sábado, 17 de dezembro de 2022

SOLIDÃO

Jerónimo sentia o peso dos 87 anos, cada dia mais debilitado e triste.
Sentia-se sozinho, naquela casa humilde, mas sempre limpa, onde sempre vivera com a mulher e a filha.
Havia oito longos anos, que Jerónimo perdera a sua companheira de 56 anos de casados. Para ele tudo tinha terminado no dia em que Amália fora a enterrar.
 Exteriormente, a casa estava em derrocada, mas ele não tinha nem dinheiro nem ânimo para a mandar restaurar. Com uma reforma tão pequena, como se poderia aventurar a combinar com o pedreiro o restauro da casa? Sabia que os vizinhos o criticavam por aquele desmazelo, mas “cada um sabe da sua vida!” e ele sabia que não podia meter-se em aventuras dessas. Em alimentação, em médicos e em medicamentos muito pouco lhe restava da reforma. Dava para ir ao café beber um descafeinado e falar um pouco com quem lá encontrasse. Procurava que lhe sobrassem algumas moedas num mealheiro improvisado para dar à filha e ao genro, no Natal.
A filha casara muito nova e fora morar para Palmela. Arranjou trabalho como recepcionista num dentista, e raramente vinha a casa do pai, pois ao Domingo tinha que tratar da casa, das roupas e do marido.
Jerónimo trabalhara como funcionário público, nos ministérios do Terreiro do Paço durante 38 anos. Na secção, todos o consideravam, com seu feitio calado e reservado, era um funcionário rigoroso e responsável no seu trabalho. Os colegas viam-no chegar sempre com aquele ar tristonho, mas de cumprimento afável; com o jornal “o Século” debaixo do braço, que lera durante a travessia do barco do Barreiro para Lisboa. Andava sempre com a camisa branca de neve, gravata, as calças vincadas, chapéu e gabardine, pois a sua Amália fazia questão e sentia orgulho de lavar, passar a ferro todas as semanas a pouca roupa que ele tinha. Ela vinha sempre à janela fazer-lhe adeus, quando ele saía para o emprego, logo muito cedo, vestido com a sua gabardine e chapéu.
Nunca tivera uma vida abastada, bem pelo contrário! O que valia era que a mulher era muito poupada e organizada com o vencimento que ele lhe entregava no envelope mensalmente. Para ele, ficavam apenas uns trocos, pois os únicos vícios que tinha, era o tabaco e comprar o jornal diário. 
Naquele dia, como em todos os dias, veio do café do bairro, meteu a chave à porta , entrou em casa e encontrou-a  arrumada e limpa como sempre a deixava, antes de sair. Nunca deixou de limpar os móveis, os bibelôs, de fazer a cama, de lavar a loiça, de arrumar tudo como sempre a sua Amália fizera.
Olhou e ficou surpreendido, pois, sentada no velho sofá, tinha a visita inesperada da filha, àquela hora e num dia de semana… porque teria ela vindo visitá-lo?

 

USMMA                     Zuzu                            Dezembro 2022





O SAPO

 Dois rapazes iam a andar pelo campo, no meio das ervas quando viram um sapo.

Olha um sapo! e que feio! vou matá-lo num instante e traçá-lo de meio a meio, que animal tão repugnante e não sei para que medra ( cresce) bicho tão feio e tão mau. Vou matá-lo com uma pedra e depois espeto-lhe um pau!

- Não o mates! porque o odeias e ofendes este animal? Matá-lo com tanto anseio, ele já te fez mal?

 A mim não farás por ventura, não sabes?  fazem muitas desgraças. Os que desta raça fazem muitas desventuras e causam muitas desgraças   (frase confusa)

- 3x7 são 21, amanhã há mais, também é dia! 

Idosa de 95 anos, analfabeta, utente do lar de Casa Branca - Sousel

Ter o sapo como animal de poder é, acima de tudo, um símbolo da pureza e da capacidade de limpeza e purificação da água, onde o sapo passa a maior parte do tempo de sua vida. Além disso, vem com a capacidade de juntar o melhor de dois mundos, já que o sapo transita bastante pela terra também.

Animais de poder: Sapo - Eu Sem Fronteiras



O MENINO E A LARANJA

Um menino pequenino quis comer uma laranja que estava na laranjeira.

Pulava. Saltava. Mas ela estava tão alta que ficou a pensar na maneira de chegar à laranja redondinha, uma bola tão lindinha!

Vai ficando a pensar e esperando na maneira de lhe chegar. Quando veio o vento e a derrubou.

Apanhou-a e comeu-a muito contente.



História contada por uma utente do Lar de Casa Branca-Sousel, com 93 anos.





domingo, 2 de dezembro de 2018

A CASA DA PRIMA ZINDA

Zuzu era uma criança alegre, muito amiga de conviver e adorava andar a brincar na rua, ia a casa dos avós, visitava a avó viúva, brincava em casa das amigas mas o que ela mais desejava, era estar fora de casa.
 Naquele tempo, com 7 ou 8 anos, era aluna da escola primária. E sobretudo, à sexta-feira, tinha a obsessão de ir brincar para casa da sua prima Zinda, que morava na parte de baixo da aldeia. Saíam as duas da escola e procurando as ruas que as levavam a casa da prima, sem passar pela sua casa, lá iam elas, felizes e contentes, passar o resto da tarde
e se possível dormir em casa da prima.
A tia Adozinda, mãe da Zinda, estava como habitualmente, sentada no lado de dentro do balcão, junto à gaveta do dinheiro, num cantinho bem resguardado, onde lia; só se levantava dali, para ir atender a cliente que chegava, depois voltava para o seu poiso preferido, calma e tranquilamente, lendo o livro de romance, pois ela adorava ler. Era uma mulher muito forte, com umas grandes ancas, pernas gordas, que recebia  sempre Zuzu e Zinda com um sorriso lindo na sua cara muito redonda e sem rugas, muito meiga, tranquila e simpática.
Zuzu e Zinda iam para a pequena cozinha, onde ardia o lume de chão; lanchavam, cheias de apetite, o pão com manteiga e açúcar, com marmelada ou queijo, que tinha acabado de sair do forno de lenha do tio João Perninhas. Sentavam-se à camilha, junto do lume e faziam os trabalhos da escola. Depois, se o tempo estivesse bom, iam para o quintal brincar com o que lhes apetecesse. O quintal não se podia considerar muito bonito. Havia muita lama e tinham que procurar um carreiro de pedra bem junto às paredes para não ficarem atascadas. Uma grande meda de lenha ficava junto ao portão, que dava acesso à outra rua e que servia para alimentar o forno, onde o pão e os bolos eram cozidos de madrugada. A seguir à lenha havia mais lama e depois o galinheiro. As galinhas estavam numa capoeira de rede, a meio do quintal e Zuzu e Zinda entretinham-se tempos sem fim, a vê-las com os seus pintainhos atrás da mãe, com os galarispos ou cocós que andavam sempre a brincar uns com os outros, ou com os galos de crista vermelha e de cauda adornada de lindas e grandes penas multicores.
 Aquele quintal não era bonito, mas tinha certos recantos maravilhosos. A tia Adozinda adorava flores! Mandava vir pelo correio, sementes de todas as variedades, que ela semeava e via nascer e crescer com toda a paciência. Havia muitos, muitos vasos, junto às paredes que ladeavam o quintal, onde cresciam as sementes que tinham vindo de Lisboa ou do Porto. 
As crianças entretinham-se a ver em qual dos vasos despontavam as primeiras folhinhas, e que mais tarde, seriam as flores maravilhosas do quintal. Não lhes tocavam, pois sabiam como a tia Adozinda era ciosa com as suas flores. Na Primavera ou perto do Verão, nasciam flores maravilhosas como amores-perfeitos, brincos de princesa, gladíolos de todas as cores, cravos túnicos, estrelas imperiais e muitas, muitas mais flores.
O poço era outra das curiosidades do quintal, pois servia três casas. Umas paredes pequenas, laterais, dividiam-no, uma parte para a casa onde sempre morara a minha bisavó Ana Rita, e que agora pertencia à Prima Joaquina Inácia, onde as criadas iam colocar grandes cestos cheios de garrafas para refrescarem, outra parte, para a casa da tia Josefa Mercês e outra para a casa da tia Adozinda. Não era largo, era estreito, cada vizinha tinha o seu caldeiro emborcado na parte que lhe cabia. Zuzu e Zinda adoravam ir para junto do poço, pois a qualquer momento, uma das vizinhas vinha tirar dali água e elas adoravam falar com elas. Parecia um poço e um local de bonecas, parecia um brinquedo, em comparação com o poço enorme, rectangular e de paredes altas que existia no quintal de Zuzu.
Quando chovia ou fazia frio, elas iam brincar para a casa do forno. A casa do forno ficava por cima da padaria. Tinha uma enorme semi-circunferência bojuda e quente, que era a parte de cima do forno o qual ficava por baixo. Junto às paredes, pois não havia muito espaço, sentadas no chão morno, brincavam às casinhas, com as bonecas e os brinquedos de Zinda. Tanto brincavam que se esqueciam do tempo passar. De tempos a tempos, aparecia uma vizinha com um grande alguidar de roupa à cabeça, que ia estender por cima da cúpula quente. Nos dias de inverno, as pessoas mais pobres tinham pouca roupa e secar a pouca roupa que tinham era muito problemático. Os tios de Zuzu sempre se disponibilizaram para que as vizinhas ali secassem a roupa.
Zuzu nunca mais se lembrava da sua casa, nem se lembrava do que a esperava quando voltasse.
A tia Adozinda insistia para que ela jantasse com eles. Ela não se fazia rogada. O pai de Zinda, tio de Zuzu, a tia Adozinda, o primo Manuel Joaquim, Zinda e Zuzu e muitas vezes a empregada Gertrudes, sentados à camilha junto do lume que ardia na chaminé, jantavam calmamente e tranquilamente, e Zuzu adorava sobretudo aquela canja de arroz com muito pouco caldo e como segundo prato, a galinha corada com batatas fritas. Ia-se à loja buscar a fruta da época, que lá havia para vender. Respirava-se um ambiente calmo e tranquilo. O tio João, mal acabava de jantar, sentava-se numa cadeira baixa junto ao lume, a tia lavava a loiça, o primo já crescido saía com os amigos e Zuzu e Zinda iam à pressa deitar-se, para quando o empregado dos seus pais a viesse buscar, a tia Adozinda dizer-lhe que ela já estava na cama.
Ouviam bater à porta. Era o Chico, empregado da casa da Zuzu, que a vinha buscar a mandado da mãe. Ela ouvia a tia Adozinda a dizer ao Chico que ficassem descansados que ela já estava a dormir, e que ficava lá em casa.
O quarto ficava junto à mercearia, o cheiro era um misto de pão fresco, de batatas, chouriços, bacalhau, fruta e tudo o que lá se vendia; aquela miscelânea de cheiros entrava pelo quarto e ficava debaixo dos lençóis, Zuzu sentia-se num mundo diferente. A cama de ferro, encostada à parede, onde dormiam as duas primas, ficava ao lado da cama de madeira onde os tios dormiam, fazia parte da restante mobília  de quarto. O tio deitava-se cedo, pois tinha que se levantar às 4h da manhã para ir para a padaria fazer o pão. A prima dormia, mas Zuzu ouvia-o a levantar-se, a acender o candeeiro a petróleo, a deitar a água com o jarro na bacia, a lavar-se no móvel-lavatório de madeira com a bacia incrustada, onde dos lados estavam penduradas as toalhas de rosto. Por baixo, havia duas portas de madeira onde um balde estava guardado e para onde caía a água suja da bacia. Cheirava a água fresca e a sabão. O quarto era interior, e por isso durante a noite, a escuridão era absoluta. O tio vestia-se, calçava-se e tossia e quando saía apagava o candeeiro e tudo voltava a ficar na escuridão. Zuzu ouvia o respirar profundo da tia  e da prima a dormirem. Aos poucos, o sono voltava e ela adormecia. 
A manhã aproximava-se. Zuzu começava a ficar assustada, por uma vez mais, ter desobedecido à mãe, que não queria que ela saísse da escola e fosse para casa da prima sem avisar. Zuzu sabia que se fosse pedir-lhe ela não a deixaria ir!
Os nervos começavam a apoderar-se dela. Já não tinha prazer em comer o pequeno-almoço com o pão acabadinho de cozer. Estava com medo. Pedia à prima que fosse com ela levá-la a casa, pois talvez assim a mãe não lhe batesse. A prima, muito bondosa e muito amiga, dizia-lhe que sim, que ela iria levá-la a casa, talvez assim a mãe não lhe batesse tanto.
As duas, muito juntas, lá iam a caminho da casa de Zuzu. Quanto mais se aproximavam da casa, mais os nervos se apoderavam de ambas. As duas crianças iam muito caladas.
Chegavam. A mãe de Zuzu, normalmente, estava no quintal, sempre hiperactiva, sempre a lidar de um lado para o outro, sempre a trabalhar. Via-as chegar e perguntava a Zuzu porque tinha ido dormir a casa de Zinda. Ela não sabia responder-lhe. Sabia, apenas, que a vontade de ir para casa da prima era mais forte que o medo de levar uma sova. Zinda tentava defender a prima, mas não ganhava nada com isso. A tia Amélia, mãe da Zuzu, muito enervada, levantava-lhe as saias curtas e dava-lhe palmadas e mais palmadas até se cansar. Zinda fugia dali, não queria ver a prima a chorar. Zuzu ficava com os dedos da mão da mãe marcados nas nádegas, durante horas. Doíam-lhe e ardiam-lhe as nádegas e sobretudo questionava-se: -  "Porque razão a mãe lhe havia de bater com tanta raiva, quando ela não tinha feito nada de tão errado!" Ia chorar para o seu quarto. Deitava-se na cama, de bruços e chorava, chorava até ficar exausta. Sentia-se tão infeliz! Porque razão a mãe lhe batia assim? Uma das vezes, em que Zuzu chegou da casa de Zinda, a mãe foi buscar uma corda grossa e bateu-lhe com a corda, pois quando lhe batia com a mão, esta ficava-lhe a doer. Ela via na cara bonita da mãe, a expressão de raiva, de zangada, de fúria incontida . Nem se atrevia a olhar para ela. Porquê aquela raiva? Porquê aquele ar de zangada? Porquê aquela expressão de fúria nos seus olhos e na sua boca? Sentia-se a menina mais infeliz à face da Terra. Pelo dia adiante, Zuzu parecia que esquecera a sova. Ria e brincava com os seus brinquedos, como se nada fosse. Contudo, no fundo do seu coração, bem lá no fundo, sentia que a mãe não gostava dela, pois se gostasse não lhe batia tanto, como batia…
E o pai não sabia de nada… chegava alegre e bem disposto, brincalhão como sempre … a mãe nunca lhe disse, que naquela manhã, tinha dado mais uma sova a Zuzu… que adorava ir dormir a casa dos tios.

Alentejo, 2 de Dezembro de 2018
alterado no dia 7 Fevº 2023

domingo, 13 de dezembro de 2015

DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA

Terça-feira, 7 de abril de 2015
DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA
Devia morer-se de outtra maneira.
transformamo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhã, convocaríamos os amigos mais intimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: " Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje, às 9 horas. Traje de passeio."

E, então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, víriamos todos assitir à despedida. Apertos de mãos quentes. ternura de calafrio. "Adeus!  Adeus!" E pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... ( primeiro, os olhos ... em seguida, os lábios ... depois o cabelo...) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão súbtil .... tão pólen ... como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de láios azuis ...

José Gomes Ferreira

in blog de Rita Baleiro : http://como1livroaberto.blogspot.pt/2015/04/devia-morrer-se-de-outra-maneira.html

TEXTO DE CÉLIA PIRES

Há encantos e desencantos. Várias faces no mesmo ser. Há dúvidas e certezas. Mentiras e verdades. Há dias e noites. Sombras e luzes. Há prantos e risos. Momentos de ódio. Actos de amor. Há chuvas ácidas e granizos. Ventanias. Raios de sol sublimados. Há mãos douradas. Abraços infinitos. Há luares abençoados. Mares indefinidos. Há amizades perpétuas. Estios efémeros. Enganos indescritíveis. Há instantes perdidos. Águas furtadas. Túneis amarelecidos. Há dores imensas. Veleidades. Segredos adormecidos. Há ignorâncias exaltadas. Talentos recolhidos. Há arco-íris. Palco. Máscaras. Injustiça desmedida. Há poesia revelada. Retrato falado. Cântico sentido. Há vida. Morte. Há princípio. Fim.  

Célia Pires  14 de Dezembro 2015

António Variações - O Melhor de António Variações

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TERESA

Não, não iria cair na asneira de fazer o que na sua cabeça se formara há muito… morrer
Não tinha coragem… era cobarde mesmo!!! Pensava nas diversas maneiras e entre tantas que lhe surgiam, achava que todas elas eram estranhas e esquisitas.
Um saco de plástico bem apertado à volta do pescoço, começar a respirar lentamente para dentro do saco e aos poucos, muito aos poucos, começaria a desfalecer… talvez fosse uma maneira… mas era demasiado banal…
Fazer um cocktail de comprimidos, centenas deles, calmantes, antidepressivos, analgésicos e outros que encontrasse na gaveta , batidos no liquidificador com fruta agradável, como morangos, bananas, maçãs, limão,  e  beber de um trago um grande copo daquele sumo… e depois…. Será que o estômago iria aguentar tanto liquido? o mais certo era ter que vomitar tudo aquilo… não , não era a melhor maneira…
Enforcar-se, pendurar-se  de uma trave da casa numa corda, mas nem sabia dar o nó? Nunca soube dar nós e ainda por cima, achava horrível morrer de enforcamento, ficar ali pendurada a balouçar até que a fossem encontrar… língua de fora… roxa…. olhos esbugalhados … também não era a forma mais simpática que queria para morrer…
Com uma arma de fogo????? Nem pensar!!!! Tinha horror a armas de fogo. Tinha horror ao barulho do tiro. Tinha horror a pensar que ficaria com o corpo, ou melhor , a cabeça toda estilhaçada…. sangue… miolos…. massa encefálica… tudo espalhado pela divisão… e se não morresse? Pior ainda…. Pois ela pensava em morrer mesmo… não queria ficar marcada para o resto da vida…
Teresa, conhecera há muitos anos uma mulher que se quis suicidar com lixivia. Bebeu lixivia e o tubo digestivo ficou todo queimado. E não morreu…
 O esófago ficou de tal modo queimado que teve que fazer uma cirurgia onde o esófago foi substituído pela tripa do intestino delgado. Nunca mais teve saúde. Não podia comer quase nada.
Um dia, foi fazer uma endoscopia e descobriram-lhe células cancerosas no intestino delgado que estava a fazer de esófago…sofreu muito, foi operada várias vezes… e finalmente, depois de muito sofrimento para ela e para a família, finalmente morreu… Durante mais de 15 anos, esta mulher viveu num sofrimento enorme, e teve várias vezes oportunidade de dizer à família que se tinha arrependido do acto estúpido de se suicidar bebendo lixívia… Teresa sabia que nunca iria escolher esta forma de morrer!
Sabia que havia muitas outras formas…. Mas agora não queria pensar em mais nenhuma… todas as achava escabrosas… uma desagradáveis para ela, outras desagradáveis para quem a fosse encontrar… 
Iria continuar a ser cobarde…  Afinal havia tanta gente a lutar pela vida… a sofrer tratamentos terríveis para se manter à tona… e agora ela ia fazer esta asneira??!!! O melhor seria esperar tranquilamente a hora… a hora  que chega para todos… 

ISABEL

ISABEL

Não sabia o que sentia. 
Um aperto no peito, do lado do coração fazia-a respirar bem fundo, mas o oxigénio não chegava lá.
 Apetecia-lhe dar um grito, um aiiiiii,  dar um grande aiiiii…! 
E dizia para si: mas porque estou eu assim? Porque me apetece respirar tão fundo, dar um ai, que não seria um ai, seria um grito, um grito de leoa ferida?
 Mas não o poderia fazer… a vizinha do quintal do lado ia assustar-se e ia querer saber a razão daquele grito. Daquele grito que vinha bem cá de dentro… bem junto do coração…. Claro que saíra das cordas vocais… mas ele tinha-se formado muito, muito mais lá no fundo… Do lado esquerdo do coração que sentia tão apertado… junto ao buraco … aquele buraco que se formara no dia em que a filha tinha partido, de um modo tão inesperado, tinha partido para sempre, para o mundo sideral, para a estrela que a esperava desde que nascera.  

Isabel nunca mais foi a mesma, e sentia que em vez de se ter tornado mais meiga, mais tolerante, menos agressiva, sobretudo nas palavras, cada vez se tornava mais agreste, mais revoltada, mais zangada com a vida.
Diziam-lhe: Não há vida sem romance… e a maioria do romance é sempre bem negro.
Ela ouvia, mas não aceitava. Ouvia quem a queria ajudar mas não conseguia que as palavras das amigas lhe ficassem no cérebro… lhe mudassem a maneira de pensar ou de agir.
Tinha momentos em que lhe apetecia partir tudo o que estava à sua volta, partir com um grande estrondo a grande tigela de vidro, que sabia iria partir-se em mil pedacinhos, em mil pedacinhos que se espalhariam pela cozinha, por baixo dos armários, por baixo dos pés, e que depois ainda ia ter que apanhar, varrer todos aqueles vidros minúsculos que se esconderiam nos locais mais incríveis! Não lhe apetecia varrer , queria descanso… queria estar parada e calma, não lhe apetecia andar na cozinha a apanhar vidros despedaçados, minúsculos, invisíveis, bicudos… prontos a espetarem-se-lhe nas solas das pantufas e que se iriam alojar nos dedos dos pés, e de tão pequenos nem os conseguiria ver… só sentiria a dor aguda que lhe provocavam…
Tinha alturas em que lhe apetecia ser um pássaro e voar, voar e não mais voltar. Voar para um mundo onde não fosse obrigada a sorrir, a conviver, a olhar os rostos alegres, tristes , amargurados ou enrugados dos habitantes da vila. Não lhe apetecia ver ninguém… mas isso era anti-social… tinha que dizer bom-dia, olá, cumprimentar e sorrir a todos por quem passava.
 Interessava-se pela  mulher doente do homem da mercearia, por saber como o neto da senhora da retrosaria estava a crescer, quantos dentinhos já tinha, se já gatinhava… e todos, por quem passava,  pensavam que ela estava bem, que apesar do rosto carregado com que se olhava ao espelho e via os olhos tristes e cansados, tinha conseguido ultrapassar a dor da perda da filha… e ela tentava enganá-los... sorrindo, falando, ouvindo os seus problemas e os seus lamentos… mas o que Isabel queria era não estar ali, queria estar fora daquele pequeno mundo…

Quando ia para perto do mar, olhava aquela vastidão de água, olhava e pensava como seria fácil entrar por ali adentro, devagar, muito devagar, e começar a perder o pé, e a sentir que a água iria entrar-lhe nos ouvidos, depois caminharia mais um pouco e ficaria submersa naquela água salgada… e deixar-se-ia ir… e não se debateria porque o que ela queria era ir… ir… ir... para lá do horizonte… mesmo que para isso tivesse que engolir muita água, muita água salgada, amarga, amarga como era a sua vida…



sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O SONHO DE LUISA

 Luísa desde que se levantara sentia-se estranha.

O sonho que tivera naquela noite, tinha-lhe deixado a cabeça meio zonza.
Não se lembrava o que tinha sonhado, queria lembrar-se, mas nada lhe vinha à memória. 
Sentia , ou melhor, lembrava-se vagamente, que havia muita gente, talvez nuns daqueles pic-nics que o pai tanto gosto tinha em organizar.
Havia gente... muita gente que falavam em grupo... o que falariam? 
Crianças brincavam à volta dos grupos de adultos... corriam à roda, corriam em zigzag... riam ... apanhavam-se uns aos outros... havia barulho.
Que pessoas seriam essas?   com quem teria "dormido" ela? no seu inconsciente onde e quem eram essas pessoas desconhecidas?
Como gostaria de saber! onde estavam? o que faziam? o que diziam? quem eram?
O sonho não lhe saiu do pensamento grande parte do dia. 
Zuzu   
massamá, 7 fevereiro 2023