quinta-feira, 23 de maio de 2013

GRUPO DO PIC-NIC NO MOUCHÃO

MÃE AMÉLIA, FRANCISCA, GUIDA E AMÉLIA MOUQUINHO

Assim como que guardiãs da menina Guida, a tia Amélia, a Amélia Mouquinho e a Francisca. Esta senhora não tem nenhum apelido da família, mas segundo se consta é tão da família como outras. Integrada - desde muito nova- na família, manteve sempre intensa ligação e hoje é companhia indispensável, quer nos momentos felizes, quer nos menos bons. E parece que há umas estórias dignas de virem para este blog. Como a do sobretudo do Sr. José Simões Alves...
Não sei quem postou esta foto, mas na verdade a Quiquica  merece que se escreva um longo texto sobre ela.

A MINHAAVÓ VICÊNCIA

A minha bisavó Vicência  (TEXTO DA PAPU)
Eu não me lembro da minha bisavó.
Ou melhor, lembro-me: dos seus cabelos brancos, do lenço preto que usava sempre, do brilho dos olhos, entalados entre as rugas do rosto, e do vestido preto. Lembro-me dela sempre sentada numa cadeira na sala de jantar da casa dos meus avós, no meio de bocados de tecido e panos cortados, carrinhos de linhas, e, depois, sentada na velha máquina de costura, que na altura não era nada velha.
Ainda tenho nos ouvidos o som da máquina a trabalhar. Também eu cosi muito nela, anos mais tarde. Fiz uma boneca e lençóis e roupas para ela.
Mas não me lembro dela (da minha bisavó) a rir, ou a falar, ou sentada à mesa a comer, num daqueles almoços e jantares em que se reunia toda a família. Não me lembro de a ver connosco, sentada a ouvir rádio, ou a conversar. Aliás, e para falar a verdade, acho que nem sabia lá muito bem quem era aquela senhora velhota sentada na sala sempre a costurar. Claro que me devem ter dito quem era, devem ter-me dito que era a mãe da minha avó, mas eu não devo ter acreditado, e quase de certeza me ri para dentro. Como é que era possível, a minha avó ter mãe? Naquela época ninguém tinha mãe, para além de mim, é claro.
Só me lembro de a ver naquela sala, as linhas a caírem até ao chão, onde eu me entretinha a apanhá-las, bem como aos pedacinhos de pano, que fingia serem lencinhos para as bonecas. E aquelas caixas de costura a abarrotar de cores vivas, deslumbramentos de flores, dedais, e tesouras, muitas tesouras. Todas de pontas redondas. Havia uma de pontas bicudas, assim já muito velha, o metal enegrecido e sem brilho, e que nós não podíamos tocar. Nós, as crianças.
Lembro-me de uma vez em que ela me fez uma roupinha para uma das minhas bonecas. Era um vestido. O tecido era azul escuro às bolinhas brancas. Era muito bonito. Lembro-me da pequena alegria de ter um vestido novo para a boneca (a boneca tinha nome, mas já não sei qual era). Eu adorei vê-la com o seu novo vestido. O pior foi quando tentei despi-lo. É que o vestido tinha sido cosido à volta do corpo da boneca, pelo que era impossível tirá-lo. Fiquei destroçada. A minha brincadeira preferida era vestir e despir a boneca. Um vestido que não se podia despir, aí estava uma coisa sem utilidade nenhuma. E que dizer de uma boneca que está sempre vestida da mesma maneira? Era, sei lá, bem pior do que uma boneca que nunca toma banho. Ou que nunca lava as mãos. O que diriam as vizinhas? E as amigas?
É claro que não tinha importância nenhuma o que diriam as pessoas, mas para mim aquilo era um escândalo. Lembro-me que a boneca ainda ostentou aquele vestido durante algum tempo (para mim foram séculos) e que eu não descansei enquanto não o desfiz à tesourada, para finalmente poder mudar-lhe a roupa.
Lembro-me da noite em que ela morreu. Lembro-me da luz, uma luz quente, alaranjada, que se derramava pelas escadas, e que era coada por um candeeiro de palhinhas, com uma forma oval, que estava pregado na parede. Acho que a luz se misturava com a do sol a pôr-se muito ao longe, apenas uma lâmina vermelha no céu escuro que já deixava entrar a noite, multifacetada pelos rectângulos de vidro da parede das escadas, cada um com um pequeno arco-íris imerso nas sombras das árvores que se agitavam, lá fora. Era essa luz que eu via, deitada na cama, enquanto a minha mãe me dizia o que tinha acontecido. Nessa altura eu não sabia o que era morrer, e devo ter achado que era uma coisa muito mal-cheirosa. Ela explicou-me que a avó estava a dormir e que não ia acordar mais, e por isso teria de ir para debaixo da terra, porque senão o corpo começaria a cheirar mal. Lembro-me que achei isto muito natural e acho que nem fiz mais perguntas. Nessa noite ficámos só as crianças (já não me lembro quem ficou connosco), e era uma coisa mesmo muito estranha e diferente, todos os adultos saírem ao mesmo tempo. Nunca tinha acontecido antes. Era para se despedirem da avó, que nunca mais iam ver. Acho que haviam algumas lágrimas misturadas às vozes em surdina e àquela luz macia e alaranjada, quente como um rissol acabado de sair do forno. Um pequeno sol, na escuridão de toda aquela ausência que eu ainda nem sabia que existia e que tinha nome. Deixei-me ficar no escuro, no quentinho dos cobertores, a réstia de luz a entrar pela porta entreaberta e a poisar numa carícia na alcatifa vermelha, enquanto afugentava as bruxas e os papões, e depressa adormeci, vencida pelo cansaço.




PS: Se alguém tiver por aí uma fotografia da avó Vicência, que a prante aqui, por favor. Agradecida :)

O primo Máximo Rocha Falcato

Na mesma rua e perto do meu avô morava outro primo de ambos, Máximo Rocha Falcato que tinha uma loja de fazendas, como se dizia naquele tempo. O primo Máximo tinha 3 filhos: o José , o Júlio e o Jica . O José Falcato era da minha idade e éramos companheiros de paródia.
Como os pais viviam bem, compraram-lhe uma bicicleta coisa que, por muito que o desejasse, a minha mãe nuca me poderia comprar. E era na bicicleta dele que eu andava muitas vezes mas, quando o passeio era mais demorado, para o Cano ou para o campo e ele também ia, então alugava uma bicicleta ao primo José Tomás.
Infelizmente, o José morreu num desastre de moto quando regressava com um primo dele, o Arnaldo, de um baile de máscaras em Estremoz. Dizem que ainda trazia vestidos os "dominós"-traje de carnaval muito usado naquela época- que, com o vento, lhe tapou a cara, originando o despiste fatal e a morte dos dois.
O Arnaldo era primo direito do Constantino , vivia na casa ao lado e , como o quintais comunicavam este ia muito para lá com a tilena.
Jacinto

Porque estão doentes, porque estão magros, porque estão gordos, tudo a preocupa e está sempre pronta a ajudar.
É uma amiga e é mais que família.
tilena

a



Ora aqui está a árvore geneológica da família Falcato Alves. Muito frondosa para mal de quem a teve que desenhar... Eram tantos os ramos que me esqueci do meu e parece que não faço parte da irmandade. Todos os anos há novos rebentos pelo que se torna difícil a actualização.

MARIA FELISMINA, JOÃO ARMANDO, PRIMA FLOR E PRIMO PRUDÊNCIO (BÉBÉ?)

FOTOS DA FAMÍLIA PRUDÊNCIO E PRIMA FLOR

GRUPO EM FESTA




FILA DE CIMA:
 tio Zé Rebocho, tia Adélia, tio Jacinto, tia Marialena, Prima Flor, Primo Prudêncio,???? , Maria Felismina, ???? tia Natália com o  Rui ao colo, Prima Maria Inácia

FILA de BAIXO:
???????, João Armando, Jorge Alves, quem é o sr de idade?????

GRUPO SENTADO À PORTA DO MONTE



Tia Marilena, Tio Jacinto, ??????, ?????? Tio Zé Varela, Tia Olga, Tia Natália, senhora?????, õão Armando, sr de óculos????, jovem ao lado do João Armando????, menino ?????

O TIO CARREÇO
A par da acção politica referida tem o Tio uma actividade económica-empresarial de significado para o desenvolvimento de Estremoz.
Funda uma grande moagem de cereais para panificação. Situava-se esta no extremo poente da rua dos Reguengos, e no mesmo local os celeiros de apoio que ainda hoje existem na mesma rua, descendo-a ao fundo do lado esquerdo, e que são espaços de arquitectura interessante com belas abóbadas.
A energia eléctrica passa a ser produzida em Estremoz, e a vila iluminada, numa central que ele pôs em marcha com uma sociedade que estabeleceu e financiou.
A vila moderniza-se e a expansão sacrifica a linha de muralhas que vai das Portas de Santa Catarina às Portas de Santo António, que ele mais tarde fortemente lamenta, atribuindo ao facto do património na altura não ser suficientemente valorizado, de modo a resolver o crescimento sem aquele sacrifício.
Cria o café Águias d´Ouro numa sociedade por quotas. Monta depois o café Alentejano.
Em 1926, já com o governo da Ditadura Militar, é reconhecido o desenvolvimento de Estremoz e elevada a vila a cidade.
Porta principal da grande Exposição Agro-Industrial de Maio de 1926
Na sua casa vivem sobrinhos que estudam e também se valorizam culturalmente no âmbito da música e das línguas, prosseguindo depois os estudos em Lisboa.
O tio Carreço viaja pela Europa, visitando as capitais mais importantes.
Apoia financeiramente sobrinhos, referi que os meus avós receberam créditos para aquisição de olivais, fundamentais para que com o seu trabalho mantivessem vida independente. Os sobrinhos Francisco e João Alves são apoiados na criação da Tabaqueira. O tio Zé Alves com profissão estabelecida, artífice do ferro (Ferreiro era qualificação de elevado valor na época), vem da Casa Branca e estabelece-se onde instalou a oficina e fez a casa que uma boa parte de nós conhece. Em terrenos e instalações que pertenciam ao tio Carreço e este lhe cedeu, com pagamento ao longo do tempo.
Esse espaço, de que me lembro ainda de grande parte livre de construção, compreendia todo o terreno que vai do jardim, estação de serviço, casa do tio António Alves, até onde hoje se situam os Bombeiros Voluntários. Junto à residência havia uma horta, com bastante arborização e um tanque grande, perto do qual existia uma latada e debaixo desta se situava a grande mesa de pedra que foi transferida depois, para a cozinha grande do quintal quando esta foi feita.
A minha Mãe Florbela depois de ter vindo para Estremoz para casa dos tios Domingas e Zé Alves, por doença da minha avó, não voltou à Casa Branca, ficando a viver em casa do Tio por pedido deste à sobrinha Vicência.

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

A minha avó VICÊNCIA

Era uma mulher de coragem, determinada, de poucas palavras.
Uma vez na "quadra", cavalariça, ajudava o meu avô que tratava a ferida de um macho ao que parece nada meigo, e reagindo mal ao tratamento começou aos saltos e aos coices. Foi atingida num braço, o meu avô estava mal colocado entre a besta e a parede, e ela manteve a ajuda. Quando a situação ficou sobre controle o meu avô encontrou-a de pé com uma mão apertando o braço fracturado e um profundo golpe cuja hemorragia lhe empapava a blusa e parte da saia.
Já velhota teve um entupimento no saco lacrimogéneo. Foi-lhe feita uma pequena cirurgia, em Estremoz , dificuldades em anestesias , a minha avó prescindiu da dita. Estava acompanhada da filha Capela a que agarrou a mão durante a intervenção. A meio desta a filha gritou " ai mãe a minha mão", à minha avó não ouviram um piu.
Em 1918 teve a pulmónica, gripe também chamada "a espanhola"e que matou dezenas de milhares de portugueses. A minha mãe, filha mais velha tinha 4 anos ,veio para Estremoz para casa da cunhada Domingas e irmão Zé Alves e a minha avó venceu a morte.
Dizia a Lena que havia o hábito de permuta dos sobrinhos na família. Ele era criado pela necessidade de entreajuda. Os avós Zé e Domingas tiveram muitos filhos, alguns muito próximos e assim o Jaime, Joaquim e Adélia passaram algum tempo em casa da minha avó. Mais tempo o Jaime razão da sua proximidade.
Foi grande ajuda do marido, no trabalho, na orientação de vida procurando crédito para conseguir os seus haveres e resolver a vida.
Vivi com ela largos períodos de férias na Casa Branca, lembro-a muito frequentemente, como gostaria que os meus netos me recordassem, pois marcou muito a minha formação.
Na fase final da sua vida entretinha-se com as linhas e as agulhas. No entanto eu tenho uma colcha enorme que cobre, caindo sobre o chão, uma cama de casal dum bordado lindo e perfeito, que ela fez já em Estremoz e bem depois do falecimento do meu avô.

Passeios com o Aníbal

Hoje vou contar um belo passeio dos muitos que fiz com o meu querido primo Aníbal. Vínhamos falando constantemente que iriamos ao Redondo a pé, para grande preocupação da minha mãe e da Tátá. Penso também que sempre se convenceram que isso não passaria de um projecto. Até que uma célebre madrugada de domingo, naquela altura as lojas estavam abertas todo o dia de sábado, bate o Aníbal, com todo o cuidado, que não era o seu habitual pois de outras vezes parecia que a casa vinha abaixo, à porta de casa dos meus pais por volta das 5 da madrugada. Chamou-me para o nosso tão pensado passeio. Não se via nada, daquelas noites muito escuras, o Aníbal acendeu um fósforo para eu ver os degraus à saida de casa dos meus pais e aí fomos nós apanhar a estrada para a serra d'ossa. Depois de caminharmos algum tempo saímos da estrada, o Aníbal apanha uns gravetos, faz um belo lume, como só ele sabia fazer, abre uma bolsa naqual eu já tinha reparado e pensado que devia conter algo de delicioso. E era mesmo, como não podia deixar de ser. Umas fatias de pão que ele enfiou num pau e pôs a torrar nas brasas, que depois foram muito bem esfregadas com uns dentes de alho e barreadas com um bocadão de toucinho. Um pequeno almoço DIVINAL, a claridade já tinha começado a despontar, sentados numas pedras deliciados com o petisco que até hoje, melhor me soube. Lume apagado, com o ensinamento que assim é que se devia fazer, é que eu tinha 14 anos e o Aníbal 36-37, e ala que lá vamos nós continuar com a nossa passeata. Até à serra d'Ossa foi um andamento em zigue-zague. O Aníbal via um monte de um lado da estrada lá íamos nós, depois conhecia umas pessoas que habitavam do outro lado, lá atravessávamos novamente a estrada. Para meu grande regalo vínhamos sempre com laranjas, peros, dessas visitas. Até que chegámos à do Xana e quem havia de lá estar. O já aqui falado Tio António Alves. Assim que o vi dirigi-me logo a ele para o cumprimentar, pois se não o fizesse de imediato acontecia o que o Rui aqui tão bem relatou. Pergunta do tio: - D'onde vens? De Estremoz, disse eu muito de mansinho. Como? A pé...Deixa-te de parvoêras...e eu muito sorrateiramente vou para o lado do Aníbal e já não abri bico, se não cá fora para lhe contar o que se tinha passado. E lá continuámos a nossa odisseia, agora só pela estrada direitos ao Redondo que o dia já ia adiantado. Chegámos às 10h da noite e, nessa altura, pedimos que nos fossem buscar de carro...No outro dia fiquei em casa, não pude ir às aulas pois as dores nos músculos das pernas eram mais que muitas. Recordações destas são muitas e as saudades também.

Mon Oncle

Desculpem lá, hoje bebi um galão e agora não consigo dormir, vão ter mesmo que me aturar.
Já à muito tempo que ando para escrever sobre isto, mas normalmente falta-me a coragem, o medo do ridículo é mesmo ridículo.
Ora o assunto é o seguinte, proponho aqui, aos Falcatos, aos Alves, aos Simões, Trindades e Capelas Ruivos, uma homenagem ao senhor mais bonito, meigo, atencioso de Estremoz e arredores (Casa Branca incluída), ao meu Ti Jacinto!!! Ora aqui está uma bela razão para nos juntarmos todos, duvido que alguém tenha razão de queixa do meu tio (a ti marilena não conta), é impossivel. Ele é maravilhoso! Não sei se alguém viu este sabado o filme do Jacques Tati "Mon Oncle", eu sei que o meu tio não é propriamente um clown, mas há qualquer coisa de uma extrema ternura, de cumplicidade naquele personagem que eu sempre conectei com o meu Ti Jacinto, e além disso, arre, o Ti Jacinto é mesmo boa pessoa, bolas!! Se há alguém que mereça uma homenagem é ele!! Quem está comigo???!! Bora lá malta!! (Tanta mini que ele me pagou na Lili, é o minimo que posso fazer...)

Avô Anibal - Parte II

Não tenho grandes parecenças nem com Alves, nem com Falcatos. Dizem que são todos artistas, muito jeitosinhos com as mãos, que desenham muito bem, treca treca treca treca... Eu cá, não desenho um repolho, nem que ele se esfregue em tinta e rebole pela folha fora, é que não vale a pena. Mas há uma coisa em que sei que me assemelho, pelo menos com o meu avô, é a fazer petiscos!! Pelo menos a minha avó sempre se queixou disso, de aparecer sabe-se lá de onde, com não sei quem atrás, chegar a cozinha e em menos de 10 minutos, e com muita pouca coisa, faço um belo pitéu e deixo a cozinha num desastre!! O meu avô também era assim, lembro-me tão bem de ele entrar casa a dentro, com um molho de "camaradas" atrás, assim que isto sucedia a minha avó lançava logo um "...ai Anibal...", e também não era preciso muito tempo para a cozinha ficar um caos, mas ora e depois... Era sempre com cada petisco, aí já a minha avó não se queixava, até já bebia meia cervejola, nos dias de maior rebeldia uma cervejola inteira.
Outra coisa que eu faço, e que o meu avô também fazia é cozinhar ás tantas da noite por apetites, só que o apetite dele dava sempre para o mesmo, "bolema de torresmo", aquilo era uma delícia, ficavam os coiratos para roer, nham nham... Houve uma vez, que o Eduardo, irmão da Papu, entrou na cozinha da avó Flor, e o meu avô estava a cortar uma bolema dessas, ora o desgraçado do Eduardo, que tinha começado a ser vegetariano à pouco tempo, não conhecia aquele bolo, muito menos os ingredientes, tirou uma fatia e espetou-lhe uma valente dentada, eu fiquei parva, a olhar, e perante o "huummm..." de regozijo do Eduardo o meu avô perguntou "gostas??", o Eduardo só dizia, "Ist'é muita bom!!", eu continuava parva a olhar, e o meu avô, continuou a cortar a bolema e sem olhar para ele disse "Ainda bem que gostas, é feito de torresmos, não sentes umas codeazinhas??", o Eduardo franziu o sobrolho, mas desconfio que ele não acreditou no meu avô, porque voltou a repetir.
Já agora, ninguém sabe a receita deste bolinho meeeeeeeesmo bom para o colestrol, não???

PASSEIO AO CAMPO

ANOS DA LENA ( ZUZU ATRÁS)

O TIO CARREÇO

O TIO CARREÇO   (Texto escrito por João Armando)
O Tio homem generoso, dedicado à família prestando-lhe grande apoio, utilizou também os seus recursos económicos em empresas, das quais o desenvolvimento de Estremoz beneficiou.

Não conheço em detalhe a evolução da sua economia. Ouvi à minha Mãe, Avó e Tios que ele negligenciou os apoios a terceiros, confiando demasiado nos outros sem se proteger, o que levou a sua situação económica a forte retrocesso.

Politicamente as mudanças eram-lhe desagradáveis, com o golpe militar do 28 de Maio e depois o caminho para a consolidação da ditadura. A economia do país e a conjuntura internacional era de crise crescente.

Em 1931 morre a Tia Mariana, e a minha Mãe com 19 anos fica a substitui-la na orientação da casa.
O Tio muito angustiado com tudo isto ausenta-se para África, Guiné, onde tinha uma propriedade originária da herança que recebera de Constantino Barbosa. Aí passou alguns anos e teve uma atitude para com os africanos pouco comum na época. Dedicou-se a promover o seu conhecimento, com o ensino do português falado e escrito, mantendo sempre uma relação humanitária no tratamento entre homens sem distinção de raça..
Escreveu o Tio um diário de toda a sua estadia em África, que eu vi e a que me leram algumas partes ( o diário era manuscrito ). Também vi algumas fotografias do Tio na sua acção missionária do ensino da língua e da escrita. O Tio Xico ( Francisco Alves ) vivia num quarto em casa do Tio, bem como a Prima Joaninha ( Joana Maria Simões ) que coabitou com ele até à sua morte. Suponho que o Tio Xico, que geriu o encerramento da casa após o falecimento do Tio, tivesse ficado com todo este espólio, o que era natural. Constou-me há pouco que o telegrama de António José de Almeida para o Tio, comunicando a implantação da republica em Lisboa, ainda existe.
Tendo pouco mais de 70 anos, o Tio ressente-se na sua saúde da vida em África, e de toda esta fase da sua vida. Sofre do estômago, emagrece continuamente e convence-se que tem um cancro. A irmã Mariana teve esta causa de morte. Regressa a Portugal e é-lhe diagnosticada uma úlcera gástrica grave, que o Tio cura, regressando depois a Estremoz.

TIO ZÉ ALVES TIA DOMINGAS E LUIS MIGUEL (NA CADEIRINHA)

O PRIMO MANEL FALCATO

E este, quem era?   (texto do Pedro  Ruivo)
Era o Manel Falcato, todo janota nesta foto (recortada de outra lá para trás).
Mas não é isso que eu quero saber. O que quero saber é quem era realmente o Manel Falcato? De que massa era feito? Qual o percurso que teve ao longo da vida e porque é que teve esse percurso?

O Manel Falcato era visita frequente em casa dos meus pais.
Aparecia com uns chocolates (sempre da mesma marca) para mim e para os meus irmãos. Sugeria a imagem impressa no papel que enrolava o chocolate, que este fosse comido como se come um hambúrguer nos MacDonalds, ou seja, envolvido por duas nutritivas fatias de pão. É que isto do marketing não é uma invenção do século XXI !!!
O Manel Falcato tinha especial predilecção pela pescaria. E várias vezes acompanhei o meu pai e o Manel à pesca. (Penso aliás que sem a companhia do Manel o meu pai não me teria ensinado a pescar. Comprova-o o facto de não me ter ensinado a caçar, nem, ao menos, a atirar com a espingarda. Bom, isso talvez tenha tentado: lembro-me dum valente coice que apanhei num dos ombros quando atirei um tiro a uma poupa; refeito (eu) do susto, perguntei pelo bicho. Nem um baguinho de chumbo levara para recordação, disseram-me.)
Mas voltemos ao Manel. A maioria das memórias que tenho dele vêem da minha infância. Se quiser aplicar ao Manel uma personagem tipo diria que ele era um Estrumpfe Rezingão. Mas um Estrumpfe Rezingão simpático, mesmo a rezingar.
Como escrevi atrás, várias vezes fui com ele e o meu pai à pesca. Uma dessas vezes ficará em mim guardada para sempre: foi num dia de Inverno, glorioso de Sol e Vento. Fomos para o imenso areal de Tróia e a praia estava completamente deserta. Já aí voltei e hei-de voltar novamente – para ser feliz.
Tudo isto são apenas pequenas recordações infantis.
Mas o Manel Falcato, quem era?

AS VISITAS DOS FALCATOS SIMÕES A ESTREMOZ

AS VISITAS DOS FALCATOS SIMÕES A ESTREMOZ  (escrito pela Timarilena)
A propósito de um comentário do João quero ver se algum de vocês se lembra disto:
A Romana tinha uma verdadeira aversão pela oficina. E não deixava de ter razão. Vocês vinham de lá como se toda a vida ali tivessem trabalhado e nunca vissem água todo esse tempo...
Parecia que se tinham rebolado numa montanha de carvão!
Lembro-me especialmente de um dia em que tinham acabado de chegar, todos queques, lavadinhos e vestidinhos a preceito e desejosos de mergulhar na oficina. A vossa mãe juntou-os e passou-lhes um sermão com cara de poucos amigos:
-E agora livrem-se de ir para a oficina! Não os quero sujos!
Tá bem, tá. Mal ela virou costas, e já lá estavam...
Caíu a noite, a oficina fechou e, lá regressam eles, muito sorrateiros, querendo passar despercebidos.
Como se fosse possível que numa família de brancos ninguém desse por aqueles escarumbas completamente mascarrados de negro de cima a baixo.
A Romana, que toda a tarde esperara por eles, e prevendo já o que a esperava, estava brava...
Tudo isto se deve ter passado na altura do Natal e, naquele tempo como o João lembrou, a água gelava nos tanques , nas poças de água e até no lago...
À altura ainda não havia água quente canalizada para a casa de banho no 1º andar e tínhamos que levar grandes panelas de água para encher a banheira.
Mas ela não esteve para isso e queria mesmo castigá-los. Encheu a banheira de água gelada e pregou com os três lá dentro.
Não fazendo caso dos protestos , lá os esfregou muito bem , pô-los de pé todos em fila e, o que ainda hoje me dá graça, começou a limpá-los por etapas: os braços de cada um, o corpo , as pernas e, por fim, a cabeça, tudo isto com uma esfrega que os ajudou a aquecer.
Seguiu-se depois a vestimenta: meias a todos, cuecas, calças e, por último quando
já os tinha todos vestidos, foram de novo alinhados para perfumar as 3 cabeças, penteou-os e, depois de mais um sermãozito, lá os deixou em paz...
Como eu estava a rir daquela maneira original fazer a higiene das crianças virou-se para mim:
E como é que querias tu que eu fizesse? Que despachasse o primeiro para se ir meter na oficina e, quando chegasse ao fim, já os ter todos na mesma?!
Teve a sorte de a oficina já ter fechado...
bjs da tilena

MENINAS MASCARADAS

O PRIMO MANEL FALCATO E AS TASCAS

O PRIMO MANEL FALCATO E AS TASCAS

(Texto escrito pelo Rui Alves)
Quando vim (estudar) para Lisboa e nem sabia onde era a Av da Liberdade passava as horas livres a andar de metro saindo em todos os apeadeiros e andando a pé para conhecer Lisboa.
Um dia passando pelo rossio encontrei o Manel Falcato,que sabendo da minha ignorancia total das ruas de Lisboa me fez um visita guiada ás tascas mais baratas da capital.
Fiquei a saber onde se comia por muito pouco dinheiro nas tascas mais ou menos barrascas de lisboa
Cada tasca tinha a sua especialidade, pratinho de tripas e caldo verde numa, presunto e queijo picante de Castelo Branco ,preguinho, bife de cavalo,pipis,prato de arroz com salsichas fritas,uma tarde inteira nisto...
o Manel levava uma pasta de cabedal com papeis e um taparuer e uma garrafa  que atestou onde mais gostou do petisco e do vinho ( branco)
Ainda hoje vou a essas tascas ( as que ainda existem )e cada vez que lá entro lembro-me sempre dele.
Faz bem pouco tempo o Pantera foi comigo aos pipis recomendados pelo Manel.
O Sr Administrador já viu o que perdeu?
Já agora aqui fica esta fotografia do Manel Falcato que encontrei nas velhas peliculas do meu pai,quando a vi a primeira vez não o reconheci,nunca tinha visto o Manel sem óculos,foi o João Falcato quem o reconheceu.
Espero que ele não se ofenda de o mostrar á familia nestes propósitos.

O FORD DO TIO ZÉ ALVES



QUEM SÃO????

 

Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

A OFICINA

A oficina era um lugar misterioso onde até eu gostava de me perder...
O meu pai, José Simões Alves, casou na Casa Branca onde era ferreiro. Só o Armando lá nasceu o que me faz pensar que pouco tempo lá morou.
Uma vez em Estremoz, abriu a oficina num terreno enorme que comprara ao tio Carreço. Ainda tinha muralhas e talvez algum barracão e ocupava todo o quarteirão até à Esplanada Parque.Em Parece que fez uma sociedade com o meu tio Júlio Falcato ( pai do Manuel ) e com o Pirra da oficina Pirra. Seria a firma Alves, Pirra e Falcato.
Em princípio, era apenas uma oficina de ferreiro onde me lembro de ver o meu pai à forja e também um operário, o sr. Abel, com uma cara sempre muito enfarruscada onde apenas se distinguia o brilho dos olhos. A sra. Josefa, sua mulher, todos os dias lhe vinha trazer o almoço. E, ou ele não lavavaas mãos para comer, ou a pele tinha absorvido de tal maneira a cor do carvão, que contrastava a sério com o pão que segurava. E muitas vezes lá estava eu à espera da sra. Josefa para assistir ao almoço do sr. Abel.
Nessa altura ainda havia poucos operários. Lembro-me do José da Armanda e também de um rapaz com quem gozavam dizendo-lhe que tinha "ganfanas". Penso que inventaram a palavra mas ele convenceu-se que era qualquer coisa que lhe habitava as sobrancelhas. Um dia em que o chatearam mais, queimou-as para eliminar as "ganfanas"... Aí é que ele foi bem gozado porque, sem sobrancelhas, ficou desfigurado.
Era hábito brincarem com os rapazes que chegavam de novo: mandavam-nos ir buscar o ferro de amolar limas , o de amolar martelos, ou outro qualquer engano de que se lembrassem. Quando chegava ao local onde estaria o objecto pedido, lá estava outro colega que já tinha metido num saco qualquer ferro bem pesado que o novato teria que arrastar de volta para grande gláudio de todos.
Eu via a oficina como um local escuro e sujo embora tivesse dois portões grandes que estavam sempre abertos. O mais pequeno dava para o nosso quintal o que facilitava as visitas diárias.
Penso que a sociedade não durou muito tempo e ficou apenas o meu pai.
O meu pai já tinha ido vendendo a maior parte do terreno, tinha construído a casa onde morávamos e tinha dado ao meu tio António Alves uma parcela para lá construir a sua casa (é agora do Armando Alves).
A nossa casa deve ter sido feita, só o 1º andar, em 1932/1933 porque eu fui a primeira a nascer ali, em Janeiro de 1933. Antes a família morara perto, na rua Vítor Cordon, vulgo de Sto. António.
Nesta altura já o meu pai tinha feito sociedade com o meu tio António Alves: (José Simões Alves-, Lda.).
O meu tio, para além de perceber de mecânica, tinha mais à vontade para falar com os clientes e relacionava-se com os agricultores ricos da região.
Assim, resolveram adicionar uma secção de mecânica e chegaram a trabalhar na oficina 75 operários. Alguns tinham alcunhas. Como havia muitos Zés, era o Zé Pequeno (marido da Adélia), o Zé Pequenino, o Zé Grande e o Zé Homem. Isto para além do Zé Pimpão, do Zé Branco, do Zé da Armanda, já referido e outros de que já não me lembro.
Os meus irmãos, com excepção do Armando e do Aníbal, assim que acabavam o curso na Escola Industrial, (na altura o único estabelecimento de ensino em Estremoz após a Primária), iam trabalhar na oficina: os gémeos Quim e Dâmaso e o José João eram mecânicos e o Jaime era torneiro.
O trabalho no torno fascinava-me. Todos aqueles tornos a cuspirem montes de limalha até que o perfil da peça a tornear fosse o desejado. achava eu que aquele material , que parecia tão leve, todo enroladinho, seria um bom material para brincar. E, tive que fazer muitos cortes nos dedos, antes de me decidir a brincar com qualquer outra coisa...
O Jaime gostava de trabalhar no torno e era bom nesta arte. Muitas vezes torneava peças em madeira.
Quando, no lagar dos Guias, (tia Hermínia e irmãos), substituiram o tronco por uma prensa moderna, ele ficou com uma parte daquele enorme poste de madeira de azinho e fez algumas peças: tabuleiros dos jogos com berlindes (deu-me um), pés de candeeiros, e não sei que mais.
Um dia estava a minha mãe com a prima Chica do Prego, (do Parafuso para o Fernandinho da tia Olga), a estender a massa das filhoses ao lume de chão como era hábito na altura. Eu também queria estender massa mas os paus eram só dois. O Jaime tirou um pedaço de azinho do lume e, passados uns minutos, já eu estava a fazer filhoses. Ainda hoje conservo e uso esse rolo. Não posso é usá-lo na cabeça do marido quando chega a casa de madrugada, porque era morte certa tão pesado é.

Embora o arrazoado já vá longo, o assunto ainda não passou do início. Vão esperando com paciência ( de preferência sentados...), pelo resto.

Beijinhos para todos da tilena

Domingo, 21 de Setembro de 2008

OS MEUS TIOS E AS MINHAS TIAS

Como todos vocês, meus queridos primos e primas Falcatos, sabem, sempre chamei tio e tia aos vossos pais e mães. Ora, acontece que esse tratamento faz muita confusão a certas pessoas, sobretudo aqui da Casa Branca, e que não conseguem perceber esse elo familiar!!!
Escrevi um post sobre a Tia Natália Simões e depois disso, várias pessoas, depois de lerem o texto, me perguntaram quem é a minha tia Natália??!!! ( essas pessoas sabem que os meus pais não tiveram irmãos chamados Natália, Anibal, Jaime, Adélia, etc.!!) e daí a admiração e confusão!!!
Ontem, recebi mais um mail de uma amiga, onde me perguntava quem era a "tia Natália" pois a mãe dela, estava muito intrigada!!! Assim decidi explicar a essa minha amiga a razão de eu chamar tios e tias aos filhos e filhas da minha tia Domingas e do meu tio Zé Alves. Aqui vai o que eu escrevi:
Olá Mariana
A minha "tia Natália" do blog é a mulher do meu tio Aníbal, irmã da prima Joaquina e da prima Joana.
Desde sempre os meus pais tiveram uma forte e estreita relação com o meu tio Zé Alves e tia Domingas, íamos lá muitas vezes almoçar, íamos a todas as festas da família, aos casamentos, a todas as ocasiões em que havia " reuinão familiar"lá estávamos nós - eu, o meu irmão e os meus pais!. Assim, eu sempre convivi muito de perto com todos eles, e desde sempre lhes comecei a chamar tios e tias, talvez por influência dos meus primos Aurita, Henrique, Jorge, Zé Manel Simões, José Carlos, etc, etc, que como eram sobrinhos de verdade, lhes chamavam tios/tias. Muitos desses meus primos eram da minha idade ( todos eles estão no meu coração e eu tenho-os como primos muito, muito próximos.). Assim, todos os filhos do meu tio Zé Alves e da Tia Domingas são meus tios e tias por adopção, mas para mim é como se fossem de verdade! Eu adoro-os a todos ( os filhos homens já todos partiram, e deixaram-me muita saudade; agora só estão as tias Olga, Natália, Maria Helena e Adélia) e todos eles sempre gostaram muito de mim.
Infelizmente, com a sua partida, eu tive grandes desgostos.
Mas, o tio Aníbal foi aquele de quem eu tive um maior desgosto pela sua morte, - uns dias antes de ele morrer, atropelado na estrada para Elvas, eu tinha estado com ele no lançamento do seu novo livro. Sempre foi uma pessoa muito dada à vida intelectual e por isso, estavam lá muitos artistas, gente do teatro, agora não me lembro dos nomes, é um que faz telenovelas que tem a cara toda manchada, (Canto e Castro?) outra artista que faz telenovelas e cinema ( Gina Maria?) , escritores, como o Cardoso Pires e outros, políticos, etc.
Como o meu tio Aníbal era muito próximo dos meus tios Maria Helena e Jacinto , quando iam ao cinema, visitar uma romaria ou uma aldeia ou outras manifestações artísticas, eu ia com eles. ( Em casa dos meus tios, eu ouvi, pela primeira vez, o disco do Zeca Afonso, na altura, proibidíssimo, "os Vampiros! ( isto passa-se em 1959!!)".
O meu tio Aníbal transmitiu-me ideias e conhecimentos sobre cinema, literatura, pintura, etc. política, etc… cujas sementes ainda estão em desenvolvimento dentro de mim. Ainda hoje, adoro tudo o que se relacione com arte, com manifestações artísticas, como ver exposições, ir a concertos, olhar uma paisagem (real) do Alentejo, apreciar a boa gastronomia portuguesa, etc. etc. tudo graças ao convívio estreito que sempre tive com ele e com a minha tia Natália.
Quando fui estudar para Estremoz, tinha 11 anos ( 1959), acabados de fazer, era uma frequentadora da Livraria Aníbal. Como sempre adorei ler, quando saía um livro de um grande escritor estrangeiro ou português, que se adequasse à minha idade, o meu tio Aníbal dizia-me logo para eu o ler. "Eu tinha uma conta aberta lá, e aos fins de semana o meu pai ia lá pagar!" como vês tudo isto me tornou na pessoa que hoje sou... afinal é através do exemplo daqueles que nos rodeiam, que nós crescemos, nos educamos e nos tornamos "parecidos" com quem convivemos... Bem, que grande discurso!!! às vezes sabe-me bem, falar e escrever sobre aqueles que "moldaram" a minha personalidade, que contribuíram para a pessoa que sou hoje...
Beijos à tua mãe.
Beijos da amiga Zuzu

2008/9/18 maria zulmira baleiro <zubaleiro@gmail.com>

Pois é, meus queridos primos e primas, é por tudo isto e muito mais ( que um dia escreverei!) que eu vos adoro a todos e todas. Agora, por acréscimo, adoro os vossos filhos e vossas filhas, e fico muitooooooooo contente quando sei que uma delas está grávida, e que vai nascer mais uma Falcatinha!!!
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O ASSOBIO

O ASSOBIO...
O meu tio Zé Varela, que sempre admirei e com quem tive uma relação afectiva muito forte, se não tivesse partido, estariamos hoje a festejar os seus 80 anos. Assim, como não lhe posso dar o beijo de parabéns que ele me retribuiria com o seu sorriso aberto, meigo e feliz que sempre mostrava, vou escrever um texto que relata bem as memórias boas e singelas que guardo dele.
Quando eu tinha 11 anos, fui estudar para o Colégio de S. Joaquim em Estremoz (actual Escola 2,3 Sebastião da Gama), e fiquei hospedada na sua casa do Bairro de Santo António (hoje é neste bairro que fica o Supermercado Pingo Doce) , logo a casa ficava num extremo oposto ao colégio. A distância era enorme, e a minha pasta tinha sido mandada fazer ao sr. Contente do Cano, famoso pelas suas carteiras, pastas e afins, em couro verdadeiro e de duração ilimitada. Pesava "toneladas", pois o meu pai pedira o couro mais durável que ele tivesse!. Não deixavamos os livros na escola, e assim, fazia quatro vezes, o caminho do Bairro de Santo António para a zona do Caldeiro. A pé, chovesse a potes, fizesse um frio de rachar, fizesse vento que tudo levava pelos ares, fizesse o calor abrasador de Estremoz, lá ia eu de pasta na mão cheia de livros, logo pelas 8 horas da manhã, voltava de novo com a pasta ao meio dia para almoçar. Depois de almoçar muito rapidamente, mudava os livros das disciplinas da manhã para as da tarde, e lá ia eu, pasta na mão a caminho do colégio onde ia ter aulas das 14horas até às 18h. Nos dias de Ginástica, hoje Educação Física ainda levava um saco de pano branco mandado fazer de propósito para transportar o uniforme de ginástica (saia calça. blusa de malha interloc branca, meias brancas e sapatilhas de ginástica brancas), por isso, nesse dia, a carga era mais pesada e o cansaço era ainda maior.
O percurso da escola para casa e da casa para a escola era e é muito comprido, a distância era interminável. Atravessávamos o Rossio e lá iamos nós, eu, a Aurita, a Genhinha e a Luisa, felizes, bem dispostas, sem um queixume sobre a distância que tínhamos que percorrer 4 vezes ao dia!!!
Muito esporadicamente, o Sr Dias, pai da Geninha, que tinha uma loja de tecidos no Largo da República, dava-nos boleia, o que para nós era uma festa e um alívio, pois chegávamos mais depressa e menos cansadas.
A minha pasta era forte e feia. Eu não conseguia de maneira nenhuma ver-me livre dela. Então muitas vezes, mandava a pasta com toda a força, pelo pavimento de cimento do recreio, ela escorregava pelo chão e depois eu ia buscá-la ao outro extremo do pátio. Queria que ela se estragasse para poder ter uma mais leve... mas nunca o consegui!!! a pasta durou anos, e anos, e anos... sempre impecável... os cantos não estavam a desfazer-se, a mola para fechar continuava operacional e a pega da pasta firme, mas firme!!!! e a pasta acompanhou-me sempre, durante o meu percurso escolar do 1º ano do preparatório ao 5º ano do liceu.
À tarde, quando vinha do colégio, e passava no Rossio, encontrava-me muitas vezes, mesmo quase todos os dias, com o meu tio Zé Varela, que saía religiosamente às 18 horas do escritório , onde era escriturário e se dirigia para casa. Íamos juntos de regresso. Ele andava sempre com um livro debaixo do braço, pois a leitura era um dos seus melhores passatempos. Tinha uma postura muito elegante, alto, magro, cabelo preto, com o seu fato muito bem tratado, as camisas brancas impecávelmente passadas pela tia Maria Emília, as calças com um vinco bem marcado. O meu tio interessava-se e queria saber como me tinha corrido o dia, e quando eu começava a falar sobre o meu dia na escola, ele começava a contar-me histórias do seu tempo de menino, de adolescente e naquele tempo (1961) de pai babado com a minha prima Maria Cristina, que era uma bébé adorável, muito bonita, rechonchudinha, risonha e sempre bem disposta.
Por vezes, quando íamos no Rossio, ouvíamos o assobio muito característico e muito pessoal do meu tio Jacinto, que nos tinha visto à distância e que queria juntar-se a nós. Aquele assobio era único. Pareciam rouxinóis a cantar nas árvores. Onde quer que um deles fizesse aquele assobio já sabiam que era um irmão a chamar o outro irmão.
Hoje, 52 anos passados, ainda recordo aquele assobio. Já não o posso ouvir, pois o tio Zé já cá não está e o tio Jacinto já não o pode chamar... mas, o assobio era inesquecível, bonito, harmonioso, alegre, direi mesmo que era uma pequena peça musical; era um assobio de grande cumplicidade, muito, mas mesmo muito pessoal, o que tornava esta forma de se comunicarem única.
Mais não escrevo, mas há tanta coisa a dizer deste querido tio que tanta saudade nos deixou...
Casa Branca, 28 de Setembro de 2011
zuzu