sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TERESA

Não, não iria cair na asneira de fazer o que na sua cabeça se formara há muito… morrer
Não tinha coragem… era cobarde mesmo!!! Pensava nas diversas maneiras e entre tantas que lhe surgiam, achava que todas elas eram estranhas e esquisitas.
Um saco de plástico bem apertado à volta do pescoço, começar a respirar lentamente para dentro do saco e aos poucos, muito aos poucos, começaria a desfalecer… talvez fosse uma maneira… mas era demasiado banal…
Fazer um cocktail de comprimidos, centenas deles, calmantes, antidepressivos, analgésicos e outros que encontrasse na gaveta , batidos no liquidificador com fruta agradável, como morangos, bananas, maçãs, limão,  e  beber de um trago um grande copo daquele sumo… e depois…. Será que o estômago iria aguentar tanto liquido? o mais certo era ter que vomitar tudo aquilo… não , não era a melhor maneira…
Enforcar-se, pendurar-se  de uma trave da casa numa corda, mas nem sabia dar o nó? Nunca soube dar nós e ainda por cima, achava horrível morrer de enforcamento, ficar ali pendurada a balouçar até que a fossem encontrar… língua de fora… roxa…. olhos esbugalhados … também não era a forma mais simpática que queria para morrer…
Com uma arma de fogo????? Nem pensar!!!! Tinha horror a armas de fogo. Tinha horror ao barulho do tiro. Tinha horror a pensar que ficaria com o corpo, ou melhor , a cabeça toda estilhaçada…. sangue… miolos…. massa encefálica… tudo espalhado pela divisão… e se não morresse? Pior ainda…. Pois ela pensava em morrer mesmo… não queria ficar marcada para o resto da vida…
Teresa, conhecera há muitos anos uma mulher que se quis suicidar com lixivia. Bebeu lixivia e o tubo digestivo ficou todo queimado. E não morreu…
 O esófago ficou de tal modo queimado que teve que fazer uma cirurgia onde o esófago foi substituído pela tripa do intestino delgado. Nunca mais teve saúde. Não podia comer quase nada.
Um dia, foi fazer uma endoscopia e descobriram-lhe células cancerosas no intestino delgado que estava a fazer de esófago…sofreu muito, foi operada várias vezes… e finalmente, depois de muito sofrimento para ela e para a família, finalmente morreu… Durante mais de 15 anos, esta mulher viveu num sofrimento enorme, e teve várias vezes oportunidade de dizer à família que se tinha arrependido do acto estúpido de se suicidar bebendo lixívia… Teresa sabia que nunca iria escolher esta forma de morrer!
Sabia que havia muitas outras formas…. Mas agora não queria pensar em mais nenhuma… todas as achava escabrosas… uma desagradáveis para ela, outras desagradáveis para quem a fosse encontrar… 
Iria continuar a ser cobarde…  Afinal havia tanta gente a lutar pela vida… a sofrer tratamentos terríveis para se manter à tona… e agora ela ia fazer esta asneira??!!! O melhor seria esperar tranquilamente a hora… a hora  que chega para todos… 

ISABEL

Não sabia o que sentia. Um aperto no peito, do lado do coração fazia-a respirar bem fundo, mas o oxigénio não chegava lá. Apetecia-lhe dar um grito, um aiiiiii,  dar um grande aiiiii…! E dizia para si: mas porque estou eu assim? Porque me apetece respirar tão fundo, dar um ai, que não seria um ai, seria um grito, um grito de leoa ferida?
 Mas não o poderia fazer… a vizinha do quintal do lado ia assustar-se e ia querer saber a razão daquele grito. Daquele grito que vinha bem cá de dentro… bem junto do coração…. Claro que saíra das cordas vocais… mas ele tinha-se formado muito, muito mais lá no fundo… Do lado esquerdo do coração que sentia tão apertado… junto ao buraco … aquele buraco que se formara no dia em que a filha tinha partido, de um modo tão inesperado, tinha partido para sempre, para o mundo sideral, para a estrela que a esperava desde que nascera.  
Isabel nunca mais foi a mesma, e sentia que em vez de se ter tornado mais meiga, mais tolerante, menos agressiva, sobretudo nas palavras, cada vez se tornava mais agreste, mais revoltada, mais zangada com a vida.
Diziam-lhe: Não há vida sem romance… e a maioria do romance é sempre bem negro.
Ela ouvia, mas não aceitava. Ouvia quem a queria ajudar mas não conseguia que as palavras das amigas lhe ficassem no cérebro… lhe mudassem a maneira de pensar ou de agir.
Tinha momentos em que lhe apetecia partir tudo o que estava à sua volta, partir com um grande estrondo a grande tigela de vidro, que sabia iria partir-se em mil pedacinhos, em mil pedacinhos que se espalhariam pela cozinha, por baixo dos armários, por baixo dos pés, e que depois ainda ia ter que apanhar, varrer todos aqueles vidros minúsculos que se esconderiam nos locais mais incríveis! Não lhe apetecia varrer , queria descanso… queria estar parada e calma, não lhe apetecia andar na cozinha a apanhar vidros despedaçados, minúsculos, invisíveis, bicudos… prontos a espetarem-se-lhe nas solas das pantufas e que se iriam alojar nos dedos dos pés, e de tão pequenos nem os conseguiria ver… só sentiria a dor aguda que lhe provocavam…
Tinha alturas em que lhe apetecia ser um pássaro e voar, voar e não mais voltar. Voar para um mundo onde não fosse obrigada a sorrir, a conviver, a olhar os rostos alegres, tristes , amargurados ou enrugados dos habitantes da vila. Não lhe apetecia ver ninguém… mas isso era anti-social… tinha que dizer bom-dia, olá, cumprimentar e sorrir a todos por quem passava. Interessava-se pela  mulher doente do homem da mercearia, por saber como o neto da senhora da retrosaria estava a crescer, quantos dentinhos já tinha, se já gatinhava… e todos, por quem passava,  pensavam que ela estava bem, que apesar do rosto carregado com que se olhava ao espelho e via os olhos tristes e cansados, tinha conseguido ultrapassar a dor da perda da filha… e ela tentava enganá-los sorrindo, falando, ouvindo os seus problemas e os seus lamentos… mas o que Isabel queria era não estar ali, queria estar fora daquele pequeno mundo…

Quando ia para perto do mar, olhava aquela vastidão de água, olhava e pensava como seria fácil entrar por ali adentro, devagar, muito devagar, e começar a perder o pé, e a sentir que a água iria entrar-lhe nos ouvidos, depois caminharia mais um pouco e ficaria submersa naquela água salgada… e deixar-se-ia ir… e não se debateria porque o que ela queria era ir… ir… ir para lá do horizonte… mesmo que para isso tivesse que engolir muita água, muita água salgada, amarga, amarga como era a sua vida…