sábado, 21 de junho de 2014

O EXAME DA 4ª CLASSE

Maria Zulmira, Maria Augusta Anica, Elisabete Borralho

O EXAME DA 4º CLASSE

Quando chegava o mês de Junho, era a época dos exames. Os meninos e meninas que frequentavam a 4ª classe, tinham que se deslocar à escola de Sousel, para fazerem o exame. Era uma coisa de grande responsabilidade. Muitos poucos de nós tínhamos saído aqui da aldeia, por isso, ir fazer exame a Sousel, era um acontecimento. Espaço e professores desconhecidos, que nos impunham muito receio e respeito. Nem para os professores nós tínhamos coragem de olhar!! A timidez era enorme.
Deslocávamo-nos como podíamos, mas a maior parte ia no carro do Sr. Zé Delfino. Vestíamos os nossos melhores vestidos  de verão, sandálias de couro feitas nos sapateiros da aldeia, e lá íamos nós, de manhã muito cedo. A prova escrita era da parte da manhã, e da parte da tarde a prova oral. Uma sala enorme, com carteiras afastadas umas das outras, onde nos sentávamos dois a dois. Era expressamente proibido olhar para a prova do companheiro. As professoras cirandavam pela sala, com um ar de   grande solenidade e de grande tensão.
Fazia sempre muito calor. As mãos suadas, deixavam escorregar a caneta de tinta permanente ou a caneta de aparo, que era molhada no tinteiro da carteira. As mãos escorriam água, então tínhamos uma folha de papel branco , dobrada, que púnhamos debaixo da mão, e que ia acompanhando a progressão da escrita. Alguns, mais nervosos, deixavam cair um borrão de tinta em cima da prova, o que desfeava a mesma. Começavam a chorar, por lhes ter acontecido aquilo que mais temiam. Tanto que a professora recomendou que pusessem pouca tinta no aparo, para que não houvesse borrões!!!
Não me lembro onde almoçávamos, mas lembro-me de no fim do dia comer um gelado no quiosque do jardim.
Depois das provas realizadas, chegávamos a Casa Branca por volta das 4 ou 5 horas da tarde. O grupo dos alunos e das alunas que fizeram exame  começava a percorrer as ruas da aldeia e a  a cantar  esta cantiga
Bate palmas, bate palmas
Amor aperta-me a mão
Tenho a sina de ser tua (bis)
Mas por hora ainda não (bis)

Bate palmas, bate palmas  (bis)
Amor aperta-me a mão   (bis)
Viva a Srª D. Amélia
Que nos deu educação

Parávamos em casa de cada companheira, onde na casa de entrada estava a mesa posta, com pratos de bolos e licores muito coloridos, verde, azul, vermelho, que nós bebíamos em copinhos pequeninos.  Depois continuávamos a volta à aldeia e entrávamos em casa doutra colega, e assim, íamos a casa de todas as companheiras, sempre cantando a cantiga “ Bate palmas...”
Para a maioria das minhas colegas, o fazer exame da 4ª classe, implicava que começariam a ter uma vida completamente diferente da que tiveram até ali. Ou iam trabalhar no campo, ou tomar conta dos irmãos mais novos, ou ir “servir” para casa de pessoas que tinham criadas.  No universo de 40 a 50 alunos, éramos 10 ou 12 ( entre rapazes e raparigas) que se preparavam ( com explicações particulares ) para fazer o exame de admissão aos liceus afim de  prosseguirem os estudos nas grandes cidades.





sexta-feira, 13 de junho de 2014

SÚMULA

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.

Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder

domingo, 8 de junho de 2014

NOITE DA CONSOADA 2013

Não foi preciso abrir a mesa para a ceia de Natal. Este ano, na noite da consoada éramos três pessoas à mesa. 
O pai Vitalino partiu no Verão. Já há alguns anos que ele não tinha muita paciência para ficar até tarde na festa da consoada. Mal comia o bacalhau com couves e batatas e as sobremesas preparava-se para se ir embora.
A mãe Amélia gostava de ficar a conversar mais algum tempo, mas como ele se punha a postos para ir para casa, dizia-lhe: " Oh Vitalino não te vás embora, que eu não quero ir sozinha!!! espera por mim!!" ele começava a abrir a porta do quintal e a minha mãe, muito à pressa vestia o casaco, pegava na bengala e lá ia a trás dele.
 Era assim  desde  há alguns anos.
27 de Dezembro de 2013
Não me apetece escrever mais...

SOLIDÃO

Música da Canção do mar

Solidão de quem tremeu  à tentação
Do céu e dos encontrões que o céu me deu
Serei bem eu sobre este véu de pranto

Sem saber se choro algum pecado
A tremer imploro o céu fechado

Triste amor o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonada e não me abandonei
Por mim ninguém já se detém na estrada

Solo

Triste amor o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonada e não me abandonei
Por mim ninguém já se detém na estrada


Link: http://www.vagalume.com.br/amalia-rodrigues/cancao-do-mar.html#ixzz2UjRwGtFI

Amália Rodrigues

NANI MORETTI - CAIMÃO





Caimão, novo filme de Nanni Moretti

O Caimão
Título original: Il Caimano
Argumento: Nanni Moretti
Género: Comédia Dramática
Classificacao: M/12

Estúdios: BAC Films, France 3 Cinéma
FRA/ITA, 2006, Cores, 112 min.
O último filme de Nanni Moretti, uma metáfora sobre a Itália contemporânea, tornou-se num êxito de bilheteira no país, tendo estreado dias antes das eleições que afastaram do poder Berlusconi. É a história de um produtor em falência profissional e sentimental, Bruno Bonomo, que tem um passado de produtor de filmes de série Z com títulos inspiradores como "Os Mocassins Assassinos" ou "Maciste vs. Freud". Mas agora não consegue arranjar financiamento para o seu próximo projecto, "O Regresso de Cristóvão Colombo". Estrangulado pelas dívidas e fraquezas, com o casamento em risco e os filhos perdidos, Bruno perde o norte. É aí que o seu caminho se cruza com o de uma jovem realizadora que lhe entrega um guião, "O Caimão". A princípio Bruno pensa que é um "thriller" musculado, mas apercebe-se numa segunda leitura mais atenta - se bem que um pouco tardia - que se trata de um filme sobre o primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Bruno já não pode recuar e vê-se obrigado a cumprir o planeado, encontrar o actor principal, enquanto tenta recolar as peças da sua vida conjugal. No entanto, em todo este novelo de erros e dificuldades, começa a nascer um novo entusiasmo em Bruno Bonomo: o da afirmação da sua dignidade. Este homem para quem tudo estava acabado encontra em si a energia para levar até ao fim um projecto que começou por acaso, mas que também ele acredita agora necessário tornar realidade.



http://cinecartaz.publico.clix.pt/filme.asp?id=155846

PAPAGAIO OU MULHER?

OLHE COM ATENÇÃO E O QUE VÊ? UM PAPAGAIO OU UMA MULHER?


POESIA E CONTOS: POESIA NO FEMININO- UMA VOZ DE REBELDIA?

POESIA E CONTOS: POESIA NO FEMININO- UMA VOZ DE REBELDIA?:
                                       

terça-feira, 27 de maio de 2014

DESLOCADOS

Há algum tempo que vinha a conduzir. Entrou numa povoação e apeteceu-lhe fazer uma pausa para um café. Entre as árvores que ladeavam a estrada viu um café. Parou.
Lá fora o sol era intenso. Isabel entrou. Lá dentro o ambiente era taciturno. Sentou-se;  pesados reposteiros  tapavam as enormes janelas. Sanefas enormes do mesmo tecido, decoradas com drapeados. Os cortinados muito compridos do tecto ao chão, eram de um tecido grosso, de seda azul ou verde escuro com flores , já bastante desbotado.. Num quarto ou numa sala  talvez ficassem menos mal, mas ali não estavam a condizer com o espaço.  Estavam no lugar errado. Emprestavam ao local uma estranheza. 
Duas mesas estavam ocupadas, por dois casais que se via serem marido e mulher, e clientes habituais da casa.O casal de cerca de 70 anos estava tranquilamente sentado na sua mesa, bebendo o café e com ar de quem se sentia ali bem. A mulher do casal mais novo, mas também de meia idade estava calmamente a comer um bolo e a beber café.
Por detrás do balcão estava uma mulher. Teria  60 anos, a atirar para o forte,  muito pouco atraente. 
As feições eram regulares, nem bonita nem feia. Mas, o que mais chamou a atenção de Isabel foi o cabelo e o penteado. Liso, muito comprido, caído até ao meio das costas, pintado de preto asa de corvo, com uma raiz de cabelos brancos que teimava a aparecer uma semana depois de o pintar, risca ao meio, preso com um gancho de pedras de vidro, muito brilhantes, de cada lado, uma franja rala caída na testa. 
Todo o conjunto era estranho. Nada combinava com o seu aspecto de matrona, de rosto marcado pelos anos e pela idade.
Vestia uma blusa de padrão de leopardo, de malha de seda muito justa que lhe acentuava o estômago proeminente e uma saia de crepom preta,  bordada com lantejoulas e missangas, pelo joelho, onde a barriga sobressaía. Sapatos/sandália de tiras, enfiados nos pés.
A mulher parecia ter saído de uma casa de prostitutas, da bilheteira de um circo, de um lugar algures no universo....
Isabel olhava para aquela mulher de olhar triste, que discretamente e sem alarido servia os clientes;  pensava: quem  será esta mulher? porque se prepara e se veste de uma maneira tão diferente da maioria das mulheres da região?!  Como aparece aqui num café à beira da estrada? Não deve ter sido fácil enfrentar as críticas das mulheres maldizentes da vila, que estão sempre à espreita de uma oportunidade para criticar tudo e todos. Falar da vida alheia é o que elas fazem sempre que se encontram umas com as outras. 
Pagou e partiu. A mulher e o café não lhe saíam da cabeça... durante muito tempo não lhe saíram do pensamento... 
Cortinados com sanefa como os do café
Zuzu
Casa Branca,27 Maio 2014


domingo, 25 de maio de 2014

O Homem Nu

Fernando Sabino

Ao acordar, disse para a mulher:

— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.

— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.

— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.

Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.

Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

Enquanto isso, ouvia lá em
baixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!

Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:

— Maria, por favor! Sou eu!

Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.

Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.

E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!

— Isso é que não — repetiu, furioso.

Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá em baixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.

Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...

A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

— Valha-me Deus! O padeiro está nu!

E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:

— Tem um homem pelado aqui na porta!

Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

— É um tarado!

— Olha, que horror!

— Não olha não! Já p'ra dentro, minha filha!

Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.

Não era: era o cobrador da televisão.

Esta é uma das crónicas mais famosas do grande escritor mineiro Fernando Sabino. Extraída do livro de mesmo nome, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 65.

sábado, 24 de maio de 2014

MARIANA ANGÉLICA DE ANDRADE A Poetisa do Sado

O meu tio Jacinto Varela muitas vezes me falou desta senhora,  como sendo da nossa família que foi uma célebre poetisa do seu tempo séc XIX. No post diz-se que ela adoptou os nomes da sua madrinha ,então seria a sua madrinha Gertrudes Angélica d’ Andrade quem pertencia à minha família. Ele tem um livro de poemas dela. Dizia-me que havia vários  livros desta senhora na Biblioteca Nacional de Lisboa. Hoje, quando "navegava" pela Net encontrei este post, do blog do Núcleo de Poesia de Setúbal
 http://quebralemes.blogspot.pt/2012/09/canto-dos-poetas-poetisa-do-sado.html
Resolvi  partilhá-lo , pois é sempre gratificante encontrar alguém da família que se sobressaiu nas artes.

Mariana Angélica de Andrade
Mariana Angélica de Andrade nasceu em Casa Branca, Sousel, em 11 de Maio de 1840. Era filha de Joaquim António Serrano, poeta, escritor e jornalista do Diário de Notícias e de Francisca Pereira da Silva. Aos 4 anos veio para Setúbal, onde vivia a sua madrinha que a criou e educou. Mariana adoptou de sua madrinha Gertrudes Angélica d’ Andrade os apelidos que usava. Provavelmente, viveu na Rua Nova da Conceição (actua Av. 5 de Outubro), no nº 21.
         Não existem rastos sobre a aprendizagem escolar da poetisa. Contudo, dada a situação do sistema educativo português da altura – 1846-1850 – é natural que Mariana tenha frequentado o ensino privado ou tenha tido uma preceptora, solução que as famílias mais abastadas encontravam para dar alguma instrução às suas filhas. A madrinha de Mariana fazia parte das famílias burguesas da cidade, já que era viúva de um rico proprietário, e foi umas das pessoas que mais contribuiu para a existência e manutenção do Asilo da Infância Desvalida de Setúbal.
       Casou civilmente em 1874 com o escritor, filólogo e poeta António Cândido de Figueiredo com o qual se correspondera durante anos e que estimulou a sua actividade poética. Foi desta troca de correspondência que o amor nasceu entre eles, sendo Cândido de Figueiredo ainda estudante em Coimbra. Depois do casamento foi viver para Lisboa, na Calçada do Duque 13-2º. Teve duas filhas – Rosalinda e Corina. Estas tinham, respectivamente, 7 e 5 anos quando Mariana Angélica faleceu às 3 horas da madrugada, em 14 de Novembro de 1882, aos 42 anos, vítima de tuberculose pulmonar. Foi enterrada no dia 16 de Novembro, às 11 horas da manhã, no Cemitério Ocidental, hoje Cemitério dos Prazeres.
       A morte de Mariana foi noticiada na Gazeta Setubalense, no Diário de Notícias, no Século, no Jornal do Comércio, no Distrito de Viseu, no Jornal Ilustrado, no Jornal da Noite, no Viriato, no Diário de Portugal, no Comércio Português e em outros jornais e revistas onde a poetisa colaborou o que demonstra a consideração, o apreço e a admiração pela mesma.
         O Distrito de Viseu noticiou deste modo a sua morte:
«Era uma senhora muito instruída e prendada. Os formosos versos que publicou em vários jornais deram-lhe o cognome de «A Poetisa do Sado».
        Admiravam a sua obra nomes consagrados na literatura da época, como António Xavier Cordeiro, Gonçalves Crespo, Júlio César Machado, Feliciano Castilho, João Penha Alberto Pimentel, Simões Dias e Gomes de Amorim.
        Mariana Angélica foi uma pessoa culta, conhecedora de Camões, Filinto Elísio, Nicolau Tolentino, Marquesa de Alorna, Publia de Castro, Bocage, Almeida Garrett, Feliciano de Castilho, Alexandre Herculano, Soares dos Passos, Camilo C. Branco, João de Deus, Gomes de Amorim e Simões Dias, Ana Plácido, entre outros. Também conhecia Molière, Victor Hugo e outros autores estrangeiros dos quais traduziu, para português, romances que foram publicados em folhetins em alguns dos jornais e revistas onde colaborou.
       Um dos aspectos que a preocupava era a Educação em geral e a das mulheres em particular, tendo abordado este assunto por várias vezes nas publicações onde colaborava e que foram transcritos por outras publicações da época.
          Tratou temas relacionados com problemas políticos e sociais do seu tempo em muitos dos seus poemas – a guerra, a injustiça, a pobreza, a liberdade – que foram recitados em várias ocasiões, em festas e recitais em Setúbal.Verifica-se na obra poética a sua revolta, a sua insatisfação, a sua mágoa com o facto de ser mulher.
Mariana Angélica d’Andrade começou a escrever muito cedo poesia; o poema “Estações da Vida”, publicado no seu primeiro livro, Murmúrios do Sado, tem a data de 1854.   
A sua primeira obra, Murmúrios do Sado, foi publicada em 1870, em Setúbal, e prefaciada por Cândido de Figueiredo. Esta obra mereceu a atenção do Grémio Literário do Brasil tendo sido lavrado à autora diploma de sócia honorária.
A obra Revérberos do Poente foi publicada postumamente em 1883, no Porto, com prefácio de Gomes de Amorim. Também As Rimas Selectas foram publicadas postumamente em 1917, por Nuno Catarino Cardoso, na antologia Poetisas Portuguesas.
Mariana Andrade também escreveu artigos de opinião e de crítica, contos, fantasias e duas comédias; alguns que estão publicados, outros que deixou inéditos. A comédia As Esporas do Alferes foi estreada em Setúbal em 1870 e representada pelo actor José Romano.
Foi redactora da Gazeta Setubalense e da Grinalda Literária, colaborou no jornal Aspirações, na Voz Feminina (1868-1869), Almanaque de Senhoras (1871),Almanaque de Lembranças (1867) e em periódicos de Lisboa (Gazeta das Salas,1877), Coimbra e Porto.

                                                                 Anita Vilar


     POESIA E MULHER

                                         Celeste dom da poesia,
                                                       Jóia sem preço, calcada
                                                       Aos pés da turba, que insulta
                                                       As desventuras do génio.

                                                                     Camilo Castelo Branco
   
                           Porque me vens tu arcanjo da poesia,
 Com teu estro de brilho cintilante,
 Com fogo divinal que a fronte queima,
                          Esta alma extasiar?!

Eu sinto-me inspirada!... mas o mundo
Maldiz os sons da lira, afronta o génio
Que procura elevar-se, em asas de oiro,
                          Acima do vulgar!

Com loucos preconceitos ouve os hinos,
- Hinos que não conhece e não entende;-
Vozes d’alma sinceras que condena
                          Por não as compreender!

E mais a escarnece quando sabe
Que vêm d’uma mulher os sons que escuta!
Á vítima inocente nem lhe é dado
                          Prantos deixar correr!

Só pode ser feliz, ou ser querida,
A mulher que em salões pompeia galas,
Os gestos, a maneira, e em mil requebros
                           Sorri-se ternamente!

Que em vasto coração, se o tem acaso,
A muitos pretendentes presta asilo…
E o falso amor que se desata em risos,
                           Reparte largamente!

Mas se odeia a vaidade mentirosa,
Mira outra luz, tem outra senda aberta:
Precisa doutro amor, quer outro brilho
                           Que não há nos salões!

Ama a luz radiante do talento,
Idolatra a poesia, abraça a lira,
E sonha melhor mundo, embora este
                            Lhe roube as ilusões!...

Poesia! Se dás glória eu não a gozo;
Se dás palmas a quem a vida enturvas,
São elas tão exíguas que não chegam
                            A mim pobre mulher!


Que importa!... Se não cinjo verdes louros
Nem possuo os troféus que dás a custo,
Cânticos são riqueza de minha alma,
                             Nem outra glória quer.

Eu sinto-me enlevada quando penso
Em ti, meu terno amor, meu doce encanto.
O mundo que me veja e tenha zelos
                             Desta funda paixão!

Seus risos insensatos não me afligem;
Mas se ele me partisse a pobre lira…
Ai de mim!... também ele aniquilava
                           Meu triste coração!


                                        MISTÉRIOS DO TOUCADOR 

                   

                   Cassilda foi ao baile, e tão formosa
                   Que fez inveja a todas as senhoras;
                   Muito embora gentis, encantadoras,
                   Nenhuma era tão bela e majestosa.

                   Tinha a cútis rosada e cetinosa
                             Tinha no olhar o brilho das auroras,
Tinha as formas perfeitas, sedutoras;
 E ela passava altiva e donairosa.

 De valsas e sorrisos fatigada,
 Assim falou depois com a criada
          A sós, ao toucador vendo as feições:
     
 « Fui rainha do baile! Que patetas
 São os homens!... Recolhe nas gavetas
 Os dentes, o cabelo, os algodões…»