sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A CASA VAZIA...

A CASA VAZIA DOS MEUS PAIS QUE NELA HABITARAM 65 ANOS 
A casa dos meus pais está fechada  desde que o meu pai Vitalino partiu e a minha mãe Amélia veio para minha casa. Entro, o vazio e o silêncio reinam ali. Tudo está no seu lugar, nada se alterou, no entanto, quando entro vejo que a casa está vazia, triste, escura, sózinha... as cadeiras onde todos os dias se sentavam à volta da camília, estão ali, postas à espera que os donos da casa regressem e se sentem tranquilamente a ver a televisão, a comer, a conversar. A casa de jantar onde sempre podíamos encontrar o pai Vitalino entusiasmado com o programa do Preço Certo, do Portugal em Directo e dos Batanetes, que o faziam rir, naquele rir fácil que sempre teve.
Eu chegava e estavam os dois sentados a ver o programa, depois do beijo da chegada, eu sentava-me disposta a fazer-lhes companhia, e a minha mãe começava a conversar comigo, enquanto o meu pai continuava entusiasmado com o programa que estava a ver. O som da televisão estava alto, pois o ouvido do meu pai já não estava nas melhores das formas, as palavras dos apresentadores interferiam com a nossa conversa, então a  minha mãe dizia logo: " Oh Vitalino, baixa isso!!! estás a levar tanto tempo a baixar o som!!!!" ao mesmo tempo que lhe fazia gestos para que ele baixasse o som... e o meu pai, com os seus 90 anos, procurava o comando, com a mão a tremer, procurava o botão do volume, e tudo isto era feito com ele a olhar entusiasmado para a televisão... a minha mãe não desarmava: " Vitalino, estás a levar tanto tempo!! baixa lá o som!"  e ele,coitado, fazia o que a minha mãe lhe pedia... então eu via que ele ia perder o melhor do programa e dizia a minha mãe: " Oh mãe!! nós é que estamos a conversar e a incomodar o pai!!... vamos para a cozinha!!!.... o pai está tão entusiasmado com a televisão!!..." Umas vezes íamos mesmo para a cozinha para conversarmos e o deixarmos à vontade com os seus programas preferidos, outras vezes a minha mãe levava a melhor, de tal maneira, que o meu pai na sua calma e tranquilidade que lhe eram características desligava a televisão. Então, nós as duas dizíamos em unissuno:" Oh pai! oh Vitalino! não era preciso desligar a televisão!!! era apenas baixar o som!!!"  e o meu pai, na sua postura habitual calma e bonacheirona dizia: " Não faz mal! o programa não me estava a interessar!" e tentava convencer-nos de que era mesmo verdade.... que não estava interessado... contudo, passados uns cinco minutos já estava a ligar de novo a televisão, na sua maneira muito peculiar de pegar no comando, com a sua mão trémula, elevava o braço e apontava o comando para a televisão enquanto carregava com toda a força nos botões ...
Assim, era muitas e muitas das vezes em que eu ia vê-los, por volta das seis horas da tarde, depois de se terem levantado da sesta e de terem lanchado o seu chá quente com bolos, bolachas ou broas. 
Hoje, entro na casa vazia, rodeada de silêncio, acendo as luzes, pois não quero abrir as janelas, e entro nos quartos, na sala, na cozinha, na loja e o cheiro dos meus pais que habitaram aquela casa 65 anos, perdura nela, nas roupas penduradas nos roupeiros, nas gavetas cheias  com as suas roupas e os seus objectos pessoais  e vejo que a casa nunca mais será a mesma, nunca mais o som da televisão se sobreporá às nossas conversas...

1 comentário:

Risoleta da Conceição disse...

... no entanto o amor não parte, porque está para lá das formas. Ali estão eles no teu coração, sempre.
Toda a minha ternura para ti Zuzu, para eles. Para os que sempre nos amarão, para aqueles que amaremos sempre. Mesmo depois da forma.