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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

HOMENAGEM AO DR. JOSÉ VARELA

A Feliciana é uma amiga de sempre. Nasceu, cresceu, casou, teve os seus filhos e desde sempre tem vivido em Casa Branca. É uma mulher sensível, meiga e com alma de poeta.
Há cerca de 3 anos, depois de uma conversa comigo, foi buscar o caderno onde escrevia os seus poemas. Fiquei admirada com a quantidade e a qualidade destes poemas; Fiquei admirada com a sua inspiração genuína; com a sua capacidade de encontrar as palavras certas para "aquele" poema.
Aconselhei-a a mostrar aos outros o que escrevia, e então, a partir desse dia, ultrapassou o medo, a vergonha e a timidez e começou a concorrer aos encontros de poetas populares que se realizam aqui no Alentejo e até mais longe. Agora, participa com entusiasmo nos concursos e os seus poemas são sempre muito elogiados.
Ontem, escreveu este poema, que eu não resisto a transcrever aqui:

HOMENAGEM AO DR JOSÉ VARELA


Dum amigo quero falar
Eu precisava escrever
Para poder elogiar
O seu enorme saber
Do Alentejo gostar
E a todos bem querer
De cá partiu em rapaz
E de tudo foi capaz.

Sua viagem percorreu
Estudou p’ra se formar
A esta terra pertenceu
Era seu ninho e seu lar
O seu corpo padeceu
Sofreu, mas sempre a lutar
Pelos amigos respeitado
P’ra família muito amado

Escreveu com imaginação
O livro Aldeia Branca
Aos amigos deu a mão
Não esquecendo a infância
E tinha a sua razão
Aqui sentiu confiança
Hoje a chama se apagou
Mas, seu valor nos deixou.

Casa Branca, 28 de Setembro de 2007
Feliciana Capela Silva

domingo, 16 de setembro de 2007

HOJE OS SINOS DOBRAM...

Hoje os sinos dobram…Hoje os sinos dobram em Casa Branca.
Em Casa Branca, os sinos da Igreja Matriz choram… choram um dos seus filhos que mais a amava.
Como o tio amava a sua Casa Branca!…
A aldeia das casas branquinhas; as pessoas com quem sempre conviveu na infância, na adolescência e em adulto, sempre tiveram um lugar muito especial no seu coração.
A sua paixão pelas coisas da aldeia, o seu apego às tradições, alimentaram a sua inspiração de artista… assim surgiram os contos, surgiram as poesias, surgiram as crónicas e agora mais tarde, os quadros a óleo, onde o branco da cal, os verdes dos campos, os vermelhos das papoilas, os amarelos dos malmequeres aparecem em todo o seu esplendor.
A luta constante pela perfeição, o seu perfeccionismo inato, o desejo permanente de fazer sempre bem e melhor, fizeram que as obras que nos deixa, não fossem em maior número … era um eterno insatisfeito, era um constante desafiador do fazer sempre bem e melhor.
Tudo que o tio escrevia, pintava, para mim estava bom, mesmo perfeito, e eu dizia-lhe: “Tio isso está lindo! esses versos estão belíssimos… esse quadro está muito bonito… as cores estão muito bem conjugadas!…” e o tio sempre exigente consigo, olhava e o seus expressivos olhos azuis mostravam uma certa incredulidade… e dizia-me que tinha que dar um retoque aqui, um retoque ali… como o artista verdadeiro para quem a obra nunca está acabada, pronta… nunca estava tão bem como o tio a idealizava…
Hoje, os sinos choram em Casa Branca… pelo meu tio Zé, aquele meu tio meigo, atencioso, que tinha sempre uma história para contar, que me ofereceu os meus primeiros livros, que me ensinou a ver o mundo com os olhos das pessoas despertas e sensíveis para as cores da natureza, para os cheiros do campo e do mar, para as coisas belas e insignificantes…A si, lhe devo a minha sensibilidade para as artes, para a música, para a pintura, para o teatro, para a leitura, para conversar e trocar ideias com as pessoas …
Hoje os sinos dobram em Casa Branca… porque nos estamos a despedir do Homem, com H grande, do cidadão íntegro, do democrata, do trabalhador, do lutador e do apaixonado por tudo e por todos…

Casa Branca, 27 de Março de 2007

HOMENAGEM A JOSÉ FALCATO VARELA

HOMENAGEM A JOSÉ FALCATO VARELA

Na sua casa de Lisboa, faleceu no dia 27 de Março de 2007, José Falcato Varela, com 75 anos de idade, após alguns anos de doença.
Grande apaixonado e amante do Alentejo e com tudo o que se lhe relacionasse, sempre dedicou os seus tempos livres à fotografia, à escrita, às viagens pelas aldeias e cidades, aos passeios pelos campos verdejantes e às pessoas do seu Alentejo.
Saiu, com 18 anos, de Casa Branca, aldeia onde nasceu e viveu a sua infância, e foi trabalhar como empregado de escritório, em Estremoz.
Em 1960, casou com Maria Emília Fragoso Chouriço, natural de Estremoz ; o casal foi viver para o Bairro de Santo António, que na altura, começava a tomar forma, na periferia da cidade. Aí constituíram família e nasceram os filhos.
Em Estremoz, começou a conviver com a elite intelectual da cidade e aí, continuou os seus estudos, desenvolveu e aperfeiçoou o seu gosto pelo cinema, pela fotografia, pela leitura e pela escrita; era um frequentador assíduo e apaixonado das actividades lúdicas e criativas que se realizavam na pacata cidade de Estremoz. Iniciou a publicação dos seus artigos, crónicas, contos e poesia, nos Brados do Alentejo, no Almanaque Alentejano e noutros jornais regionais.
Este eterno apaixonado, pelas tradições, usos e costumes do Alentejo, pela gastronomia alentejana, pelo convívio e conversa entre amigos, com quem, tanto podia trocar opiniões sobre um livro, como falar das festas anuais da aldeia, como falar da família, era um bom ouvinte e um grande conversador.
No início dos anos 70, devido ao fecho da empresa onde sempre trabalhara, decidiu procurar emprego em Lisboa, e mudou-se para a capital com a família.
Empregou-se como chefe de escritório, e ao mesmo tempo, continuou os seus estudos, ingressando na universidade como trabalhador-estudante; nos anos 80, depois de muito trabalho, muito estudo e muita luta, licenciou-se em Gestão e Administração de Empresas.
Em paralelo com toda a sua actividade profissional e de estudante, continuou a escrever e a publicar os seus escritos, crónicas, contos e poesia em jornais e revistas. Finalmente, publicou o seu livro de contos Aldeia Branca; quem lê os seus contos não pode ficar indiferente, à paixão, à autenticidade narrada da vida das gentes da aldeia, ao realismo expresso e sempre presente em cada palavra, em cada frase, que o autor consegue transmitir.
Os anos passaram, as filhas cresceram, tiraram os seus cursos superiores, casaram, nasceram os netos, que eram a sua maior alegria e orgulho.
Com o seu curso de Gestão e Administração de Empresas passou por vários empregos; o último, foi o de Chefe de Serviços, na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde trabalhou e de onde saiu para se reformar.
Infelizmente, não gozou a sua merecida reforma como ele idealizava; sobreveio a doença e o sofrimento físico obrigava-o a abrandar e a ficar cada vez mais em casa. Ano após ano, a sua crescente debilidade física acentuava-se. Mentalmente e psicologicamente manteve-se sempre o mesmo indivíduo lúcido, curioso e interessado, até ao fim dos seus dias.
Manteve o contacto estreito com os amigos e a família, que ele sempre colocava em primeiro plano. Manteve o seu interesse por tudo o que se relacionava com a cultura, com a leitura, com a escrita dos seus textos, com o cinema, com o quotidiano de Portugal. Nestes últimos tempos, recomeçou a pintura a óleo, que já tinha experimentado em adolescente e que nunca mais praticara. Aí, José Falcato Varela revelou, mais uma vez, através dos temas escolhidos, das cores e da técnica muito própria, toda a sua verdadeira alma, a sua sensibilidade e a sua criatividade de artista.
Por tudo o que atrás foi dito, os amigos de José Falcato Varela decidiram juntar-se e prestar-lhe uma derradeira homenagem.
No dia 29 de Setembro de 2007, pelas 16 horas, será descerrada uma lápide, na parede da sua casa, na Rua Conde de Valença, nº 32, onde este homem nasceu, cresceu e viveu.
Convidamos todos aqueles, que o conheceram e que com ele conviveram, a estarem presentes, nesta simples cerimónia.
Texto publicado nos Brados do Alentejo e no Notícias de Sousel
Maria Zulmira Varela Baleiro