quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

transição 2014 para 2015

A televisão está ligada no Programa da RTP1 da Voice... na passagem do ano

Apresentadores e júri, os meninos e as meninas  bonitos, bem vestidos,  bem penteados, bem arranjados com os dentes todos iguais, muito direitinhos, branquinhos e certinhos dizem clichés que não há pachorra para os ouvir :
"Que ninguem fique sozinho em 2015! e se estiver sozinho que vá ao Facebook..."
Daniela Mercury como brasileira que é,  faz um pequeno discurso e fala dos jovens que apoia e de Madala, a menina que ganhou o prémio Nobel da Paz em 2014.
O Rui Reininho diz que na viagem do Porto para Lisboa viu muitas cegonhas a chegar... muitos anos de vida....  dão-lhe todos os copos de champanhe para as mãos, porque ele foi convidado a sair do programa, há alguns meses, por se apresentar com uma bebedeira enorme!!!
Michael Carreira um bom ano ...
Catarina Furtado diz: Falta 1 minuto para a meia noite...
E chegou a porcaria de 2015!!! que vai ser a mesma merda   que foi 2014... e todos brindamos a algo que não sabemos se merece ser brindado!!!

Eu e o Zé brindamos com  licor de café... comemos as 12 passas e desejamos feliz ano novo 2015 ...
que cinismo!!! não nos apetece fazer nada, mas temos que festejar uma coisa que ignoramos... 2015 tem 365 dias que serão vividos dia a dia!!!
fogo de artificio  na capital e nas principais capitais da europa..  e agora no Funchal....  e agora fogo de artificio na capital ao som de Carlos do Carmo. e finalmente de Londres junto ao Rio Tamisa
E chega a locutora e começa a disparar com as nóticias más e derrotistas que os telejornais adoram deitar cá para fora. Deve ser para nos assustar ainda mais a viver nesta época do século XXI, que nos dá
notícias trágicas de Xangai- milhares de pessoas espezinhadas quando festejavam o ano novo... muitos mortos esmagados e asfixiados com os corpos dos outros que estavam num nível mais acima...

Estou a levar tudo para a critica
entramos na realidade... noticias  já a dizerem-nos coisas que não nos agradam...

Entrevista ao médico de serviço de urgências dos Hospitais de Coimbra-- 11 operações de urgência--- tudo está mais ou menos controlado... há uma pessoa a ser operada neste momento...noite tranquila nas urgências até  que comecem a chegar os que apanham tais bebedeiras que ficam em coma alcoólica , são os indesejáveis , mas que pela certa irão aparecer...

  são 0h e 15 minutos.. vou-.me deitar, estou farta disto    tenho dito

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Natal da Aranha

Desde que encontrara aquele canto da casa que a aranha se sentia feliz. Era uma casa com mais de cem anos. As madeiras dos tectos estavam velhas e as paredes muito salitrosas deixavam cair a cal em flocos pelo chão. A casa estava desabitada. O dono da casa falecera há dois anos e a dona da casa decidira ir viver para casa da filha. Aos fins de semana, a dona da casa  ia para a casa. Como a aranha se encontrava na sua teia bem junto do tecto, entre a parede e uma trave do tecto, a senhora nunca a via. Ela sim, via-a  sempre que ela ia à casa de banho. Ouvia o bater ritmado da bengala de tripé e a princípio, escondia-se imediatamente no buraco entre a madeira carcomida e a parede esburacada. Depois, começou a perceber que a velhinha estava toda enrolada sobre si mesma, e que tinha um cuidado enorme em não descolar os olhos do chão com medo que este estivesse molhado e ela pudesse escorregar. Pouco a pouco, deixou de ter medo que ela a descobrisse.
A aranha vivia ali tranquila e à vontade. Passeava-se pelas paredes, remendava calmamente a teia quando uma mosca mais agressiva lutava com ela, de vez em quando resolvia aumentar mais um pouco da sua teia, e assim vivia no seu palácio como uma princesa.
A teia começou a ficar muito grossa. Era uma linda teia de aranha. Os seus filamentos, partindo do centro, eram muito bem feitos, muito bem organizados, criando um octógono perfeito no canto da parede.
A aranha não sabia há quanto tempo ali vivia, mas sentia-se dona e senhora daquela casa desabitada. Olhava as molduras penduradas nas paredes, com fotografias amarelecidas pelos anos, de senhores circunspectos de grandes bigodes e suíças a taparem-lhe as faces e senhoras de carrapito na cabeça, de blusas atadas até ao queixo, sorridentes dentro do limite que naquela época era aceite a uma senhora. Também havia molduras de fotografias de jovens, jovens que tinham falecido há muito e que já quase ninguém lembrava os seus nomes.
Faltavam poucos dias para o Natal. Os netos da dona da casa vinham passar o Natal à casa da avó, mas exigiam que a televisão estivesse em condições. Para a velhota ver a imagem tremida e com uma cor esbatida não tinha qualquer importância, contudo os netos disseram que só iriam  passar o Natal a casa da avó se a imagem da televisão fosse nítida e tivesse muitos canais.
Um dia, muito frio e sombrio, a aranha começou a ouvir uns barulhos estranhos na casa. Mulheres conversavam alto, chamavam umas pelas outras. Uma tentava arrojar um grande escadote que abriu com grande estrondo mesmo muito perto da sua teia. Só teve tempo de correr e esconder-se no buraco entre a trave do tecto e a parede. Estava cheia de medo. Nunca, desde que ali resolvera morar, ouvira tanto barulho e tanto alvoroço na casa. De tempos a tempos, ouvia o vozeirão de um homem, que perguntava olhando para cima onde estava a caixa de derivação da luz. Ainda no solo, este abriu a caixa enorme de latão cheia de ferramentas e uma das mulheres trouxe-lhe um rolo enorme de  fio eléctrico. Vinha colocar uma nova antena para a televisão. E o lugar ideal para o fazer, era mesmo no canto superior direito do tecto, onde a aranha vivia.
O homem olhou,  olhou  muito para o canto onde vivia a aranha, e disse para a mulher: -“Está
ali uma grande teia de aranha, traga-me uma vassoura para a tirar dali!!! Vou passar por ali o fio para a antena da televisão!! “
Pôs o escadote mesmo por baixo da teia de aranha, pegou na vassoura, subiu alguns degraus, e num ápice destruiu a teia  onde há muito meses a aranha vivera tranquila, e que tanto trabalho lhe tinha dado a fazer e preservar. Esta, muito escondidinha num buraquinho mínimo da trave, tremia como varas verdes. Pensava que era o seu fim, pois não via como sair daquela situação tão aflitiva!!!
As mulheres limpavam a casa, limpavam o pó, desarrumavam para varrerem atrás dos móveis , tiravam os retratos  das paredes e empilhavam-nos sem qualquer cuidado uns nos outros, caiavam as paredes, havia um reboliço que há muito a aranha não via.
O homem subiu ao escadote e com um berbequim eléctrico fez um barulho infernal que quase ia matando a aranha de susto. Esta não podia pensar em mexer-se, nem sequer pôr uma pata de fora!!! As paredes tremiam com a broca do berbequim que a todo o custo furava as paredes grossíssimas da casa até chegar ao telhado. Finalmente, o barulho acalmou e o homem começou a passar o fio de plástico branco que iria ligar a antena à televisão.
Em pouco tempo, o homem concluiu o trabalho. Tirou o escadote e arrumou-o a um canto do corredor da casa. As mulheres precisavam dele para limparem os candeeiros que pendiam dos tectos.
A aranha decidiu ficar muito sossegadinha no seu buraquinho. Sabia que se não desse nas vistas poderia ficar ali a viver mais uns tempos tranquilamente.
Mas não estava tranquila. Pensava nas pessoas que vinham da grande cidade, que não gostavam de aranhas e que um pequeno descuido podia ser  morte certa!!!!



Casa Branca, 22 de Dezembro de 2014
Zuzu Baleiro

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

COMO CONHECI ANTÓNIO TELMO

 Através de amigos como a Risoleta,  o Rui Arimateia, Hernâni Matos e outros sempre ouvi falar de António Telmo e da sua obra. Contudo, apesar de ter alguns livros seus, para além do de Contos ilustrado pelo Armando Alves, nunca privei com ele. Soube da sua morte, e das diversas homenagens que lhe têm sido feitas, mas como não tinha qualquer ligação afectiva e de amizade com  ele nunca estive presente em nenhuma. 
Agora, há cerca de 15 dias, o Hernâni Matos organizou, em Estremoz, a apresentação do livro dedicado ao Armando Alves e convidou-me para ir ler alguns textos. Foi nesse dia, que tive a oportunidade de conhecer Maria Antónia Vitorino, e naquele momento criou-se entre nós as duas uma empatia e uma comunhão de ideias , que senti que tinha encontrado ali uma amiga.
Trocámos números de telefones e a partir desse dia tenho tido oportunidade de ser convidada para sua casa, o que muito me honra.
Ao entrar no "santuário" de António Telmo senti uma emoção fortíssima, pois ali ainda se respira o ambiente em que António Telmo escreveu, pensou, meditou e viveu. Aquele escritório repleto de estantes carregadas de livros até ao tecto, onde em primeiro plano se podem ver molduras com retratos de António Telmo com várias personalidades ligadas ao estudo da língua Portuguesa, da filosofia, da pintura  deixou-me deslumbrada. Eu estava a ter a felicidade de poder olhar, apreciar, tocar.
A Mitó ( é assim que ela quer que eu a chame ) foi-me apresentar a filha Anahi, e aí ficámos sentadas numa salinha de estar onde ela está a convalescer de uma forte gripe. Conversámos, trocámos ideias, partilhámos muitas das nossas  ideias e dos nossos conhecimentos. A Mitó insistiu em oferecer-me um chá e num ambiente muito acolhedor passámos o resto da tarde, conversando as três, sobretudo de António Telmo, o homem que nos ligou. Fez-se de noite. Estava uma noite fria e gelada de Dezembro. Como eu tinha ido para casa da Mitó em pleno dia e com sol, não levei casaco, pois pensava não me demorar. 
A Mitó foi buscar um casaco de malha do António Telmo , que insistiu para que eu o vestisse, para poder sair à rua.
Eu lá fui eu, de casaco do António Telmo vestido, para minha casa. Sentia-me como se estivesse a viver um sonho; deslumbrada e feliz com aquela tarde tranquila, passada com duas mulheres maravilhosas. Um sonho bom , onde para terminar eu levava vestido o casaco de malha verde seco, de lã matizada com castanhos escuros e claros,  que com certeza tantas e tantas vezes António Telmo usara quando se sentava à secretária ou no sofá para escrever, ler ou pensar!!! 

Bem agora vamos à breve biografia para o site António Telmo - Vida e Obra

Maria Zulmira Varela Andrade Rodrigues Baleiro, conhecida entre familiares e amigos por Zuzu, nasceu em Casa Branca- Sousel, no ano de 1948. Oriunda de uma das mais antigas famílias da aldeia ( os Falcato) cresceu e viveu até à adolescência num ambiente de gente  com muito amor pela cultura, pelos livros e pela escrita. 
Aos 18 anos, foi trabalhar para o 9º Cartório Notarial de Lisboa. Casou e teve duas filhas. Sempre foi uma apaixonada pela leitura e por programas culturais.
Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante Francês/ Português na Faculdade de Letras de Lisboa, começando a leccionar Português e Francês nas escolas secundárias de Lisboa e na área da Grande Lisboa.
Mais tarde, em 1995, devido à morte súbita da sua filha Marta, restaurou a casa dos seus avós paternos e veio de novo viver para Casa Branca, indo leccionar as disciplinas de Português e Francês na Escola E, B 2, 3 de Sousel, até à data da sua aposentação, em 2011 e onde continua a viver.
Em 2004, fez a parte curricular do Mestrado em Estudos sobre as Mulheres na Universidade Aberta, de Lisboa, pois o estudo do género sempre a entusiasmou e apaixonou. Tem feito conferências nesta área, gosta de ler e dizer poesia em voz alta. Dedica-se à pintura e gosta de "alimentar" o seu blog com posts de vários temas. 
Pertence ao Núcleo  da Amnistia Internacional de Estremoz. É animadora no Lar de 3ª idade de Casa Branca, lendo e contando contos e lendas tradicionais aos idosos aí residentes. 
Desde que se reformou dá aulas, como voluntária, na disciplina de Poesia e Conto na Academia Sénior de Estremoz.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

o livro da Marta

Mas que excelente ideia. A Marta era sem dúvida a minha maior e mais querida amiga, de quem sinto tantas saudades. Os anos podem passar, mas penso nela muitas vezes. Pode parecer estranho, mas é verdade.
Quer memórias positivas, certo? Ou também que fale na ausência da Marta?
Muitos beijinhos, e vai ser um livro maravilhoso


Patrícia Lança  4 de Dezembro de 2014

terça-feira, 25 de novembro de 2014

MUDANÇA

Hoje, dia 25 de Novembro, pelas 15.30h, eu e a Joana Emília dinamizámos a 1ª Tertúlia " Uma Conversa por mês..."  da Universidade Sénior de Sousel, no auditório da Biblioteca Municipal de Sousel.
Tivemos uma assistência bastante interessada na apresentação das nossas propostas de trabalho e dos objectivos que nos propomos levar a cabo.
Uma Conversa por mês... terá lugar uma vez por mês, onde será convidada uma pessoa que domine o tema a trabalhar.
Li este texto Mudança de Clarice Lispector, adaptado por mim e a Joana Emília leu o poema de Pablo Neruda, Morre lentamente.
Foram sorteados 4 livros entre as pessoas presentes, um livro da Agatha Cristi, outro de contos, uma Bíblia Sagrada encadernada, e um livro sobre a Linguagem das Flores.


Sente-se noutra cadeira, do outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Mude por uns tempos a maneira de vestir. Dê os seus sapatos velhos. Em casa, nalguns dias, procure andar descalço. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, no campo ou no parque a ouvir o canto dos passarinhos.
Cumprimente os amigos e conhecidos a sorrir. Sorria!!
Veja o mundo de outras perspectivas. Mude!!
Abra e feche as gavetas e as portas com a mão esquerda. Durma do outro lado da cama... Depois, procure dormir  noutras camas. Assista a outros programas de televisão, compre outros jornais... leia outros livros. Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade.
Durma até mais tarde. Durma até mais cedo. Ouça música na cama. Relaxe. Aprenda uma palavra nova por dia numa língua estrangeira.
Corrija a postura, tente andar de costas direitas! Faça ginástica. Vá à natação. Brinque! Ria!
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos tempêros, novas cores, novas delícias.
Procure a novidade todos os dias. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. A nova vida. Tente a mudança.
Procure novos amigos. Tente novos amores. Faça novas amizades.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.  Mude!!!
Almoce noutros locais, vá a outros restaurantes, beba outro tipo de bebida, compre pão noutra padaria. Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro supermercado... outra marca de iogurtes... outra marca de sabonete, outro dentífrico... Tome banho em novo horário. Use canetas de outras cores.
Troque de mala, de carteira, de boné, compre novos óculos, troque de carro.
Deite fora os velhos relógios, guarde os despertadores chatos, não seja escravo das horas!!
Abra conta noutro banco. Aprenda novas actividades, vá para a pintura, para coisas novas, vá a outro cabeleireiro, ao teatro, visite novos museus, visite novas cidades. Vá passear para outros lugares. Vá passear com o seu neto. Mude!!
Leia um livro novo, escreva outras poesias.
Lembre-se de que a Vida é uma só!!! E pense seriamente em procurar um outro emprego, um trabalho mais ligeiro, que lhe dê mais prazer, que seja mais digno, mais humano, se está reformado procure uma nova ocupação,
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo. Mas mude!!!
E aproveite para fazer uma viagem longa, se possível sem destino certo. Vá visitar um amigo que não vê há muitos anos. Vá visitar aquele lugar que sempre desejou conhecer.
Experimente coisas novas.  Troque novamente. Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que aquelas que já  conhecia, mas não é isso que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Experimente a mudança pela pura alegria de viver: não tenha medo do risco, sem o qual a vida não vale a pena!

Texto de Clarice Lispector  (adaptado pela Profª Zuzu Baleiro)

MORRE LENTAMENTE
Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê, quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito.
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
Não arrisca vestir uma cor nova,
Não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos iis"
A um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho.
Quem não permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias, queixando-se da má sorte,
Ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, 
Não perguntando sobre um assunto que desconhece.
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo,
Exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!

Pablo Neruda ( in Folha da Ala Sul)

far far away: O prémio Leya

far far away: O prémio Leya: Eu sou nova nestas lides, e por essa razão às vezes sinto-me um pouco inibida em expressar a minha opinião. A sensação que tenho é a de quem...

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RAÚL

Deitado debaixo da macieira, naquele fim de tarde, calmo e quente, Raul olhava calmamente as poucas maçãs que ainda estavam na árvore. Não tinha sido fácil deitar-se . Corpulento, nos seus 145 kg, cada vez sentia mais dificuldade em deitar-se. Mas ele gostava tanto de se deitar na erva fresca por baixo da macieira!
Sempre fora gordinho. Quando foi para o jardim de infância, a mãe foi à loja comprar o bibe de quadradinhos azuis e brancos, e constatou que não havia para o tamanho do Raul. O que fazer? o empregado da loja da Rua dos Fanqueiros, sugeriu-lhe que comprasse dois metros de tecido igual ao exigido pelo colégio e fosse a uma costureira fazê-lo por medida.
Quando a mãe chegou a casa e lhe disse que tinha que ir à modista mandar fazer o bibe, não achou nada de estranho. Ele até gostava de ir à D. Conceição que lhe fazia os calções! 
Quando chegava a casa da D. Conceição, esta elogiava-o sempre, ele gostava disso. "- Oh Raul, estás tão bonito, a tua pele é tão rosadinha, as tuas bochechas tão coradinhas, o teu narizinho tão pequenino no meio dessas bochechas rechonchudas, os teus olhinhos brilham enterrados nestas bochechas, o teu cabelo louro cheio de caracóis dão-te um ar tão meiguinho, tão celestial, de menino tão bem comportado!!! a mãe  ficava toda babada ao ouvir estes elogios da D. Conceição e ele também gostava de ouvi-los!!!.
Ela pegava na fita métrica e começava a tirar-lhe as medidas: primeiro a cintura, depois a anca, depois a coxa e finalmente junto ao joelho onde iriam terminar as pernas dos calções.  A cada medida ela ia dizendo: " Cresceste mais um pouquinho!! a cintura tem mais 5 centímetros!!" e sorria, com um sorriso feliz estampado no rosto magro e cansado.
Raúl, no recreio da escola primária procurava correr com os colegas, mas o rabo era-lhe tão pesado!!! ao fim de uma voltinha no pátio do recreio já ele estava sentado no muro baixo que ladeava o canteiro da grande acácia, de flores amarelas. Sentado à sombra da velha árvore é que ele se sentia bem... se os outros se queriam cansar e ir todos transpirados para a aula era lá com eles... ele preferia assistir calmamente às correrias e às maluqueiras dos colegas... e assim continuou a engordar, a engordar...
Nunca sonhou com desportos radicais, nada que o fizesse cansar e ficar exausto.... gostava de coisas calminhas... jogos de computador, ler banda desenhada, deitar-se no sofá e ver televisão.... ir à cozinha buscar uma lata de coca-cola mais um pacote de bolachas Oreo e estrafado no sofá ver um filme de aventuras, de acção , de guerras, de perseguições, de polícias e ladrões a correrem atrás uns dos outros... só de ver tanta acção ficava cansado!!!!
Cresceu, cresceu em idade, em tamanho e em peso!!! era um homem de 47 anos, bonacheirão, simpático, introvertido, de sorriso fácil, que estava sempre pronto a ajudar os colegas na repartição do Ministério da Justiça. Estava solteiro e não pensava em casar! Aturar uma mulher era uma chatice.... gostava de viver sozinho, na casa onde sempre vivera, no Alto da Ajuda. 
No dia em que lhe saiu o prémio do euromilhões Raúl nem queria acreditar! Não sabia se devia rir, se chorar, se pular...  sentou-se e respirou fundo!!! Não era uma quantia exorbitante, mas sempre  era alguma coisa que se visse!!Ia dar para comprar uma quintinha para os lados da Lourinhã... sempre gostou tanto daqueles sítios...
Acordou estremunhado!!! sentiu uma coisa a esborrachar-se na cabeça calva... era uma maçã meio madura meio podre vinda das últimas pernadas .....

Conto 
Zuzu Baleiro   Novembro 2014


sábado, 22 de novembro de 2014

O LANÇAMENTO De " GALVEIAS" EM GALVEIAS

Assistência

Mãe Amélia, nos seus 87 anos, assistindo ao lançamento

Ao fundo a mesa dos oradores

Assistência

Assistência, ao fundo mesa dos oradores
Chegámos a Galveias, por volta das 17 horas e vimos muita gente à porta da Casa do Povo e muito movimento de carros e pessoas. Pensei: - " Não vamos conseguir entrar ali!" 
Saímos do carro e fomos caminhando, no passo miudinho da minha mãe, a caminho da entrada. Há uma escadaria, sem corrimão. Havia pessoas ao longo e em cima das escadas. Pedi a um senhor que ajudasse  a minha mãe a subir os degraus, eu não sabia como havia de subir, pois não havia onde me agarrar. Muito solícitos apareceram logo vários cavalheiros a ajudar a minha mãe, eu a custo lá fui subindo...
Quando entrámos no edifício havia pessoas por todo o lado. Encontrámos umas senhoras da Casa Branca paradas ali no corredor...pensei: - "O melhor é dar meia volta e ir-me-nos embora!". Havia 3 cadeiras encostadas à parede no corredor, e consegui que a minha mãe se sentasse numa. Entretanto fui ver como é que poderíamos assistir à sessão. A sala pequeníssima, abarrotava com tanta gente. Pensei que não podíamos ficar ali. Entretanto, chega o José Luis Peixoto e passa pelo corredor onde se encontrava a minha mãe. Ela chama-o e diz-lhe: "-Sabe sou a avó da Patrícia, venho assistir ao lançamento do livro!" ele olhou para ela e disse-lhe que lhe ia arranjar uma cadeira na sala,enquanto lhe dizia: "Ah é a avó da minha amiga Patrícia, a senhora é muito bonita!!"  eu tranquilizei-o dizendo-lhe - "Oh Zé Luís hoje não é dia para isso, o senhor tem que se preocupar é com o lançamento do livro!" Ele, muito atencioso disse-me: "- Não , não!! vou providenciar uma cadeira para a sua mãe, já vou tratar disso!" Ele chegou à sala e viu tanta, tanta gente, que ele ou alguém teve a ideia fantástica de fazer o lançamento lá fora no recinto da Junta, onde há bancos de cimento e um grande ecrã gigante em alvenaria para projecção de filmes durante o verão. E a apresentação foi lá fora, com centenas de pessoas a assistirem, embevecidas e orgulhosas por aquele filho da terra de Galveias ser um escritor importante, que é conhecido não só em Portugal como em muitos países do mundo. 
Depois da apresentação, formou-se uma enorme bicha para os autógrafos, aí eu decidi que eram horas de voltarmos. Um dia, combinaríamos com ele, e iríamos a Galveias para ele me autografar os livros.
Metemo-nos no carro, já era escuro. Começou a chover à saída de Galveias. A chuva começou a engrossar, a engrossar de tal maneira que se transformou num dilúvio. Eu não via a estrada, a chuva no limpa para-brisas era tanta, tanta que as escovas não conseguiam limpá-la. Viemos muito devagarinho. De vez em quando a chuva acalmava um pouco. E eu pensava que iria estiar, mas de repente vinha outra vez uma chuva torrencial que não nos deixava ver por onde íamos. Foi uma viagem complicadíssima. Eu não conhecia o carro, a estrada é muito estreita e havia lençóis de água por todo o lado.  
Chegámos sãs e salvas a Casa Branca, apesar de tanta chuva. Vínhamos felizes e bem dispostas. Valeu a pena a aventura!!!

A assistência

Os oradores


Ao fundo na varanda eu e a minha mãe
O Diário Digital do Sapo refere no artigo da apresentação do lançamento o seguinte: " O universo toca uma pequena vila com um mistério imenso. Esse é o ponto de acesso ao elenco de personagens que compõe este romance e que, capítulo a capítulo, ergue um mundo. Como uma condensação de portugalidade, Galveias é um retrato de vida, imagem despudorada de uma realidade que atravessa o país e que, em grande medida, contribui para traçar-lhe a sua identidade mais profunda.
A riqueza da escrita, a sofisticação formal, a sensível e dura humanidade destas páginas são um passo marcante na obra de um dos mais destacados autores europeus da sua geração e, sem dúvida, colocam Galveias entre os grandes romances alguma vez escritos sobre a ruralidade portuguesa.
Para todos os leitores que, ao longo dos anos, irão conhecê-lo, a trajectória deste livro já se iniciou. Como o mistério que acerta em Galveias, este romance vai a caminho desses olhares, irá tocá-los de modo irreversível» 
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=735190