casa, pois talvez assim a mãe não lhe batesse. A prima, muito bondosa e muito amiga, dizia-lhe que sim, que ela iria levá-la a casa, talvez assim a mãe não lhe batesse tanto.
As duas, muito juntas, lá iam a caminho da casa de Luísa. Quanto mais se aproximavam da casa, mais os nervos se apoderavam de ambas. Luísa e Margarida iam muito caladas.
Chegavam, a mãe de Luísa, normalmente estava no quintal, sempre hiperactiva, sempre a lidar de um lado para o outro, sempre a trabalhar. Via-as chegar e perguntava a Luísa porque tinha ido dormir a casa de Margarida. Luísa não sabia responder-lhe. Luísa sabia que a vontade de ir para casa da prima era mais forte que o medo de levar uma sova. Margarida tentava defender Luísa, mas não ganhava nada com isso. A mãe de Luísa muito enervada, levantava-lhe as saias curtas e dava-lhe palmadas e mais palmadas até se cansar. Margarida fugia dali, não queria ver a prima a chorar. Luísa ficava com os dedos da mão da mãe marcados nas nádegas, durante horas. Doíam-lhe e ardiam-lhe as nádegas e sobretudo questionava-se, porque razão a mãe lhe havia de bater com tanta raiva, quando ela não tinha feito nada de tão errado. Ia chorar para o seu quarto. Deitava-se na cama, de bruços e chorava, chorava até ficar exausta. Sentia-se tão infeliz! Porque razão a mãe lhe batia assim? Uma das vezes, em que Luísa chegou da casa de Margarida, a mãe foi buscar uma corda grossa e bateu-lhe com a corda, pois quando lhe batia com a mão esta ficava-lhe a doer. Luísa via a expressão de raiva, de zangada, de fúria incontida na cara bonita da mãe. Nem se atrevia a olhar para ela. Porquê aquela raiva? Porquê aquele ar de zangada? Porquê aquela expressão de fúria nos seus olhos e na sua boca? Sentia-se a menina mais infeliz à face da Terra. Pelo dia adiante, Luísa parecia que esquecera a sova. Ria e brincava com os seus brinquedos, como se nada fosse. Contudo, no fundo do seu coração, bem lá no fundo, sentia que a mãe não gostava dela, pois se gostasse não lhe batia tanto, como batia…
E o pai não sabia de nada… chegava alegre e bem disposto, brincalhão como sempre … a mãe nunca lhe disse, que naquela manhã, tinha dado mais uma sova a Luísa…

Alentejo, 2 de Dezembro de 2018