sexta-feira, 21 de setembro de 2012
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
A Doida
SEXTA-FEIRA, 23 DE SETEMBRO DE 2011
A Doida
Instantâneo de José Falcato Varela
Na Aldeia todos diziam que a velha era doida. E esta afirmação assentava em bases incontestavelmente sólidas. Ninguém o poderia negar. Quem o duvidasse, bastar-lhe-ia fazer-se passar pela porta da sua casa à hora em que o sol punha o oiro da manhã sobre os telhados e lançava o seu bafo morno e confortante sobre os velhinhos que se sentavam na soleira das portas. Lá encontraria, sentada numa cadeirinha baixa, uma velha de preto, pequenina e de lenço na cabeça, sempre à banda. Se atentassem bem, ela lia. Lia e relia cartas com a avidez de uma apaixonada.
Todos os dia a mesma coisa. Pegava na cadeirinha e no volume de cartas atadas com uma tira de pano preto e ia pespegar-se ao sol a ler e a reler.
Não era menos certo que os endiabrados rapazolas da rua tentassemm arreliá-la fazendo ir pelos ares o monte de cartas que a velha juntava na covinha do avental.
Nem uma praga, nem um lamento. Com uma santa resignação, levantava-se e com visível dificuladade ia apanhá-las, uma a uma, para logo retomar o lugar e a leitura.
Ora eu um dia, céptico por nascimento, quis certificar-me da loucura da velha e fiz-me passar junto dela. Sim, lá estava. A velha lia e relia o célebre montão de cartas onde a sujidade já punha os seus cambiantes. Porém, algo mais os meus olhos surpresos presenciaram. Enquanto lia, a valha chorava. E um sentimento de ternura estremeceu-me dos pés à cabeça, levando-me a acercar-me dela. A velha, pressentindo a minha presença, levantou para mim uns olhos afogados e ausentes que ficaram presos nos meus. Por fim falou:
- Tal-qual o senhor... Os mesmos olhos, a mesma boca, os mesmos cabelos...
"Não há dúvida", pensei, " a velha está varrida".
Mas logo a seguir continuou:
- O senhor quer vê-lo?
A velha juntou as cartas numa mão, levantou-se e seguiu à minha frente.
- Venha. Faça favor de entrar. Olhe. Ali. Veja bem. O meu neto. Todos os meses me escreve. É só quem tenho no mundo.
E puxando do lencinho amarrotado, foi limpando os olhos e falando com a voz entrecortada de soluços:
- Gostava que o senhor o conhecesse. Não pode haver melhor no mundo. Se ele cá estivesse, não faziam pouco de mim, não... Mas assim... Custa muito, senhor! Eu tive a minha vida. Tive o meu marido e era respeitada. Trabalhei. Mas hoje estou só e pobre. Vivo para o meu neto que está lá longe. Se não fossem as suas cartas!...
Calou-se e continuou a soluçar. E naquele corpinho mirrado e sacudido, os meus olhos viram tão-somente mais uma vítima do mundo idiótico e gélido em que vivemos.
Estremoz, 20-03-1963
ETIQUETAS: JOSÉ FALCATO VARELA-FEIRA, 23 DE SETEMBRO DE 2011
A Doida
Na Aldeia todos diziam que a velha era doida. E esta afirmação assentava em bases incontestavelmente sólidas. Ninguém o poderia negar. Quem o duvidasse, bastar-lhe-ia fazer-se passar pela porta da sua casa à hora em que o sol punha o oiro da manhã sobre os telhados e lançava o seu bafo morno e confortante sobre os velhinhos que se sentavam na soleira das portas. Lá encontraria, sentada numa cadeirinha baixa, uma velha de preto, pequenina e de lenço na cabeça, sempre à banda. Se atentassem bem, ela lia. Lia e relia cartas com a avidez de uma apaixonada.
Todos os dia a mesma coisa. Pegava na cadeirinha e no volume de cartas atadas com uma tira de pano preto e ia pespegar-se ao sol a ler e a reler.
Não era menos certo que os endiabrados rapazolas da rua tentassemm arreliá-la fazendo ir pelos ares o monte de cartas que a velha juntava na covinha do avental.
Nem uma praga, nem um lamento. Com uma santa resignação, levantava-se e com visível dificuladade ia apanhá-las, uma a uma, para logo retomar o lugar e a leitura.
- Tal-qual o senhor... Os mesmos olhos, a mesma boca, os mesmos cabelos...
"Não há dúvida", pensei, " a velha está varrida".
Mas logo a seguir continuou:
- O senhor quer vê-lo?
A velha juntou as cartas numa mão, levantou-se e seguiu à minha frente.
- Venha. Faça favor de entrar. Olhe. Ali. Veja bem. O meu neto. Todos os meses me escreve. É só quem tenho no mundo.
E puxando do lencinho amarrotado, foi limpando os olhos e falando com a voz entrecortada de soluços:
- Gostava que o senhor o conhecesse. Não pode haver melhor no mundo. Se ele cá estivesse, não faziam pouco de mim, não... Mas assim... Custa muito, senhor! Eu tive a minha vida. Tive o meu marido e era respeitada. Trabalhei. Mas hoje estou só e pobre. Vivo para o meu neto que está lá longe. Se não fossem as suas cartas!...
Calou-se e continuou a soluçar. E naquele corpinho mirrado e sacudido, os meus olhos viram tão-somente mais uma vítima do mundo idiótico e gélido em que vivemos.
Estremoz, 20-03-1963
O teu corpo morreu, mãe...
Só o teu corpo.
E porque, eu compreendo agora
Que um corpo morre quando a alma não cabe nele.
Almas grandes e nobres como a tua,
Sufocam, prisioneiras, das grades do corpo.
E libertam-se.
E a tua libertou-se.
E agora que o teu corpo ficou vazio, mãe,
- E porque tão viva vives dentro de mim -
Absurdo, pôr mais em dúvida a imortalidade da alma.
Mesmo o teu corpo não perecerá em vão:
Em paulatina osmose ele regressará à terra,
(À terra que ele já foi e de onde tudo vem,
A terra que guarda em si a génese de todas as coisas)
E viverá nas plantas...
E viverá nas flores...
E viverá nos frutos;
Nos frutos que darão a vida aos pássaros.
Logo, mãe, eu concluo:
A natureza é a sublimação das coisas,
E eu tenho-te agora maior do que tudo no Mundo.
Do tamanho do Universo.
Estarás agora em tudo,
E no nada,
E na natureza.
E nela viverás em cada Primavera
Que se renova,
Sempre. Sempre. SEMPRE!
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
A memória é algo que se tem ou algo que se perde????
No meu caso, e não é com alegria que o afirmo, diria que é algo que se perde!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Rita Salomé

quarta-feira, 28 de setembro de 2011
O ASSOBIO...
Quando eu tinha 11 anos, fui estudar para o Colégio de S. Joaquim em Estremoz (actual Escola 2,3 Sebastião da Gama), e fiquei hospedada na sua casa do Bairro de Santo António (hoje é neste bairro que fica o Supermercado Pingo Doce) , logo a casa ficava num extremo oposto ao colégio. A distância era enorme, e a minha pasta tinha sido mandada fazer ao sr. Contente do Cano, famoso pelas suas carteiras, pastas e afins, em couro verdadeiro e de duração ilimitada. Pesava "toneladas", pois o meu pai pedira o couro mais durável que ele tivesse!. Não deixávamos os livros na escola, e assim, fazia quatro vezes, o caminho do Bairro de Santo António para a zona do Caldeiro. A pé, chovesse a potes, fizesse um frio de rachar, fizesse vento que tudo levava pelos ares, fizesse o calor abrasador de Estremoz, lá ia eu de pasta na mão cheia de livros, logo pelas 8 horas da manhã, voltava de novo com a pasta ao meio dia para almoçar. Depois de almoçar muito rapidamente, mudava os livros das disciplinas da manhã para as da tarde, e lá ia eu, pasta na mão a caminho do colégio onde ia ter aulas das 14horas até às 18h. Nos dias de Ginástica, hoje Educação Física ainda levava um saco de pano branco mandado fazer de propósito para transportar o uniforme de ginástica (saia calça. blusa de malha interloc branca, meias brancas e sapatilhas de ginástica brancas), por isso, nesse dia, a carga era mais pesada e o cansaço era ainda maior.
O percurso da escola para casa e da casa para a escola era e é muito comprido, a distância era interminável. Atravessávamos o Rossio e lá iamos nós, eu, a Aurita, a Genhinha e a Luisa, felizes, bem dispostas, sem um queixume sobre a distância que tínhamos que percorrer 4 vezes ao dia!!!
Muito esporadicamente, o Sr Dias, pai da Geninha, que tinha uma loja de tecidos no Largo da República, dava-nos boleia, o que para nós era uma festa e um alívio, pois chegávamos mais depressa e menos cansadas.
A minha pasta era forte e feia. Eu não conseguia de maneira nenhuma ver-me livre dela. Então muitas vezes, mandava a pasta com toda a força, pelo pavimento de cimento do recreio, ela escorregava pelo chão e depois eu ia buscá-la ao outro extremo do pátio. Queria que ela se estragasse para
À tarde, quando vinha do colégio, e passava no Rossio, encontrava-me muitas vezes, mesmo quase todos os dias, com o meu tio Zé Varela, que saía religiosamente às 18 horas do escritório , onde era escriturário e se dirigia para casa. Íamos juntos de regresso. Ele andava sempre um livro debaixo do braço, pois a leitura era um dos seus melhores passatempos. Tinha uma postura muito elegante, alto, magro, cabelo preto, com o seu fato muito bem tratado, as camisas brancas impecavelmente passadas pela tia Maria Emília, as calças com um vinco bem marcado. O meu tio interessava-se e queria saber como me tinha corrido o dia, e quando eu começava a falar sobre o meu dia na escola, ele começava a contar-me histórias do seu tempo de menino, de adolescente e naquele tempo (1961) de pai babado com a minha prima Maria Cristina, que era uma bébé adorável, muito bonita, rechonchudinha, risonha e sempre bem disposta.
Por vezes, quando íamos no Rossio, ouvíamos o assobio muito característico e muito pessoal do meu tio Jacinto, que nos tinha visto à distância e que queria juntar-se a nós. Aquele assobio era único. Pareciam rouxinóis a cantar nas árvores. Onde quer que um deles fizesse aquele assobio já sabiam que era um irmão a chamar o outro irmão.
Hoje, 52 anos passados, ainda recordo aquele assobio. Já não o posso ouvir, pois o tio Zé já cá não está e o tio Jacinto já não o pode chamar... mas, o assobio era inesquecível, bonito, harmonioso, alegre, direi mesmo que era uma pequena peça musical; era um assobio de grande cumplicidade, muito, mas mesmo muito pessoal, o que tornava esta forma de se comunicarem única.
Mais não escrevo, mas há tanta coisa a dizer deste querido tio que tanta saudade nos deixou...
Casa Branca, 28 de Setembro de 2011
zuzu
Quadras dedicadas ao Avô
Os parabéns te quero dar
Pois sei que aí no céu
Muito bem hás-de estar!
Pois aí no céu estás,
Um dia tinha de acontecer
Eu devia ter consciência
De que te ia perder!
Não podemos viver para sempre
E isso todos temos de saber,
Que um dia
a nós também nos há-de acontecer.
Avô eu adoro-te
E sabes que eu não te queria perder,
Pois eu pensei
Que para sempre te ia ter!
Raquel, 10 anos
o neto João Pedro
O avô de noite é um anjo e de dia um diabrete, porque de dia os anjos não podem andar e por isso é um diabrete para que de dia possa tomar conta de nós.
A segunda-feira de Páscoa
Após o almoço e no início da sesta para uns e da brincadeira para outros (para mim), começou o céu a enegrecer e o vento a levantar-se, sugerindo uma trovoada iminente. Rápido nos levantamos, arrumamos a trouxa e metemo-nos ao caminho. Contudo, o que não esperávamos era que o carro do João Manel, onde eu ia com a minha "recém melhor amiga" Susana, de tão baixo que era, tivesse dificuldade em atravessar um pequeno riacho que, com a chuvada que se apoderou, aumentou de caudal. Eu, com os meus 6 aninhos, estava amedrontada com receio de não chegar a casa. Lembro-me da Susana contar histórias para me entreter e de dizer para pôr a cabeça no colo dela para evitar ver a tempestade que tanto me inquietava. Atrás vinham os avós, e isso sim, era outro dos motivos da minha inquietação.
A caminho da Casa Branca recordo-me de um maluco, coitado, que andava a passear de bicicleta com uma chuva torrencial que se adensava.
Mal chegamos à nossa casinha, a avó acendeu o lume de chão.
Para piorar a situação, não tínhamos luz... Não foi uma coisa que me agradasse muito na altura, muito pelo contrário, fiquei aterrorizada com o facto de horas mais tarde ter que ir dormir sem luz. No entanto, passamos um bom serão, como sempre, junto do lume de chão a falar sobre a grande aventura do dia.
Aqui está um pequeno episódio inesquecível passado com o meu avô, que me marcou profundamente e de uma forma tão especial que ainda hoje guardo na memória. Ironicamente, hoje adoro trovoadas e sinto as saudades que esse dia me deixou, tanto pelo ambiente que se viveu como pela companhia única do meu avô que tive a sorte de presenciar.
Rita Varela Ramos
A DOIDA
Na Aldeia todos diziam que a velha era doida. E esta afirmação assentava em bases incontestavelmente sólidas. Ninguém o poderia negar. Quem o duvidasse, bastar-lhe-ia fazer-se passar pela porta da sua casa à hora em que o sol punha o oiro da manhã sobre os telhados e lançava o seu bafo morno e confortante sobre os velhinhos que se sentavam na soleira das portas. Lá encontraria, sentada numa cadeirinha baixa, uma velha de preto, pequenina e de lenço na cabeça, sempre à banda. Se atentassem bem, ela lia. Lia e relia cartas com a avidez de uma apaixonada.
Todos os dias a mesma coisa. Pegava na cadeirinha e no volume de cartas atadas com uma tira de pano preto e ia pespegar-se ao sol a ler e a reler.
Não era menos certo que os endiabrados rapazolas da rua tentassem arreliá-la fazendo ir pelos ares o monte de cartas que a velha juntava na covinha do avental.
Nem uma praga, nem um lamento. Com uma santa resignação, levantava-se e com visível dificuldade ia apanhá-las, uma a uma, para logo retomar o lugar e a leitura.
Ora eu um dia, céptico por nascimento, quis certificar-me da loucura da velha e fiz-me passar junto dela. Sim, lá estava. A velha lia e relia o célebre montão de cartas onde a sujidade já punha os seus cambiantes. Porém, algo mais os meus olhos surpresos presenciaram. Enquanto lia, a valha chorava. E um sentimento de ternura estremeceu-me dos pés à cabeça, levando-me a acercar-me dela. A velha, pressentindo a minha presença, levantou para mim uns olhos afogados e ausentes que ficaram presos nos meus. Por fim falou:
- Tal-qual o senhor... Os mesmos olhos, a mesma boca, os mesmos cabelos...
"Não há dúvida", pensei, " a velha está varrida".
Mas logo a seguir continuou:
- O senhor quer vê-lo?
A velha juntou as cartas numa mão, levantou-se e seguiu à minha frente.
- Venha. Faça favor de entrar. Olhe. Ali. Veja bem. O meu neto. Todos os meses me escreve. É só quem tenho no mundo.
E puxando do lencinho amarrotado, foi limpando os olhos e falando com a voz entrecortada de soluços:
- Gostava que o senhor o conhecesse. Não pode haver melhor no mundo. Se ele cá estivesse, não faziam pouco de mim, não... Mas assim... Custa muito, senhor! Eu tive a minha vida. Tive o meu marido e era respeitada. Trabalhei. Mas hoje estou só e pobre. Vivo para o meu neto que está lá longe. Se não fossem as suas cartas!...
Calou-se e continuou a soluçar. E naquele corpinho mirrado e sacudido, os meus olhos viram tão-somente mais uma vítima do mundo idiótico e gélido em que vivemos.
Estremoz, 20-03-1963
Quando a morte não mata
O teu corpo morreu, mãe...
Só o teu corpo.
E porque, eu compreendo agora
Que um corpo morre quando a alma não cabe nele.
Almas grandes e nobres como a tua,
Sufocam, prisioneiras, das grades do corpo.
E libertam-se.
E a tua libertou-se.
E agora que o teu corpo ficou vazio, mãe,
- E porque tão viva vives dentro de mim -
Absurdo, pôr mais em dúvida a imortalidade da alma.
Mesmo o teu corpo não perecerá em vão:
Em paulatina osmose ele regressará à terra,
(À terra que ele já foi e de onde tudo vem,
A terra que guarda em si a génese de todas as coisas)
E viverá nas plantas...
E viverá nas flores...
E viverá nos frutos;
Nos frutos que darão a vida aos pássaros.
Logo, mãe, eu concluo:
A natureza é a sublimação das coisas,
E eu tenho-te agora maior do que tudo no Mundo.
Do tamanho do Universo.
Estarás agora em tudo,
E no nada,
E na natureza.
E nela viverás em cada Primavera
Que se renova,
Sempre. Sempre. SEMPRE!
quarta-feira, 11 de maio de 2011
ATENÇÃO CONDUTORES COM 60 ANOS - VOCÊS SÃO O NÃO CARTA DE CONDUÇÃO. DEIXARAM DE TER CARTA E NÃO PODEM CONDUZIR
Na verdade a minha carta estava em dia, pois eu quando fiz os 60 anos (ano em que estive muito doente) fui validar a carta. Nem eu nem o Zé nos lembramos de nada... mas a verdade é que eu não estava no grupo daqueles pobres condutores, a que o Expresso fazia referência.
Foi a senhora da escola de Condução é que me telefonou dizendo-me que eu estivesse descansada pois estava tudo em ordem.
A signatária, portadora do Cartão de CidadãoXXXXXXX cujo número de contribuinte éXXXXXXX, natural de , nascida no ano 1948, tendo por isso a idade de 62 anos vem expor e requerer a V. Exª o seguinte:
domingo, 24 de abril de 2011
C O R P O ......
Fiz bem em ir???? fiz mal???? não sei!!!!...
Só sei que vim extremamente cansada... e pergunto-me: "Será que já não posso viajar?!... viver o meu sonho de conhecer outras terras?! conhecer partes deste mundo que tanta curiosidade me trazem?"
Depois digo-me:" - Não, eu não posso fazer a vontade a este corpo.... este corpo que me tem feito tantas partidas!!! Este corpo que não é o meu! o corpo que eu sempre tive e que eu conhecia bem, era um corpo airoso, ligeiro e pronto a partir para qualquer aventura... !!
Mas, tens que te convencer que o teu corpo agora é este!.... um corpo pesado, desajeitado, coxo e cansado! e quero conviver com essa ideia . Cristalizá-la no meu cérebro!!". Então, estico as costas para me sentir melhor, com o corpo leve...leve como o de uma pessoa saudável... Recuso-me a ter este corpo... eu quero aquele que tinha há 10 anos, antes do acidente. Não era feliz porque me faltava a Marta, sentia um vazio terrível, o mundo às minhas costas... mas apesar disso tudo, esse corpo respondia aos meus desejos... eu podia ir onde quisesse.... , mas isso era dantes!!! agora o teu corpo é este e tens que te conformar!!!- diz-me o meu cérebro!!!...
Dóem-me as costas, o pé está inchadíssimo, a bengala é um estorvo e eu não me reconheço no espelho que me reflecte. Assusto-me... aquela figura do outro lado do espelho não posso ser eu!!!??? sinto-me estremecer de medo... medo por perceber que não sei nem reconhço que aquele é agora o meu corpo.
O elevador tem espelhos do lado esquerdo e do lado direito, espelhos enormes como é enorme o elevador... eu entro... e o que vejo reflectido não me agrada ver... depois olho de novo e vejo a minha figura pesada, feia e distorcida reflectida vezes e vezes sem conta!!! olho-me e digo: "Mas não!!!... este corpo não é o meu!!!" E fico triste, fico revoltada com o individuo que provocou o acidente e me deixou assim... e não sei o que fazer... porque aquele corpo não corresponde à minha cabeça...
Sentia-me muito cansada... olhava os outros e adivinhava-lhes o pensamento:" quiseste vir, agora tens que te aguentar!! sabemos que estás a fazer um enorme esforço, mas temos que ir para a frente... "desculpa..." mas o avião não espera... o autocarro não espera... o jantar é à hora marcada... e o olhar complacente dos que me rodeavam fazia sentir-me mesmo, mas mesmo muito cansada, muito estoirada... muito desesperada.... e um pouco culpada...
"Mais um passo... força... qual corredor da maratona ( que irónica e curiosamente se corria nesse dia pelas ruas de Londres!!") eu projectava o corpo para a frente, o rabo para trás e apoiando-me na bengala eu caminhava só por entre a multidão, só pelos corredores de acesso à pista do aeroporto e apenas dizia: "Força... força... a meta é já ali!!!..." e os corredores de cimento eram kilómetros e kilómetros de corredores para percorrer... sem fim... sem fim... kilómetros que o corredor da maratona de Londres, que nessa manhã ficou em último lugar... faria sem qualquer esforço...
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
PRIMEIRO DIA DA MÃE SEM A MARTA
8 de Maio de 1995
Querida Marta
Passámos o fim de semana em Tavira com a Rita. Foi um fim de semana calmo e sossegado. No Domingo era Dia da Mãe, eu estava triste, mas ao mesmo tempo estava calma por estar com a tua irmã Rita, que faz um esforço para não nos decepcionar e procura ser meiga e receber os meus beijos, apesar de não se manifestar muito. Tu sabes como ela é. Não é muito de grandes efusões nem de grandes manifestações sentimentais, mas como sabe que eu não te tenho a ti, que me davas muitos beijos e muito carinho, ela procura receber os beijos e dar alguns em troca, mas como sabes não são muito espontâneas essas manifestações.
Cada dia que passa, sinto mais a tua falta!... Como gostarias de estar aqui connosco, em casa da Rita ... a casa é muito alegre, muito acolhedora. Tem muito Sol e uma vista lindíssima para a Serra e para a Ria de Tavira. (...)
Hoje de manhã, fomos a Monte Gordo dar uma volta; estivemos numa esplanada na praia, que está povoada de velhos alemães e holandeses felizes com o Sol de Portugal. Depois fomos ver o apartamento do Dr. Borges, para onde costumávamos ir passar férias. Tu eras tão pequenina!... eras tão linda!... adoravas a praia, o mar, o Sol, brincar com os outros meninos!...
A tua lembrança é constante dentro de mim, a tua presença física não se vê, mas eu sinto que tu nos acompanhas para onde quer que nós vamos, tu estás sempre connosco, apesar de não o dizermos uns aos outros.
A viagem de e para o Algarve torna-se muito maçadora e angustiante. Reparo no trajecto que tu tantas e tantas vezes fazias entre Lisboa/Beja e Beja/Lisboa, vejo todos os pormenores da estrada, todos os cafés, todos os locais que rodeiam a estrada e que foram vistos por ti, muitas e muitas vezes.
Por isso, quando ali passo, sinto que a tua presença é mais forte e mais sentida.
Agora, quando chegámos a casa, por volta das 21 horas, telefonou-me a Patrícia, tua prima, dizendo-me que tinha morrido a filha da Maria Beatriz, minha prima e amiga de infância.
Se houver Vida Eterna, tu estás com ela...
A filha da Beatriz chama-se Leonor, tem 18 anos, é uma menina bonita e boa como tu, também ela morreu brutalmente e de uma morte estúpida, como afinal é a morte, estúpida e horrível!
Teve um desastre na Marginal de Cascais, com mais quatro amigas, o carro despistou-se e morreram queimadas dentro do carro. Deve ter sido uma morte terrível, nem teve tempo para fugir à morte, como tu também não tiveste. Tanto que eu te dei força "Força, Marta! Não te deixes vencer pela Morte!... Força Marta, que tu és forte; Marta não te deixes ir porque a Mãe está Aqui!!!
Mas, o meu apelo não chegou até ti, os tentáculos da morte agarraram-te e levaram-te serenamente.
Penso que tu não te apercebeste que estava a chegar o teu fim, foi tão bruscamente, que não tiveste tempo de reagir à morte, e hoje eu estou destroçada e destruída.
A realidade é que para morrermos não precisamos de muito, basta a morte lembrar-se de nós, naquele momento. De ti, a morte lembrou-se tão cedo e eu não consegui afugentá-la!...
Penso no desgosto da Beatriz, no que ela está a sofrer, sinto que deveria estar junto dela para lhe dar um pouco do meu conhecimento de Mãe Sofredora, de Mãe que perdeu uma filha linda, boa, meiga, e que não sabe ainda como reagir à dor.
É tão fácil dizermos aos outros que compreendemos a sua dor; é tão fácil dizermos que avaliamos a sua dor, mas, na verdade, a dor é tão grande, tão grande que só quem passa por uma situação igual é que poderá avaliar o que a outra mãe está a sofrer.
Nunca pensei que se pudesse sofrer tanto, que a angústia e a tristeza fossem minhas companheiras diárias, eu que tanto gostava de rir, de falar, de conviver, hoje convivo com a tristeza, contigo dentro de mim e nada mais me interessa.
Vou dormir, ou melhor, tentar dormir!...
Amanhã de manhã vou acompanhar a minha amiga e procurar dar-lhe um pouco de conforto.
Devia ter-se uma idade para morrer; devia ser proibido morrer-se jovem, com vontade de viver e com muita força de vencer na vida, só se deveria morrer quando tivéssemos a nossa missão cumprida. Tu não pudeste concluir a tua e agora eu choro por saber que tenho que levar o resto da minha existência cheia de tristeza e muita saudade de ti, minha pequenina, minha "castanha", meu amor da mãe.
Beijos da mãe Zuzu
A MINHA MARTA
A Espera...
Para quê esperar? Sei que não vens.
Virá a tua irmã, a tua amiga
Tu não aparecerás...
Afinal eu não estou à tua espera!...
Tu estás sempre dentro de mim.
Sinto-te, presença suave e calma
Presença atribulada e conflituosa...
Durante nove meses esperei que te tornasses gente para que conhecesses o Mundo.
Alimentei-te com o meu sangue, senti-te mexer e remexer...
Andava angustiada porque mostravas pressa de te libertares de mim.
Então, o médico ajudou com injecções e injecções, todos os dias levava duas!...
Andava com medo de te perder.
Sentia que trazia dentro de mim uma "coisinha”, que iria ser muito importante para todos.
O teu nascimento foi tão doloroso ... penso que foi para nós as duas!...
O teu esforço foi tão grande que tiveste que ficar durante 12 horas, na incubadora, mas tu eras forte e conseguiste ultrapassar os teus primeiros momentos de vida.
Como eras linda! Eras uma bébé perfeita e bonita ...
Não quis amamentar-te, pois tive medo de ter uma mastite, hoje estou arrependida. Gostaria de te ter alimentado com o meu leite, durante os teus primeiros meses de vida, quem sabe se não terias mais resistências.
Como tu eras saudável! Nunca estavas doente! Estavas sempre pronta a comer!... Sorrias constantemente, eras feliz e todos estávamos felizes por termos mais uma " coisinha fofa" em casa.
Sabes? Hoje, a tua presença dentro de mim é tão forte, que te sinto dentro do meu coração.
Minha querida! Como é possível durante 24 horas sentir que estás sempre comigo?!
A tua falta é enorme. Quando o vento sopra, de mansinho nas folhas das árvores, eu penso como tu o gostavas de sentir.
Quando o Sol é forte e transpiro dentro do carro, lembro-me de quanto tu eras encalorada e ficavas vermelha com o calor!
Estou à espera da Rita. Telefonei para onde ela está, afinal ainda está na consulta!... Como ela tem sofrido, sem querer mostrar o seu sofrimento!
Sabes? Ela esforça-se para mostrar uma força interior muito grande, uma vontade de viver mesmo sem ti, mas eu sinto, com o meu coração de mãe, que ela está a fazer um esforço grande de mais...
28 de Abril de 1995 - Sexta-feira ,19h 45m

