domingo, 5 de março de 2017
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
domingo, 13 de dezembro de 2015
DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA
Terça-feira, 7 de abril de 2015DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA
Devia morer-se de outtra maneira.
transformamo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhã, convocaríamos os amigos mais intimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: " Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje, às 9 horas. Traje de passeio."
E, então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, víriamos todos assitir à despedida. Apertos de mãos quentes. ternura de calafrio. "Adeus! Adeus!" E pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... ( primeiro, os olhos ... em seguida, os lábios ... depois o cabelo...) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão súbtil .... tão pólen ... como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de láios azuis ...
José Gomes Ferreira
in blog de Rita Baleiro : http://como1livroaberto.blogspot.pt/2015/04/devia-morrer-se-de-outra-maneira.html
S/ TÍTULO
Há encantos e
desencantos. Várias faces no mesmo ser. Há dúvidas e certezas. Mentiras e
verdades. Há dias e noites. Sombras e luzes. Há prantos e risos. Momentos de
ódio. Actos de amor. Há chuvas ácidas e granizos. Ventanias. Raios de sol
sublimados. Há mãos douradas. Abraços infinitos. Há luares abençoados. Mares
indefinidos. Há amizades perpétuas. Estios efémeros. Enganos indescritíveis. Há
instantes perdidos. Águas furtadas. Túneis amarelecidos. Há dores imensas.
Veleidades. Segredos adormecidos. Há ignorâncias exaltadas. Talentos
recolhidos. Há arco-íris. Palco. Máscaras. Injustiça desmedida. Há poesia
revelada. Retrato falado. Cântico sentido. Há vida. Morte. Há princípio. Fim.
Célia Pires 14 de Dezembro 2015
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Célia Pires
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
TERESA
Não, não
iria cair na asneira de fazer o que na sua cabeça se formara há muito… morrer
Não tinha
coragem… era cobarde mesmo!!! Pensava nas diversas maneiras e entre tantas que
lhe surgiam, achava que todas elas eram estranhas e esquisitas.
Um saco de
plástico bem apertado à volta do pescoço, começar a respirar lentamente para
dentro do saco e aos poucos, muito aos poucos, começaria a desfalecer… talvez
fosse uma maneira… mas era demasiado banal…
Fazer um
cocktail de comprimidos, centenas deles, calmantes, antidepressivos, analgésicos
e outros que encontrasse na gaveta , batidos no liquidificador com fruta agradável,
como morangos, bananas, maçãs, limão, e beber de um trago um grande copo daquele sumo…
e depois…. Será que o estômago iria aguentar tanto liquido? o mais certo era
ter que vomitar tudo aquilo… não , não era a melhor maneira…
Enforcar-se,
pendurar-se de uma trave da casa numa
corda, mas nem sabia dar o nó? Nunca soube dar nós e ainda por cima, achava
horrível morrer de enforcamento, ficar ali pendurada a balouçar até que a
fossem encontrar… língua de fora… roxa…. olhos esbugalhados … também não era a
forma mais simpática que queria para morrer…
Com uma arma
de fogo????? Nem pensar!!!! Tinha horror a armas de fogo. Tinha horror ao
barulho do tiro. Tinha horror a pensar que ficaria com o corpo, ou melhor , a
cabeça toda estilhaçada…. sangue… miolos…. massa encefálica… tudo espalhado
pela divisão… e se não morresse? Pior ainda…. Pois ela pensava em morrer mesmo…
não queria ficar marcada para o resto da vida…
Teresa, conhecera há muitos anos uma mulher
que se quis suicidar com lixivia. Bebeu lixivia e o tubo digestivo ficou todo
queimado. E não morreu…
O esófago ficou de tal modo queimado que teve
que fazer uma cirurgia onde o esófago foi substituído pela tripa do intestino
delgado. Nunca mais teve saúde. Não podia comer quase nada.
Um dia, foi fazer uma endoscopia e descobriram-lhe
células cancerosas no intestino delgado que estava a fazer de esófago…sofreu
muito, foi operada várias vezes… e finalmente, depois de muito sofrimento para
ela e para a família, finalmente morreu… Durante mais de 15 anos, esta mulher
viveu num sofrimento enorme, e teve várias vezes oportunidade de dizer à
família que se tinha arrependido do acto estúpido de se suicidar bebendo
lixívia… Teresa sabia que nunca iria escolher esta forma de morrer!
Sabia que havia muitas outras formas….
Mas agora não queria pensar em mais nenhuma… todas as achava escabrosas… uma
desagradáveis para ela, outras desagradáveis para quem a fosse encontrar…
Iria continuar a ser cobarde… Afinal havia tanta gente a lutar pela vida… a
sofrer tratamentos terríveis para se manter à tona… e agora ela ia fazer esta
asneira??!!! O melhor seria esperar tranquilamente a hora… a hora que chega para todos…
ISABEL
Não sabia o que sentia. Um aperto no
peito, do lado do coração fazia-a respirar bem fundo, mas o oxigénio não
chegava lá. Apetecia-lhe dar um grito, um aiiiiii, dar um grande aiiiii…! E dizia para si: mas
porque estou eu assim? Porque me apetece respirar tão fundo, dar um ai, que não
seria um ai, seria um grito, um grito de leoa ferida?
Mas não o poderia fazer… a vizinha do quintal
do lado ia assustar-se e ia querer saber a razão daquele grito. Daquele grito
que vinha bem cá de dentro… bem junto do coração…. Claro que saíra das cordas
vocais… mas ele tinha-se formado muito, muito mais lá no fundo… Do lado
esquerdo do coração que sentia tão apertado… junto ao buraco … aquele buraco
que se formara no dia em que a filha tinha partido, de um modo tão inesperado,
tinha partido para sempre, para o mundo sideral, para a estrela que a esperava
desde que nascera.
Isabel nunca mais foi a mesma, e
sentia que em vez de se ter tornado mais meiga, mais tolerante, menos agressiva,
sobretudo nas palavras, cada vez se tornava mais agreste, mais revoltada, mais
zangada com a vida.
Diziam-lhe: Não há vida sem romance…
e a maioria do romance é sempre bem negro.
Ela ouvia, mas não aceitava. Ouvia
quem a queria ajudar mas não conseguia que as palavras das amigas lhe ficassem
no cérebro… lhe mudassem a maneira de pensar ou de agir.
Tinha momentos em que lhe apetecia partir
tudo o que estava à sua volta, partir com um grande estrondo a grande tigela de
vidro, que sabia iria partir-se em mil pedacinhos, em mil pedacinhos que se espalhariam
pela cozinha, por baixo dos armários, por baixo dos pés, e que depois ainda ia
ter que apanhar, varrer todos aqueles vidros minúsculos que se esconderiam nos
locais mais incríveis! Não lhe apetecia varrer , queria descanso… queria estar
parada e calma, não lhe apetecia andar na cozinha a apanhar vidros despedaçados,
minúsculos, invisíveis, bicudos… prontos a espetarem-se-lhe nas solas das
pantufas e que se iriam alojar nos dedos dos pés, e de tão pequenos nem os
conseguiria ver… só sentiria a dor aguda que lhe provocavam…
Tinha alturas em que lhe apetecia ser
um pássaro e voar, voar e não mais voltar. Voar para um mundo onde não fosse
obrigada a sorrir, a conviver, a olhar os rostos alegres, tristes , amargurados
ou enrugados dos habitantes da vila. Não lhe apetecia ver ninguém… mas isso era
anti-social… tinha que dizer bom-dia, olá, cumprimentar e sorrir a todos por
quem passava. Interessava-se pela mulher
doente do homem da mercearia, por saber como o neto da senhora da retrosaria estava
a crescer, quantos dentinhos já tinha, se já gatinhava… e todos, por quem
passava, pensavam que ela estava bem,
que apesar do rosto carregado com que se olhava ao espelho e via os olhos
tristes e cansados, tinha conseguido ultrapassar a dor da perda da filha… e ela
tentava enganá-los sorrindo, falando, ouvindo os seus problemas e os seus
lamentos… mas o que Isabel queria era não estar ali, queria estar fora daquele
pequeno mundo…
Quando ia para perto do mar, olhava
aquela vastidão de água, olhava e pensava como seria fácil entrar por ali adentro, devagar, muito devagar, e começar a perder o pé, e a sentir que a água
iria entrar-lhe nos ouvidos, depois caminharia mais um pouco e ficaria submersa
naquela água salgada… e deixar-se-ia ir… e não se debateria porque o que ela
queria era ir… ir… ir para lá do horizonte… mesmo que para isso tivesse que
engolir muita água, muita água salgada, amarga, amarga como era a sua vida…
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
terça-feira, 4 de agosto de 2015
sexta-feira, 20 de março de 2015
DA POESIA AOS PÉS
“Nós nunca estamos verdadeiramente onde estamos
Viajamos.”
Jaime Salazar Sampaio, "O Mar não precisa de poetas"
Após uma aula sobre as marcas dos pés no chão da nossa literatura na Academia Sénior de Estremoz às simpáticas e atentas alunas da minha querida Zuzu e outras maravilhosas pessoas que quiseram aparecer, depois de me inebriar com o ar do sempre reconfortante Alentejo berço, numa cidade particularmente estimulante das minhas memórias, com belas janelas, saudades da presença viva de António Telmo, as sempre misteriosas cegonhas, as nobres oliveiras centenárias, e tantos tantos outros doces recordares, finalmente o meu corpo baixou ao sono, sob um tecto de traves a lembrar o céu das minhas noites em cama de avó. Aos meus pés, Pantufa, a gatinha da Zuzu e do Zé, deitou-se poeticamente sobre a manta de rosetas e ali ficou toda a noite e velar ambos os sonos: o meu e o seu silencioso ronronar.
No meu ouvido adormecido, reverberava ainda um dos poemas lidos na aula:
No meu ouvido adormecido, reverberava ainda um dos poemas lidos na aula:
"TOMÉ NATANAEL
Leva nas mãos o arco
E às costas o violino
Grande como um barco.
Leva nas mãos o arco
E às costas o violino
Grande como um barco.
A música é maior do que o menino.
Mas sem esforço ou cansaço
O leva pela estrada o infinito
E à distância de um só seu passo
Descuidadamente finito.
O leva pela estrada o infinito
E à distância de um só seu passo
Descuidadamente finito.
A música não pesa
Nem o som que conduz
Por isso a estrada é um rasgo de luz."
Nem o som que conduz
Por isso a estrada é um rasgo de luz."
António Telmo
sexta-feira, 6 de março de 2015
Do Tempo da Outra Senhora: Universidade Sénior de Sousel
Do Tempo da Outra Senhora: Universidade Sénior de Sousel: A mesa do Encontro. Hernâni Matos, Zulmira Baleiro e Joana Reis. A Universidade Sénior de Sousel vem promovendo mensalmente encontro...
Hemáni Matos
Notas biográficas enviadas pelo meu amigo Hernâni Matos para preparação da Conversa com ... do dia 24 de Fevereiro de 2015
Desde os longínquos tempos do bibe e
do pião que é recolector de objectos materiais que fazem vibrar as tensas
cordas de violino da sua alma. Nessa conjuntura se tornou filatelista,
cartofilista, bibliófilo, ex-librista e seareiro nos terrenos da arte popular,
muito em especial a arte pastoril e a barrística popular de Estremoz.
Respigador nato, cão pisteiro,
farejador de coisas velhas, o seu olhar cirúrgico procede sistemática e
metodicamente ao varrimento de scanner no mercado das velharias em Estremoz, no
qual é presença habitual e onde recoleta objectos que duma forma virtual,
pré-existiam no seu pensamento,
O fascínio da ruralidade e o culto da
tradição oral, levam-no a procurar o convívio de camponeses, artesãos e poetas
populares, com os quais procura aprender e partilhar saberes.
A arte pastoril, um dos traços mais
marcantes da identidade cultural alentejana, integra as suas memórias materiais
de recolector. Para além do acto da colheita e mais que o fascínio da posse,
importa-lhe a possibilidade de dissecação de cada peça recolhida e a
cumplicidade com o autor no próprio acto de criação, constituindo um registo
para memória futura e uma afirmação vigorosa da identidade cultural
transtagana.
Perfilha há muito a ideia de que é
necessário estabelecer pontes de entendimento entre as pessoas, Já que a
partilha cúmplice de ideias e valores comuns, viabiliza a edificação conjunta
de arquitecturas, facto que induzirá e consolidará laços de união entre os
intervenientes.
Uma das muitas coisas que partilha com
os outros é a escrita, instrumento de libertação do Homem. Filho de alfaiate,
aprendeu a alinhavar palavras, que permitem cerzir ideias com que se propagam
doutrinas. Esse o sentido da sua intervenção cívica,
Escritor, jornalista e blogger
intervém em domínios como a História Postal, a História Popular de Estremoz, a
Etnografia e a Cultura Popular Alentejana, publicando textos, apresentando
comunicações e montando exposições temáticas e iconográficas.
Furiosamente independente, incisivo e
cáustico quanto baste, mas sempre preciso. Procura levar tudo às últimas
consequências e como franco-atirador do pensamento e da acção, busca fazer o
varrimento da transversalidade dos saberes.
Depois disso, a síntese dialéctica é
um ovo de Colombo nascido no cú da galinha da sua cabeça.
A AVÓ DOLORES
A sensação de perda é terrível. Viemos ontem de Amareleja,pois nós e os teus pais decidimos ficar mais um dia, para deixarmos as contas organizadas e a casa mais ou menos em ordem. A casa ficou fechada... até ver....
A D. Rosa, que ia dormir com a avó Dolores diariamente, foi buscar os edredons e as coisas pessoais e eu e a tua mãe ainda estivemos a conversar com ela um pouco. Ela já dormia lá a casa com a avó há 2 anos e gostava muito da avó Dolores, diz que sempre se deram muito bem e que a avó tinha um feitio tão bom que nunca houve nada entre elas; pelo contrário , a avó Dolores nos seus 90 e muitos anos tinha uma atitude de uma pessoa nova, sem implicar, sem ser rabugenta, sempre com uma atitude simpática, sorridente e bem disposta. O único inconveniente era a falta de ouvido, o que junto à sua característica de pessoa pouco faladora, fazia com que muitos serões passassem a olhar para a televisão ( a verem a telenovela que seguiam) e pouca conversa havia entre elas.
Vai deixar-nos muitas saudades, pois foi sempre aquela pessoa, discreta, mas atenta aos outros. Foi uma avó fantásticas para os netos e todos vocês (netos) têm óptimas recordações dela ( os bolos que tu fazias com ela! a disponibilidade constante para com todos nós, os almoços e jantares fantásticos que nos oferecia! as pupias que logo pela manhã ia comprar à padaria para que quando nos levantássemos tivéssemos pão fresco e bolos quentes para o pequeno almoço) tantas e tantas atenções que ela nos proporcionava... sem um ar de cansado, sem um ar de enfado, sem uma palavra mais brusca.
Todos nós vamos recordar a avó Dolores como aquela pessoa de coração muito bondoso, sempre disponível para os outros, sempre com um sorriso meigo a receber-nos ao portão da casa, a preparar as refeições na cozinha do quintal, andando (correndo tanto de inverno como de verão) de uma cozinha para a outra, pelo menos uma boa dúzia de vezes ( por refeição!) para fazer a refeição que tinha destinado para nós. Quantas e quantas vezes eu lhe pedi que pusesse todos os ingredientes na cozinha nova e que começasse a cozinhar no fogão dessa cozinha, porque era muito cansativo andar de um lado para o outro: faltava uma frigideira ia-se à cozinha, faltava uma tigela ia-se à cozinha, faltava a margarina ia-se ao frigorífico que estava na cozinha, faltava uma colher e tínhamos que ir buscá-la à cozinha!!) eu ficava mesmo enervada com a situação, e a avó Dolores desvalorizava a situação e ainda se ria por eu estar sempre a refilar!!!
A avó Dolores é de uma geração ( que vai acabar com estas pessoas) que se habituou a sacrificar-se pelos outros, que se entregou uma vida inteiro para proporcionar aos outros bem estar, serenidade e alegria.
Gostava muito que todos os netos escrevessem um pequeno texto a lembrar episódios passados com a avó Dolores, era a melhor maneira de a homenagearmos e de perpetuarmos a sua memória para que os mais pequeninos como o Xavier, a Joana e até o Tiago viessem a conhecer através das nossas palavras esta mulher maravilhosa, esposa dedicada e apaixonada, mãe sempre presente na vida dos filhos e mais tarde das noras ( que a adoptámos como mãe) , uma mulher que só dizia o indispensável, sabia ouvir e escutar e que não era pessoa para dar muitos conselhos, ouvia, escutava e por vezes limitava-se a sorrir...
A avó Dolores partiu no dia 25 de Fevereiro de 2015 às 6 horas da manhã, no Hospital de Stª Luzia, em Elvas
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avó Dolores
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Um bolo saído de um livro em viagem para oferecer aos Magos Reis.
Texto belíssimo da minha amiga Risoleta Pinto Pedro
Neste ainda dia dos Reis, em antecipação, um excerto de um livrinho que aí vem a caminho, faz sua viagem como qualquer mago, como qualquer rei. Ainda não terá revelado hoje seu título, mas apenas um dos subtítulos:
"UM APRECIADOR DE ROSAS, UM ADOLESCENTE, DUAS RAPARIGAS E UMA LOURA"
Pelo meio da ficção contém, a páginas tantas, a receita de um bolo que não sendo a mesma do bolo-rei, tem a mesma força simbólica deste. Cada ingrediente é um símbolo, a sua execução um ritual. Aqui fica como aperitivo para o livrinho que há-de chegar este ano, talvez nos primeiros meses, como agradecimento aos três Reis ou Magos que há tantos séculos repetem a viagem até ao menino, assim nos indicando o caminho em direção a nós:
" [...] resolvi fazer a festa do ouro da prata e da canela desse modo festejando, sem agredir sensibilidades mais laicas, o ouro, o incenso e a mirra.
Em homenagem ao tempo e à eternidade, fiz um bolo de ouro, prata, canela, incenso e mirra. Primeiro confeccionei o bolo e depois, enquanto cozia, escrevi a receita. Para nunca mais me sentir pássaro em cozinha de insone. Aqui fica a receita que não é estática mas estética e ética e como tal, aberta a aperfeiçoamentos:
NONA RECEITA
BOLO DE OURO, PRATA E CANELA
Grau de dificuldade: inclassificável
Pega-se na falta de tempo e arruma-se numa gaveta; não deixa crescer os bolos. Só então, munidos deste preciso levedante que é a ausência do que não existe, estamos preparados para o fazer.
Começamos por procurar os ingredientes. Parte deles não encontramos nos supermercados. Começa-se por remexer em todas as antigas gavetas
cuidado para não abrir a tal...
e procuram-se as recordações douradas. As de prata recolhem-se da lua pela janela do quarto deixada entreaberta. Fecha-se a janela depois da meia-noite, após a recolha feita. Por causa das constipações e também para que não fujam. Quanto à canela, não é difícil encontrá-la no supermercado, mas convém intensificar-lhe o aroma à beira-rio, na memória das caravelas
pedir, para isso, a ajuda de Cesário ...,
ou junto de um misterioso barco aí ancorado e um dia descoberto com um ser muito amado.
Procura-se então um momento em que, na casa, os adolescentes estejam a dormir.
São elementos muito perturbadores ao crescimento dos bolos, digo devoradores, sobretudo os mais cépticos, digo, gulosos
e começa-se por acender o Athanor, esse lento forno alquímico. À falta dele, serve o forno a gaz, que sempre o óptimo foi inimigo do possível, e não se podendo fazer a alquimia certa, faz-se, ao menos, a da humildade, o primeiro passo no caminho.
Depois de dispor ritualisticamente sobre a mesa os ingredientes, a saber:
- Farinha (cor de prata, obviamente)
- açúcar (dourado, claro)
- açúcar (prateado, pelos motivos que abaixo se explica)
- ovos (esse precioso sol semente)
- canela (dispensa apresentações, mas convém respirá-la bem, faz bem aos espirros, queria dizer, faz espirros, uma forma de lavar a alma)
- marmelada (de preferência de marmelos amadurecidos ao sol; se tiverem sido pintados por um pintor, melhor)
- chocapics da nestlé, passe a publicidade (porque é preciso saber sorrir)
- estrelitas, pelo mesmo motivo e também para trazer para dentro do nosso bolo uma fatia de céu.
- moedas douradas de chocolate das que há nas confeitarias.
- um ovo de chocolate envolto em prata desses que dávamos às crianças quando elas eram crianças e ainda não nos tinham ultrapassado em altura e continuamos a dar-lhes agora que pensam que já não são e já nos ultrapassam em altura.
Envolvem-se os ingredientes
à excepção do açúcar prateado, das moedas douradas, do ovo de prata, dos chocapics, da marmelada e das estrelitas
com muito amor e ao estilo e ao ritmo de cada um, e coloca-se a mistura dentro do Athanor
mesmo disfarçado de forno vulgar.
Pelo meio, pode atender-se o telefone, mas só telefonemas de amor, palavras que não nos distanciem, nem nos descentrem.
Quando o coração o disser, volta-se ao fogo e salva-se o bolo, no momento certo.
Coloca-se sobre a pedra polida da bancada e com uma faca a que se segredou mil cuidados, corta-se ao meio, longitudinalmente e em movimentos circulares. Perfeitos. Convém ter trinado, digo treinado, antes, mas como se verá o trinado também não é descabido.
Separam-se as partes e sobre Malkuth
para quem não saiba: a parte de baixo, o Mundo
coloca-se a marmelada, os chocapics e as estrelitas. Sopra-se lá para dentro um mantra de amor. Quem não souber, canta uma canção, que fica bem à mesma. Pode ser de embalar ou de exaltar. Depende do momento. Cobre-se com Kether
para quem não souber, a coroa real, a parte de cima, aquela que todos já conhecemos antes de cairmos. Por isso construímos este bolo como uma escada de Jacob.
Chegou o momento de bater
homeopaticamente
umas claras que deixámos de parte com o açúcar prateado
pormenor técnico: primeiro as claras; quando começar a desenhar-se pelo meio delas um castelo, junta-se o açúcar e continua-se, até o castelo estar bem firme sobre nuvens.
Cobre-se integralmente o bolo com o creme de nuvens prateadas
o castelo dissolveu-se, de comoção e amor
e finalmente decora-se perfeita e circularmente com as moedas de ouro, mais estrelas da nestlé e no centro, como qualquer semente, o ovo de prata.
Este bolo receita-se às pessoas de quem gostamos muito e também às outras.
Não se devora. Comunga-se.
As quantidades dependem muito do momento. Mais doçura, menos açúcar e vice-versa. A primeira hipótese é melhor mas a segunda também não é má, se não for frequente.
O Rubem gostou tanto da receita e do bolo, e talvez com saudades das Lições do Tonecas, sentiu estimulada a sua criatividade a ponto de iniciar uma redacção imaginando que era ainda menino ou que era a sua abandonada personagem e escrevia ..."
http://aluzdascasas.blogspot.pt/
Neste ainda dia dos Reis, em antecipação, um excerto de um livrinho que aí vem a caminho, faz sua viagem como qualquer mago, como qualquer rei. Ainda não terá revelado hoje seu título, mas apenas um dos subtítulos:
"UM APRECIADOR DE ROSAS, UM ADOLESCENTE, DUAS RAPARIGAS E UMA LOURA"
Pelo meio da ficção contém, a páginas tantas, a receita de um bolo que não sendo a mesma do bolo-rei, tem a mesma força simbólica deste. Cada ingrediente é um símbolo, a sua execução um ritual. Aqui fica como aperitivo para o livrinho que há-de chegar este ano, talvez nos primeiros meses, como agradecimento aos três Reis ou Magos que há tantos séculos repetem a viagem até ao menino, assim nos indicando o caminho em direção a nós:
" [...] resolvi fazer a festa do ouro da prata e da canela desse modo festejando, sem agredir sensibilidades mais laicas, o ouro, o incenso e a mirra.
Em homenagem ao tempo e à eternidade, fiz um bolo de ouro, prata, canela, incenso e mirra. Primeiro confeccionei o bolo e depois, enquanto cozia, escrevi a receita. Para nunca mais me sentir pássaro em cozinha de insone. Aqui fica a receita que não é estática mas estética e ética e como tal, aberta a aperfeiçoamentos:
NONA RECEITA
BOLO DE OURO, PRATA E CANELA
Grau de dificuldade: inclassificável
Pega-se na falta de tempo e arruma-se numa gaveta; não deixa crescer os bolos. Só então, munidos deste preciso levedante que é a ausência do que não existe, estamos preparados para o fazer.
Começamos por procurar os ingredientes. Parte deles não encontramos nos supermercados. Começa-se por remexer em todas as antigas gavetas
cuidado para não abrir a tal...
e procuram-se as recordações douradas. As de prata recolhem-se da lua pela janela do quarto deixada entreaberta. Fecha-se a janela depois da meia-noite, após a recolha feita. Por causa das constipações e também para que não fujam. Quanto à canela, não é difícil encontrá-la no supermercado, mas convém intensificar-lhe o aroma à beira-rio, na memória das caravelas
pedir, para isso, a ajuda de Cesário ...,
ou junto de um misterioso barco aí ancorado e um dia descoberto com um ser muito amado.
Procura-se então um momento em que, na casa, os adolescentes estejam a dormir.
São elementos muito perturbadores ao crescimento dos bolos, digo devoradores, sobretudo os mais cépticos, digo, gulosos
e começa-se por acender o Athanor, esse lento forno alquímico. À falta dele, serve o forno a gaz, que sempre o óptimo foi inimigo do possível, e não se podendo fazer a alquimia certa, faz-se, ao menos, a da humildade, o primeiro passo no caminho.
Depois de dispor ritualisticamente sobre a mesa os ingredientes, a saber:
- Farinha (cor de prata, obviamente)
- açúcar (dourado, claro)
- açúcar (prateado, pelos motivos que abaixo se explica)
- ovos (esse precioso sol semente)
- canela (dispensa apresentações, mas convém respirá-la bem, faz bem aos espirros, queria dizer, faz espirros, uma forma de lavar a alma)
- marmelada (de preferência de marmelos amadurecidos ao sol; se tiverem sido pintados por um pintor, melhor)
- chocapics da nestlé, passe a publicidade (porque é preciso saber sorrir)
- estrelitas, pelo mesmo motivo e também para trazer para dentro do nosso bolo uma fatia de céu.
- moedas douradas de chocolate das que há nas confeitarias.
- um ovo de chocolate envolto em prata desses que dávamos às crianças quando elas eram crianças e ainda não nos tinham ultrapassado em altura e continuamos a dar-lhes agora que pensam que já não são e já nos ultrapassam em altura.
Envolvem-se os ingredientes
à excepção do açúcar prateado, das moedas douradas, do ovo de prata, dos chocapics, da marmelada e das estrelitas
com muito amor e ao estilo e ao ritmo de cada um, e coloca-se a mistura dentro do Athanor
mesmo disfarçado de forno vulgar.
Pelo meio, pode atender-se o telefone, mas só telefonemas de amor, palavras que não nos distanciem, nem nos descentrem.
Quando o coração o disser, volta-se ao fogo e salva-se o bolo, no momento certo.
Coloca-se sobre a pedra polida da bancada e com uma faca a que se segredou mil cuidados, corta-se ao meio, longitudinalmente e em movimentos circulares. Perfeitos. Convém ter trinado, digo treinado, antes, mas como se verá o trinado também não é descabido.
Separam-se as partes e sobre Malkuth
para quem não saiba: a parte de baixo, o Mundo
coloca-se a marmelada, os chocapics e as estrelitas. Sopra-se lá para dentro um mantra de amor. Quem não souber, canta uma canção, que fica bem à mesma. Pode ser de embalar ou de exaltar. Depende do momento. Cobre-se com Kether
para quem não souber, a coroa real, a parte de cima, aquela que todos já conhecemos antes de cairmos. Por isso construímos este bolo como uma escada de Jacob.
Chegou o momento de bater
homeopaticamente
umas claras que deixámos de parte com o açúcar prateado
pormenor técnico: primeiro as claras; quando começar a desenhar-se pelo meio delas um castelo, junta-se o açúcar e continua-se, até o castelo estar bem firme sobre nuvens.
Cobre-se integralmente o bolo com o creme de nuvens prateadas
o castelo dissolveu-se, de comoção e amor
e finalmente decora-se perfeita e circularmente com as moedas de ouro, mais estrelas da nestlé e no centro, como qualquer semente, o ovo de prata.
Este bolo receita-se às pessoas de quem gostamos muito e também às outras.
Não se devora. Comunga-se.
As quantidades dependem muito do momento. Mais doçura, menos açúcar e vice-versa. A primeira hipótese é melhor mas a segunda também não é má, se não for frequente.
O Rubem gostou tanto da receita e do bolo, e talvez com saudades das Lições do Tonecas, sentiu estimulada a sua criatividade a ponto de iniciar uma redacção imaginando que era ainda menino ou que era a sua abandonada personagem e escrevia ..."
Lua, romãs e outros mistérios
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Eu estava sentada numa sala de espectáculos (ultimamente ando bastante
espectadora...) e ouvia, sem querer, a conversa atrás de mim. Era um casal e
ela contava que uma amiga comum fizera uma reacção alérgica a algo, de tal modo
que ficara a parecer "um bicho". Assim a descrevia.
Repetia a comparação, mas a conversa não acabou aqui. A parte mais interessante veio a seguir.
- Então perguntei-lhe o que é que tinha comido, e ela respondeu-me que nada, para além do habitual. E eu: "Nada, nada?". E ela: "Bem, para além do habitual só comi uma romã enorme, lindíssima, que a minha sogra me trouxe!". Aí eu disse-lhe: "Ah! A tua sogra tentou envenenar-te com uma romã... ".
Neste ponto eu não quis ouvir mais e o Universo fez-me a vontade, porque o espectáculo
recomeçou e eles tiveram de se calar.
A história soou-me vagamente ao universo das narrativas tradicionais, começando pelo jardim do Éden com a maçã e continuando pela mitologia clássica e contos tradicionais da infância. A fruta tem sido um bocado maltratada na literatura, associada a bruxas, madrastas, sogras e mulheres malvadas em geral. Até dava para fazer uma tese em torno do tema: "A fruta na literatura da malvadez". Qualquer coisa assim, já alguém terá pensado nisso?
E eu pensei: Se é verdade o que dizem os cientistas, que existem numerosos ou mesmo infinitos mundos ou dimensões, acredito que exista um universo onde as maçãs e as romãs não surgem associadas a envenenamento e em que as sogras são vistas como pessoas simpáticas, gentis e fiáveis.
Acredito num mundo em que as hipóteses para a solução dos problemas são múltiplas, criativas e não estereotipadas.
Se bem percebi (o que não é pêra doce, e aqui entra também em cena a pêra...) pelas leituras que fiz sobre a mecânica quântica e o Bosão de Higgs, o universo é consciente e em permanente criação e nós, observadores do universo, criamos o universo em criação. Um paradoxo muito difícil de resolver e mesmo de compreender.
Mas se é assim e poderemos estar ao mesmo tempo, real e potencialmente, em inúmeros universos, podendo escolher aquele em que está a nossa consciência, eu escolherei aquele em que maçãs, romãs e sogras são inocentes e em que as amigas não se envenenam mutuamente com histórias venenosas a cheirar a enxofre.
Se isso puder acontecer neste mundo, fico contente, porque é um mundo muito belo. Até porque está a aproximar-se um ano que imagino, acredito e antevejo muito interessante, excitante e ímpar. Apesar do número par, o infinito oito. Mas se é infinito, não é par nem é ímpar, ou é tudo, e nesse mundo que eu escolho, a sintaxe não é a do "ou...ou", mas a do "e...e". Assim sendo, neste mundo que eu escolho criar como gosto, as maçãs são oferecidas ao ser amado e são conhecimento, as romãs são sementes e são amor, as sogras são as mães dos companheiros e das companheiras e são amorosas.
Quero estar nele. Entrar nele nesta passagem de quarta-feira*, como no dia em que nasci, com lua crescente, a tender para cheia, como quando nasci. Que este seja um renascimento para todos, sob a bênção da lua, esse ser doce entre maçã e romã.
A história soou-me vagamente ao universo das narrativas tradicionais, começando pelo jardim do Éden com a maçã e continuando pela mitologia clássica e contos tradicionais da infância. A fruta tem sido um bocado maltratada na literatura, associada a bruxas, madrastas, sogras e mulheres malvadas em geral. Até dava para fazer uma tese em torno do tema: "A fruta na literatura da malvadez". Qualquer coisa assim, já alguém terá pensado nisso?
E eu pensei: Se é verdade o que dizem os cientistas, que existem numerosos ou mesmo infinitos mundos ou dimensões, acredito que exista um universo onde as maçãs e as romãs não surgem associadas a envenenamento e em que as sogras são vistas como pessoas simpáticas, gentis e fiáveis.
Acredito num mundo em que as hipóteses para a solução dos problemas são múltiplas, criativas e não estereotipadas.
Se bem percebi (o que não é pêra doce, e aqui entra também em cena a pêra...) pelas leituras que fiz sobre a mecânica quântica e o Bosão de Higgs, o universo é consciente e em permanente criação e nós, observadores do universo, criamos o universo em criação. Um paradoxo muito difícil de resolver e mesmo de compreender.
Mas se é assim e poderemos estar ao mesmo tempo, real e potencialmente, em inúmeros universos, podendo escolher aquele em que está a nossa consciência, eu escolherei aquele em que maçãs, romãs e sogras são inocentes e em que as amigas não se envenenam mutuamente com histórias venenosas a cheirar a enxofre.
Se isso puder acontecer neste mundo, fico contente, porque é um mundo muito belo. Até porque está a aproximar-se um ano que imagino, acredito e antevejo muito interessante, excitante e ímpar. Apesar do número par, o infinito oito. Mas se é infinito, não é par nem é ímpar, ou é tudo, e nesse mundo que eu escolho, a sintaxe não é a do "ou...ou", mas a do "e...e". Assim sendo, neste mundo que eu escolho criar como gosto, as maçãs são oferecidas ao ser amado e são conhecimento, as romãs são sementes e são amor, as sogras são as mães dos companheiros e das companheiras e são amorosas.
Quero estar nele. Entrar nele nesta passagem de quarta-feira*, como no dia em que nasci, com lua crescente, a tender para cheia, como quando nasci. Que este seja um renascimento para todos, sob a bênção da lua, esse ser doce entre maçã e romã.
( *Este texto
foi escrito, e pela primeira vez publicado, numa quarta-feita em
quarto-crescente, do velho para o novo ano)
Risoleta Pinto Pedro
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domingo, 25 de janeiro de 2015
sábado, 24 de janeiro de 2015
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