domingo, 16 de novembro de 2014

ENCONTROS FLORBELIANOS

POESIA NO FEMININO- UMA VOZ DE REBELDIA?

 POESIA NO FEMININO - UMA VOZ DE REBELDIA?


                                    
FLORBELA ESPANCA



            ENCONTROS FLORBELIANOS

VILA VIÇOSA  6 DE JUNHO DE 2014             ZUZU BALEIRO


No dia 6 de Junho, pelas 21 horas reuniu-se um  razoável número de pessoas, numa sala do Solar dos Mascarenhas, em Vila Viçosa para dizerem poesia e ouvirem a minha palestra:



Escolhi três mulheres poetisas portuguesas para vos apresentar: Florbela Espanca que nasceu emVila Viçosa no ano de 1894, Sophia de Mello Breyner Andresen que nasceu no Porto em 1919 e  Natália Correia que nasceu em  Fajã de Baixo, São Miguel, Açores em  1923  .
Foram três mulheres excepcionais, que na sociedade, na política e na literatura, nunca deixaram de lutar pelos seus ideais, de defender as suas ideias, ultrapassando com perseverança os mais variados obstáculos. Conseguiram romper com o conceito de normalidade, desprendendo-se das amarras que tentavam silenciar a sua voz e calar a sua liberdade. Estas mulheres nunca se deixaram influenciar pela crítica ou pelo preconceito da época em que viveram.
Orgulharam-se sempre da sua condição de mulher e preocuparam-se com a situação das outras mulheres. Com uma grande coragem e determinação lutaram e impuseram as suas ideias, a sua vontade, a sua obra. Em  Mulheres Rebeldes de 2004 no capítulo Escritoras , segundo sexo da literatura,  refere-se que em França, até meados do século XIX, a mulher de letras encarnava uma figura social repelente. Denominadas “ bas bleus” ( meias azuis) as autoras eram tidas como escandalosas, debochadas, não fecundas, fermentos de anarquia. Eram marginalizadas no mundo das letras e criticadas pela sociedade. Quando alguma mulher era aceite no meio literário, tornava-se logo “um homem das letras” como aconteceu com George Sand.
Não tem sido fácil à mulher impor-se no meio literário. Mais frequentemente sujeitas à invisibilidade, as escritoras continuam a lutar pela neutralidade do género sexual , para não serem assimiladas à categoria redutora “ literatura feminina”. Natália Correia não queria ser chamada depoetisa, ela queria apenas ser poeta, que é uma denominação que dá para os dois géneros.

Quero lembrar , o esforço que ainda, nos dias de hoje, a mulher do século XXI, precisa de fazer entre a casa, os filhos, os empregos, a sua vida na sociedade, os seus interesses políticos, para se manter activa e poder continuar a lutar pelos seus ideais, para ultrapassar barreiras e  quebrar falsos preconceitos.
Mulheres que lutaram pelos seus ideais, pelo progresso, pela mudança, pela ruptura construtiva, enriquecedora da nossa vida colectiva. Estas mulheres partiram alguns telhados de vidro, mas, nunca conseguiram quebrá-los verdadeiramente e alargá-los  à maioria das mulheres.
Queria falar-vos do livro “Um quarto que seja seu” de Virginia Woolf .
Virginia Woolf (nasceu em 1882- e suicidou-se em 1941) nasceu no seio duma família inglesa da pequena aristocracia vitoriana. Ainda criança, Virginia Woolf manifestou a vontade de ser escritora. Apesar dos condicionalismos da época relativamente à educação e à vida intelectual das mulheres, ela tinha acesso à biblioteca do seu pai sem quaisquer restrições. De inteligência brilhante, sabia-se uma privilegiada. Tinha consciência de que à maioria das mulheres do seu tempo estava impedido o desenvolvimento intelectual e o acesso à cultura. As veementes intervenções que teve contra esse estado de coisas granjearam-lhe reacções adversas.
 No livro Um quarto que seja seu, constituído por duas preleções feitas nas universidades femininas de Cambridge, Virgínia aborda o problema da restrições à educação e à intelectualidade das mulheres da sua época e da falta de condições quer financeiras quer de autonomia para poderem expressar essa capacidade. “ ... para uma mulher ser escritora  tem de dispor de dinheiro e de um cantinho seu, para poder escrever ficção...” refere V. Woolf na pag. 16. Desenvolveu a sua argumentação com fineza de raciocínio e de espírito. O conhecimento da vida, da literatura e da História estão bem patentes nas páginas deste livro.

Estas três mulheres de quem vou falar nasceram em famílias da classe média e classe média alta que lhes proporcionaram uma educação e uma instrução que naquela altura não era frequente na maioria das mulheres.
As origens burguesas e uma certa folga económica permitiam a disponibilidade para os trabalhos intelectuais e para as tertúlias literárias, preferencialmente femininas. No início do século XX vemos poetisas, jornalistas, advogadas empenhadas, não tanto na plena igualdade de direitos entre os sexos, mas no atenuar das diferenças e das injustiças flagrantes. De algum modo, a partir de 1910, com a instauração do regime republicano, são promulgadas leis em Portugal que beneficiam a mulher inserida na família.
Não é meu objectivo analisar detalhadamente a obra de cada uma destas escritoras. Quero dar-vos os principais traços da vida e da obra de cada uma delas, como pessoa e consequentemente como poetisa.

Florbela Espanca  é filha de Antónia da Conceição Lobo (trabalhadora rural)  e do republicano João Maria Espanca. O seu pai aprendeu a profissão de sapateiro, mas passou a trabalhar como antiquário, negociante de cabedais, desenhista, pintor, fotógrafo e cinematografista. Foi um dos introdutores do "Vitascópio de Edison" em Portugal.
João Maria Espanca era casado com Mariana do Carmo Toscano. Embora a sua esposa fosse estéril, João Maria teve filhos de um caso extraconjugal; e assim nasceram Florbela e, três anos depois, Apeles, ambos filhos de Antónia da Conceição Lobo, e registados como filhos ilegítimos de pai incógnito. João Maria Espanca criou-os na sua casa, e, apesar de Mariana ter passado a ser madrinha de baptismo dos dois, João Maria só reconheceu oficialmente Florbela como sua filha dezoito anos após a morte desta.
Florbela frequentou a escola Primária em Vila Viçosa. As suas primeiras composições poéticas são dessa época.
Florbela ingressou então no Liceu Masculino André de Gouveia em Évora, onde permaneceu até 1912, (18 anos). Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso secundário. Durante os seus estudos no Liceu, Florbela requisitou diversos livros na Biblioteca Pública de Évora, aproveitando então para ler obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Garrett. A poetisa regressou de novo  ao liceu de Évora, em 1917, onde completou o 11º ano do Curso Complementar de Letras e com 23 anos matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi uma das catorze mulheres entre trezentos e quarenta e sete alunos inscritos. Em meados do 1920 interrompeu os estudos na Faculdade de Direito
Florbela casou 3 vezes. Em 1913 casou-se em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega no Liceu de Évora. O casal morou primeiro no Redondo. Em 1915 instalou-se na casa dos Espanca em Évora, por causa das dificuldades financeiras.
Com 24 anos, a escritora sofreu as consequências de um aborto involuntário, que lhe teria infetado os ovários e os pulmões. Repousou em Quelfes (Olhão), onde apresentou os primeiros sinais sérios de neurose.
Em 1920, sendo ainda casada, a escritora passou a viver com António José Marques Guimarães, alferes de Artilharia da Guarda Republicana.
Em 1925, divorciou-se pela segunda vez. Esta situação abalou-a muito. Ainda em 1925, a poetisa casou com o médico Mário Pereira Lage, que conhecia desde 1921 e com quem vivia desde 1924. O casamento decorreu em Matosinhos, no Distrito do Porto, onde o casal passou a morar a partir de 1926.
Em 1919 saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem (duzentos exemplares3 ) esgotou-se rapidamente.
 Em Janeiro de 1923 veio a lume a sua segunda coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade, edição paga pelo pai da poetisa. Para sobreviver, Florbela começou a dar aulas particulares de português.
Em 1927,  Apeles Espanca, o irmão da escritora, faleceu num trágico acidente de avião. A sua morte foi devastadora para Florbela. Em homenagem ao irmão, Florbela escreveu o conjunto de contos de As Máscaras do Destino, volume publicado postumamente em 1931. Entretanto, a sua doença mental agravou-se bastante. Em 1928 ela teria tentado o suicídio pela primeira vez.
Florbela tentou o suicídio por duas vezes mais em Outubro e Novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa do suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro de 1930. A causa da morte foi uma sobredose de barbitúricos.
A sua vida, de apenas trinta e seis anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização e feminilidade 
Na opinião de António José Saraiva e Oscar Lopes, na História da Literatura Portuguesa, Florbela Espanca é uma das mais notáveis personalidades literárias. “Referem: em primeiro lugar, porque a poética e a prosa de Florbela dificilmente se enquadram numa única corrente literária, seja uma corrente dominante no seu tempo ou anterior. »
De facto, a poetisa soube construir uma linguagem muito própria, quase uma mitologia lírica ao revelar, no espaço da poesia, sentimentos e desejos próprios, anseios e aspirações muito suas, conquistando na literatura um espaço de libertação de instintos sensuais, sem precedentes até então; sobretudo, revelou, através da linguagem poética o seu ser e a sua intimidade.
Em Florbela são evidentes os traços e as influências de diversas correntes literárias que atravessaram o século XIX, apesar de acusar igualmente proximidades a estéticas do século XX. Diga-se, a propósito, que grande parte da singularidade da obra de Florbela reside no facto de a sua estética literária se enraizar no cruzamento de várias tendências do lirismo do século passado: Florbela admirava Antero de Quental, Júlio Dantas, Guerra Junqueiro, Antero de Figueiredo, José Duro e, sobretudo, António Nobre. Foi nesse universo artístico, onde tentou conciliar a renovação com a tradição poética, que Florbela encontrou elementos para definir a sua linguagem.
A poesia de Florbela evidencia semelhanças estilísticas, estruturais e ideológicas em relação à linguagem de Antero de Quental. Uma delas é a referência frequente ao tema da dor, uma dor existencial, que leva à constante ânsia pela morte e pelo não-ser; trata-se de uma dor existencial próxima daquela que Antero e Camilo Pessanha repetidamente abordaram na sua obra. Por outro lado, o uso da forma clássica do soneto é outro factor de aproximação entre Florbela e Antero, se bem que a aproxime igualmente de outros sonetistas, nomeadamente Camões e Bocage. Herdada de Antero é, também, a expressão de uma visão eminentemente pessimista do mundo, bem como de uma relação difícil com a vida.
São muitos os pontos de contacto entre António Nobre, o autor de «Só» (apresentado, ainda hoje, como o livro mais triste que há em Portugal) e Florbela Espanca, que confessa ter pelo escritor intensa admiração, referindo-se, implicitamente, a «Só» na abertura do «Livro de Mágoas» e, depois, explicitamente, na languidez do soneto «Tardes da Minha Terra». Aliás, Nobre era para a jovem escritora o único poeta. Por outro lado, também o pessimismo e a espera da morte, bem como a ideia da predestinação, recorrente em Florbela, aproximam as suas obras, em paralelo com a temática da saudade.
O Ultra-romantismo é uma corrente literária da segunda metade do séc. XIX, e que se caracterizou por levar ao exagero, e por vezes até ao ridículo, as normas e ideais preconizadas pelo Romantismo, nomeadamente, a exaltação da subjectividade, do individualismo, do idealismo amoroso, da Natureza e do mundo medieval. Temos uma literatura ultra-romântica de qualidade inquestionável em autores como João de Deus, Camilo Castelo Branco, Soares de Passos e Castilho.

O parnasianismo é um movimento literário desenvolvido na poesia portuguesa do século XVIII, que se aproxima das tendências realista e naturalista registadas na narrativa. Entre as principais características deste tipo de poesia, temos a perfeição dos versos, assim como o tom descritivo, a referência a obras de arte e paisagens. Em Florbela, o parnasianismo evidencia-se, sobretudo, em sonetos como «Toledo» e «Charneca em Flor».
Encontramos frequentemente nos versos de Florbela, influências simbolistas e decadentistas,que manifestam  uma necessidade, quase desesperada, de viver o instante, o momento, o tempo efémero que passa, sobretudo quando se trata de um tempo feliz, como no soneto «Hora que Passa», de onde se depreende a referência à fugacidade do tempo e da vida. Esta temática, abordada quase obsessivamente por Florbela, aproxima-a da corrente simbolista e, sobretudo, da poesia de Camilo Pessanha. Em segundo lugar, também a referência constante a estados de espírito marcados pela dor e pelo tédio apontam para uma forte influência decadentista/simbolista na poética de Florbela, bem como a imagem das torres de marfim, onde se quis refugiar da mediocridade e vulgaridade da vida quotidiana. Por último, destaque para os traços da assimilação da linguagem simbolista - decadentista, bem patentes nas imagens e no mistério implícito do soneto «Outonal», e também, mas menos acentuado, em «Charneca em Flor».
Apesar de não se ter deixado influenciar pela estética modernista proposta por Fernando Pessoa e pelo grupo do «Orpheu», o ideário e a temática da obra de Florbela Espanca contém uma curiosa proximidade com a escrita de Mário de Sá-Carneiro, membro do grupo «Orpheu». Em primeiro lugar, há uma proximidade ao nível dos dramas pessoais (que Sá-Carneiro revela em «Esfinge» e «Esfinge Gorda»), onde se evidencia a moderna problemática da dispersão, do desdobramento da personalidade, que Florbela partilha nalguns poemas. Além disso, Florbela insere na sua obra a complexa temática da alteridade, bem como a da relação entre o eu poético e os outros, aproximando-se muito do universo temático de Sá-Carneiro, o que se acentua com as referências à crise de identidade do sujeito e à estratégia de fingimento do poeta (enunciada por Fernando Pessoa). Tanto um como o outro, procuravam uma identidade profunda.
Os dois autores têm em comum uma poética de excessos, de estados de espírito extremos, que oscila constantemente entre o desejo de amor e de morte (que encaram de modo semelhante), momentos de loucura e lucidez, luxo e sombras, plenitude e incompletude. Nos seus versos, ambos vagueiam por claustros, sombras e cenários decadentistas, oscilando entre a realidade e um mundo indefinido.

Como Sá-Carneiro, também Florbela quis aliar a vida e a arte, a realidade e o sonho. Há que sublinhar o resultado desastroso das suas vidas,  pois ambos morreram jovens e pelo mesmo motivo: suicídio.
 
SOPHIA DE MELLO BREYNER
 Sophia de Mello Breyner Andresen
 é filha de Maria Amélia de Mello Breyner e de João Henrique Andresen. Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno. O seu bisavô, Jan Heinrich Andresen, desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região, tendo o seu filho João Henrique comprado, em 1895, a Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico do Porto. A mãe, Maria Amélia de Mello Breyner, é filha do conde de Mafra, médico e amigo do rei D.Carlos. Maria Amélia é também neta do conde Henrique de Burnay, um dos homens mais ricos do seu tempo. Sophia foi criada na velha aristocracia portuguesa, educada nos valores tradicionais da moral cristã.
Sophia conta numa entrevista: “ Havia em minha casa uma criada, chamada Laura, de quem eu gostava muito. Era uma mulher jovem, loira, muito bonita. A Laura ensinou-me a «Nau Catrineta» porque havia um primo meu mais velho a quem tinham feito aprender um poema para dizer no Natal e ela não quis que eu ficasse atrás...
JCV Gostaria, era que me falasse mais da sua paixão por Camões e por Antero, de quando os começou a ler...
Ler não, que ainda não sabia. Aprendi versos de cor, sem saber ler.
JCV Então isso não foi só com a «Nau Catrineta»?
Não, entre os três e sete anos o meu avô, que dizia muito bem, ensinou-me Camões e Antero.
JCV E sabia poemas de cor nessa idade? 
Sabia, sabia. O «Sete anos de pastor Jacob servia» do Camões, «Num sonho todo feito de incerteza», do Antero, também algumas coisas do António Nobre, como «Oh Virgens que passais ao sol poente»... E achava lindo! As crianças compreendem e amam muito mais as coisas do que os adultos imaginam.
JCV Isso teve influência na sua poesia? 
Teve influência na minha poesia e teve influência na minha noção da poesia, que deriva muito de eu ter sabido poemas mesmo antes de saber que havia a literatura e história da literatura, de não ter tido (como é que hei-de explicar?) de não ter tido uma relação escolar e sábia com a poesia, mas uma relação vital.

E quando eu era ainda muito pequena, quando estava em Lisboa, logo de manhã ia para o escritório do meu avô – que eram três grandes salas seguidas, cheias de livros, de quadros, de retratos, de mapas e de mil coisas misteriosas – um lugar onde eu entrava em bicos de pés – e o meu avô punha sempre a tocar um disco de Bach – talvez por isso a música de Bach foi sempre a que melhor entendi. E na Granja, à tarde, o José Ribeiro tocava violoncelo, nuns outonos de tardes oblíquas. E quando estava no Porto ia para Matosinhos para casa do Eduardo e do Ernesto Veiga de Oliveira e ouvíamos Das Lied von der Erde do Mahler, que nesse tempo ainda não estava na moda. E em casa do António Calém a música estava sempre no centro de cada encontro.
Comecei a tentar escrever com doze anos. Depois aos catorze escrevi mais e a partir daí fui sempre escrevendo. Aí entre os 16 e os 23 escrevi mais do que em todo o resto da minha vida. Tenho imensa coisa por publicar dessa época.
 Os primeiros versos incluídos na «Poesia» escreveu-os apenas com 14 anos!?
Sim, alguns, só dois ou três. Às vezes eram poemas muito mais compridos e que eu cortava, cortava, até ficarem três ou quatro versos. Mesmo no «Dia do Mar» há um poema que era muito longo e que ficou reduzido a dois versos. Chama-se «Evohé Bakhos».

Como foi recebido o seu primeiro livro? 
Acho que foi bem recebido. Foi editado em Coimbra e quem tratou disso foi o meu amigo chamado Fernando Valle.
JCV O dr. Fernando Valle, fundador e grande figura do PS, amigo do Torga...
Não, não é esse, um meu amigo de Lamego que estudava em Coimbra. Foi uma edição de autor que o meu pai pagou. Mas acabei por receber o dinheiro outra vez, uma das coisas que mais me espantou na vida e ainda espantou mais o meu pai. Foi uma edição de 300 exemplares, eu dei para aí 100 e os outros 200 venderam-se e pagaram as despesas. O Fernando Valle reviu as provas e nisso teve a colaboração de alguns escritores que nessa altura por lá andavam...
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Em 1938 inscreve-se no curso de  Filologia Clássica na Universidade de Lisboa que nunca chegou a concluir, enquanto estudante é dirigente dos movimentos universitários católicos. “ Quando eu era nova e vim para Lisboa senti-me longíssimo da praia porque no Porto vivia mais perto do mar. Não gostava de Lisboa, tinha uma grande nostalgia do Norte. Depois isso foi passando. E hoje gosto de Lisboa (…).”
Casou-se, em 1946, com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e foi mãe de cinco filhos. Os filhos motivaram-na a escrever contos infantis.
Já depois da Revolução de 25 de Abril, foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto, numa lista do Partido Socialista, enquanto o seu marido navegava rumo ao Partido Social Democrata.
Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu, aos 84 anos, no dia 2 de Julho de 2004 no Hospital da Cruz Vermelha. O seu corpo encontra-se no Cemitério de Carnide.
A poesia de Sophia está profundamente marcada pela sua infância e juventude, por valores como a  justiça e, pelo contacto com a Natureza, muito especialmente com o Mar.  Publicou mais de duas dezenas de livros de poesia,  sendo por isso  considerada como uma das maiores e mais eloquentes vozes da poesia portuguesa  contemporânea.
Sophia apresenta-nos uma poesia de grande fidelidade à realidade do mundo. A sua poesia busca a ordem e o equilíbrio do universo. Poesia das origens, busca a ordem do mundo, a modelação do caos para a criação do cosmos, ou seja, da ordem e do equilíbrio do Universo.
A sua poesia estabelece uma relação com as coisas e com o mundo. A palavra assume-se como um agente de transfiguração da realidade que revela o divino e o terreno. Sophia criou uma literatura de empenhamento social e político, de compromisso com o seu tempo e de denúncia das injustiças e da opressão. Sophia na sua poesia conserva e reforça continuamente uma relação privilegiada com o mar, com o vento, com o sol e a luz, com Terra e toda a vegetação. Abre os seus sentidos, na captação das sensações da natureza. A natureza é um espaço primordial, onde o Eu se reencontra com a sua nudez e beleza plena, fugindo da cidade. Segundo Sophia, as cidades são espaços dessacralizados, negativos, de conflitos e desencontros. A poetisa procura, acima de tudo, a transparência, o universo organizado, dai a reconstrução da aliança entre os homens, a natureza e as coisas é uma constante, na sua obra. O acto poético é um acto mágico capaz de projectar, por palavras mágicas a realidade e a relação intima com as coisas , com o Universo.
Sophia busca a perfeição e a harmonia de um ser humano que saiba erguer-se a partir das suas limitações e imperfeições. Não celebra os deuses para que os homens sejam como eles, mas celebra os Deuses para tornar os homens mais divinos, mais capazes de avançar para a margem do Bem e da Verdade. O mundo antigo, a que Sophia recorre, simboliza não só as origens, mas também a perfeição e a unidade ou o tempo absoluto que procura.  Está constantemente presente na sua poesia o jogo dos quatro elementos primordiais (água, terra, ar, fogo) . A natureza (“espantoso esplendor do Mundo”) é uma das suas principais fontes de inspiração, conotada de diversos significados; ora ligada à ideia de beleza estética e poética, pela sua perfeição e variedade de cores e formas, ora associada ao mistério, ora traduzindo o reencontro individual com a solidão ou ainda o lugar de união com aquilo que há de mais verdadeiro e puro.
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NATÁLIA CORREIA
Natália Correia tinha apenas onze anos ( 1934 ) quando o pai  emigrou  para o Brasil.
Natália Correia com a mãe e a irmã vieram viver para Lisboa, cidade onde fez os estudos liceais, no Liceu D. Filipa de Lencastre.
Iniciou-se na literatura com a publicação de uma obra destinada ao público infanto-juvenil mas rapidamente se afirmou como poetisa.
Natália Correia casou quatro vezes. Após dois primeiros curtos casamentos, casou em Lisboa em 1953 com Alfredo Luís Machado (1904-1989), a sua grande paixão, era 33 anos mais velho quando casou com Nátalia Correia ( com 20 anos) já era viúvo. Este  casamento durou até à morte deste em  1989. São notáveis as cartas de amor da jovem Natália para Alfredo Luís Machado.
 Em 1990, tinha Natália 67 anos de idade, celebrou um casamento de conveniência com o seu colaborador e amigo Dórdio Guimarães.

Natália Correia – ficou notabilizada através de diversas vertentes da escrita, já que foi poetisa, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora ; tornou-se conhecida na imprensa escrita e, sobretudo, na televisão, com o programa Mátria, onde advogou uma forma especial de feminismo  - matricismo, identificador da mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional e fonte matricial da humanidade;
Contudo, foi na poesia que encontrou a expressão mais depurada do seu temperamento a um só tempo lírico e irónico, características acentuadas a partir de  livro Dimensão Encontrada (1957) e nas suas obras dramáticas. Dentro dessa linha, que a tendência surrealista da poesia portuguesa pós-1950 vem sublinhar, compôs grande parte da sua obra poética, revelando um discurso lírico insólito e singular a oscilar entre a linguagem alegórica e a voz interventora. Estão neste caso, por exemplo, Passaporte (1958), o longo poema Cântico do País Emerso (1961) e mais tarde Mátria e Maçãs de Orestes (1970).  No seu livro Poemas a Rebate, publicado em 1975, chama, na introdução, ao conjunto “poemas indóceis” de “pentagrama de indignação”. Indignação constante é o que não falta à obra de Natália Correia seja motivada pela censura que a amordaçou por longo tempo, seja por uma insurreição natural a todos os engodos ideológicos da organização social. A capacidade de abranger, contudo, várias expressões líricas, bem como sentimentos e visões aparentemente opostos, entre a subjectividade romântica e a objectividade realista, levaram-na à composição, nos dois últimos anos, de Sonetos Românticos (1991, Grande prémio da Poesia APE/CTT). Aqui a poesia  parece voltar à primeira fase da sua expressão em virtude da abstracção do objecto lírico, não obstante, agora, mais intelectualizada, num certo misticismo da criação poética, da escrita, da expressão verbal.
Dotada de invulgar talento oratório e grande coragem combativa, tomou parte activa nos movimentos de oposição ao Estado Novo, tendo participado no MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do general Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969). Foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica,considerada ofensiva dos costumes, (1966) e processada pela responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel BarrenoMaria Velho da CostaMaria Teresa Horta. Foi responsável pela coordenação da Editora Arcádia, uma das grandes editoras portuguesas do tempo.
A sua intervenção política pública levou-a ao parlamento, para onde foi eleita em 1980, nas listas do PPD (Partido Popular Democrático), passando a deputada independente, na assembleia da República. Foi autora de polémicas intervenções parlamentares.
Fundou em 1971, com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, o bar Botequim, onde durante as décadas de 1970 e 1980 se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa. Foi amiga de António Sérgio, de David Mourão-Ferreira ("a irmã que nunca tive"), de José-Augusto França  que a considerou "a mais linda mulher de Lisboa") , de Luiz Pacheco, de  Mário Cesariny  que dizia que ela "era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo"), de Ary dos Santos ("beleza sem costura") , deAmália Rodrigues, de Fernando Dacosta, entre muitos outros. Foi uma entusiasmada e grande impulsionadora pelo aparecimento do espectáculo do café-concerto em Portugal, na figura do polémico travesti Guida Scarllaty, o actor Carlos Ferreira, na época um jovem arquitecto de quem era grande amiga. Na sua casa, foi anfitriã de escritores famosos como Henry MillerGraham Greene ou Ionesco.
Ainda hoje, em 2014, todos sabemos que as mulheres nascidas em meio familiar mais favorecido são as que conseguem  ter sucesso na escrita, ver a sua obra editada e reconhecida do grande público.
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 Foi um serão muito agradável, com pessoas muito atentas e com intervenções muito pertinentes. No final da minha apresentação leram-se os poemas de cada uma das poetisas, que se seguem: 

 Fiz um conto para me embalar

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

                   Natália Correia

 Auto-retrato
 
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
 
                      Natália Correia
 
 
Nuvens correndo num rio
 
Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!
 
Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.
 
Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?
 
Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?
 
Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.
 
                      Natália Correia
 

  
Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

                   Sophia de Mello Breyner Andresen
 
 
Um dia
 
Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
 
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.
 
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
 
                           Sophia de Mello Breyner

 
 
AUSÊNCIA
 
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
 
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
 
                          Sophia de Mello Breyner Andresen

  

Árvores do Alentejo
 
Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!
 
E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
 
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
 
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
--- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca
Fumo
Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
 
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!
 
Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...
 
Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

Florbela Espanca
 
 
 
Saudades
 
Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
 
Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!
 
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
 
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca

PROVÉRBIOS E DITOS DA MINHA MÃE

Tão rico é aquele que lhe chega, como aquele que lhe sobra
Um cedo faz uns poucos
A preguiça não governa ninguém
O medo é do tamanho que se faz
Ao rico não devas e ao pobre não prometas
Não sirvas a quem serviu, nem peças a quem pediu
Quem não poupa o que tem, a pedir vem
Saber poupar é uma virtude
Que se veja, quem só se deseja
Baixa a terra, baixa a mazela
Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita
Quem feio ama, bonito lhe parece
Se queres ser bom, morre ou ausenta-te
O mal e o bem à face vêm
O amor é como o dinheiro, não pode estar escondido.
Guarda de comer, não guardes de fazer
Não esperes que te dêem, sem tu dares, nem que seja um sorriso.
Trata bem o teu inimigo, que o amigo tens tu certo.
Santos da casa não fazem milagres
É bom irmos à missa e achá-la dita
Dá de comer a quem tem fome e água a quem tem sede
Deus assim como dá a chaga, dá a mezinha
Não te rias sem veres de quê
Mulher de satisfação, mulher de cagalhão
Asseadonas, asseadonas!? todas vão com a mão ao cu!!
Fevereiro quente, traz o diabo no ventre
Dor parida, dor esquecida
De pequenino é que se torce o pepino
As pragas são como as procissões, voltam sempre para onde saem.
Trata bem os teus vizinhos, que eles são como tua família
Faz bem, não olhes a quem
Dá com a direita, com que a esquerda não veja
Quem dá o que tem, a mais não é obrigado
Quem arrecada, acha.
Não esperes que te dêem, sem tu dares o suficiente.
Quem muito corre, muito cansa
Quem não poupa a lenha, não poupa o mais que tenha
Há males que vêm por bem
O bons e que Deus lá quer
Não te tenhas como mais esperto que os outros
O adivinhar está proibido
Quem diz o que quer, ouve o que não gosta
O amor não tem olhos
Não há amor como o primeiro
Mais vale tarde do que nunca
Não atires pedras ao teu vizinho, que o teu mal vem pelo caminho
Todos temos telhados de vidro
Nunca digas desta água não beberei
Quem não se sente, não é filho de boa gente
Tudo se cria neste mundo, coitado de quem vai
Quem escapa de novo, de velho não passa
A rico não chego, de pobre não passo
Depressa e bem não faz ninguém 
A língua do cão é benta e a do gato é peçonhenta
Quem semeia ventos, colhe tempestades
Quem o berço dá, a tumba o tira
Semeia e cria, terás alegria
Quem quer vai, quem não quer manda
Encomendas sem dinheiro ficam atrás do outeiro
Atrás de mim virá, quem bom me fará
Bem criadas, mal fadadas

Provérbios e ditos escritos pela minha mãe, de 87 anos,  durante este fim de semana
15/11/2014







quinta-feira, 13 de novembro de 2014

PARTILHANDO O AMOR PELOS LIVROS







No dia 5 de Novembro fui convidada pela Profª Cláudia Marçal, bibliotecária da Escola Secundária Rainha Santa Isabel de Estremoz, para ir falar da minha experiência como leitora, na Biblioteca Municipal de Estremoz. 
A turma do 8º ano veio acompanhada pela professora de português Francisca Matos, e mostraram-se bastante interessados na minha conversa.
Pessoalmente, senti-me muito bem e satisfeita por poder partilhar com estes adolescentes os meus hábitos de leitura e como comecei a gostar de ler. 
A Profª Cláudia Marçal apresentou-me à turma e aos presentes da seguinte forma:
Zuzu Baleiro  (65 anos/ professora de Português/Francês aposentada/voluntária de leitura)
Uma força da natureza

“Cada um de nós é um ser diferente, que viveu diversas realidades. Eu, por exemplo, adoro os meus livros, adoro ir à livraria e comprar dois ou três livros, chegar a casa, sentar-me tranquila e serenamente e começar a ler. A leitura transporta-me para lugares imaginários, alimenta-me a imaginação, leva-me até às nuvens. Desde sempre, as pessoas que convivem comigo, sabem que quando estou a ler, embrenhada na leitura  não ouço, não escuto nada ao meu redor. Podem falar comigo que eu não estou ali. As minhas filhas quando chegavam a casa e me viam a ler, diziam-me: “ Mãe, deixa lá de ler, e ouve o que eu te vou dizer!!!”, sabiam que se falassem comigo a ler, eu não ia escutar!!!”

Nasceu e cresceu no Alentejo, região que adora.
Ensinar Português e Francês foi e é a sua grande paixão. Atualmente reformada, continua a ensinar e a partilhar sentires e saberes com os alunos da Academia Sénior, na disciplina Poesia e Contos.
Divulgar contos tradicionais portugueses é outro dos seus prazeres, por isso, visita regularmente o Lar da Terceira Idade para ler contos aos utentes. Faz voluntariado de leitura nas escolas e participa em vários eventos e projetos ligados ao livro sempre que é convidada e por iniciativa própria.
Ler, pintar, ouvir música, passear, viajar, conviver, brincar com a Pantufa (animal de estimação), falar com a filha Rita …são algumas das alegrias que dão cor à sua vida.
Os seus motivos de orgulho são resistir a todas as contrariedades da vida, tentar sempre superar os obstáculos que se lhe apresentam e olhar com optimismo para a vida!

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No final da conversa, entreguei a cada aluno um "postal" e pedi-lhes que escrevessem no verso as suas impressões sobre o que tinham acabado de ouvir:

-a  sessão foi muito interessante;
- ficámos a saber como eram os tempos de antigamente;
- ficámos a saber os "melhores" livros e mais interessantes;
- ficámos a saber como era ler antigamente e como a leitura se desenvolveu;
- gostámos de ouvir as histórias da Zuzu, pessoais e interessantes;
- foi "inspirante" porque a Zuzu falou do que já passou na vida, da adolescência, os maus e bons momentos e aconselha-nos a ler os livros bons que já leu;
- mudou a minha perspetiva da leitura;
- biografia muito interessante;
- descobri que tínhamos conhecimentos e família em comum.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

POESIA E CONTO: A CASA

POESIA E CONTO: A CASA: A casa foi construída em 1900 . Está situada numa rua larga e sem curvas, no meio de outras casas. Situa-se na zona dos Forais Novos, q...

terça-feira, 11 de novembro de 2014

POESIA E CONTO: A CASA

POESIA E CONTO: A CASA: A casa foi construída em 1900 . Está situada numa rua larga e sem curvas, no meio de outras casas. Situa-se na zona dos Forais Novos, q...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A RÃ

Estava Luísa sentada no banco do jardim quando ouviu um PLOFF  dentro do lago do jardim.
Levantou-se e  apressadamente foi direita ao lago.
Era a rã, que ali habitava há mais de doze anos. Ficou tranquila.
 Mas olhou melhor. A rã não se mexia.
Olhou e viu que a rã estava imobilizada.
Que horror!!!   A rã, que durante tantos anos lhe fizera companhia, com o seu coaxar ritmado estava morta!!!
Arranjou coragem. Foi buscar o camaroeiro, e apanhou aquele corpo inerte e sem vida.
Tinha que procurar um papel de jornal para a embrulhar. Sentia-se mesmo enojada... mais enojada do que triste.

Amanhã pensaria na partida definitiva da sua rã, que nunca teve nome... foi sempre a rã.

sábado, 8 de novembro de 2014

O JANTAR - ONTEM VIVI HISTÓRIA -


A mesa do jantar

Amor, ternura e  cumplicidade 

A nossa oferta: Um almofariz de mármore
Depois do encontro na Biblioteca Municipal de Estremoz sobre a campanha Stop Tortura, Domingos Abrantes e Conceição Matos foram nossos convidados para jantar no restaurante do Hotel Alentejano. Os membros da amnistia não eram em grande número, contudo fomos um grupo muito bem disposto e bem humorado que animámos a conversa durante o jantar.
Domingos Abrantes e Conceição Matos em privado são excelentes conversadores e contadores de episódios, uns rocambolescos (como a fuga de Caxias no Carro blindado de Salazar, que ali estava guardado há anos) outros mais sérios  e tristes como a sua clandestinidade, e as suas prisões  em Caxias.. 
O jantar compôs-se de lombinhos de porco grelhados com batatas fritas e arroz, e "burras" queixadas de porco assadas no forno. Bebeu-se um bom vinho do Monte das Servas.
O jantar prolongou-se até às 11 horas da noite, ninguém tinha pressa de sair dali, pois a conversa estava fantástica. Quantos episódios da vida destas duas extraordinárias pessoas foram ali contados. 
Domingos Abrantes e Conceição Matos estavam em França quando se deu o 25 de Abril de 1974. Então quando Álvaro Cunhal pôde regressar a Portugal eles vieram com ele no avião. Havia uma multidão imensa à espera deles no aeroporto, e a segurança queria que todos saíssem do avião e que Álvaro Cunhal saísse acompanhado pela segurança, mas ele recusou isso. Então saíram do avião os três, Conceição Matos, Álvaro Cunhal no meio e Domingos Abrantes. Foi um delírio, a sala dos VIPs estava apinhada de gente que queria cumprimentá-los e abraçá-los. Houve jornalistas que viram chegar Álvaro Cunhal acompanhado daquela linda jovem mulher de 38 anos, e que diziam que ele vinha acompanhado pela sua esposa! ( Conceição a contar este episódio risse, de olhos alegres e felizes ) 
A da Fuga da Prisão de Caxias contada por Domingos Abrantes e com apartes  e achegas de Conceição Matos, na sua forma meiga e cúmplice de apoiar o marido , e ilustrada na toalha da mesa. 
Não sabia que tinha havido esta rocambolesca fuga da prisão de Caxias, conhecia a fuga de Álvaro Cunhal das prisão de Peniche, mas desta fuga de Caxias nunca tinha ouvido falar. 
Então o casal contou-nos em pormenor a fuga, eu estava de olhos e boca abertos!!! eu estava a ouvir um acontecimento e um facto histórico!!! estava deliciada, assim como todas as minhas companheiras.
Desenho de Domingos Abrantes - A fuga de Caxias e os dias seguintes à fuga
Após a fuga rocambolesca Domingos Abrantes foi refugiar-se numa casa de um grande cineasta, uma casa de gente rica . Deram-lhe roupa para ele se vestir;  ao jantar, comeu com todas as pessoas que viviam na casa, e foi apresentado como um professor universitário que vivia no estrangeiro. As regras de etiqueta eram seguidas a rigor. Havias copos e talheres para tudo! Uma criada fardada e muito aprumada servia à mesa. Quando chegou a vez dele, ele agarrou a travessa para se servir, e a empregada deu um salto para trás pois não esperava aquela reacção. Então ele percebeu que teria que ser a criada a servi-lo. ( desenho redondo com as pessoas sentadas à mesa).
Ficou ali apenas uma noite. No dia seguinte levaram-no para uma casa , de gente trabalhadora e de classe média nos arredores de Queluz. Vivia nessa casa o casal com um filho de cerca de 6 a 7 anos. O chefe de família saíu de manhã para ir trabalhar e ele ficou escondido num quarto. O miúdo apercebeu-se que estava uma pessoa estranha lá em casa, e a mãe disse-lhe que era um tio que tinha vindo a Lisboa. Passado algum tempo, a irmã do marido veio a casa da cunhada e o miúdo disse-lhe que estava um homem escondido no quarto,  ela julgou que ele estivesse a inventar. Quando já se ia embora, o miúdo foi abriu a porta do quarto de rompante e mostrou o homem à tia, que ficou sem palavras! A dona da casa disse que era um  amigo do marido, mas a cena era tão caricata que a cunhada não acreditou e saiu porta fora. Quando o homem veio para casa, a mulher estava muito nervosa e pediu-lhe que levasse dali Domingos Abrantes, que teve que ir dormir para outra casa de outro camarada.
Passados poucos dias, foi levado para França.
O jantar já se estava a prolongar bastante. Éramos os únicos na sala. Volta e meia o empregado entrava e saía, dando a perceber que já eram horas de acabarmos a refeição. Ninguém se atrevia a ir embora. Todos estávamos tão entusiasmados e curiosos com as situações que Domingos Abrantes nos contava que queríamos era ouvir mais e mais... mas o serão teve que terminar...


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A MAÇÃ

Deitado debaixo da macieira, naquele fim de tarde, calmo e quente, Raul olhava calmamente as poucas maçãs que ainda estavam na árvore. Não tinha sido fácil deitar-se . Corpulento, nos seus 145 kg, cada vez sentia mais dificuldade em deitar-se. Mas ele gostava tanto de se deitar na erva fresca por baixo da macieira!
Sempre fora gordinho. Quando foi para o jardim de infância, a mãe foi à loja comprar o bibe de quadradinhos azuis e brancos, e constatou que não havia para o tamanho do Raul. O que fazer? o empregado da loja da Rua dos Fanqueiros, sugeriu-lhe que comprasse dois metros de tecido igual ao exigido pelo colégio e fosse a uma costureira fazê-lo por medida.
Quando a mãe chegou a casa e lhe disse que tinha que ir à modista mandar fazer o bibe, não achou nada de estranho. Ele até gostava de ir à D. Conceição que lhe fazia os calções! 
Quando chegava a casa da D. Conceição, esta elogiava-o sempre, ele gostava disso. "- Oh Raul, estás tão bonito, a tua pele é tão rosadinha, as tuas bochechas tão coradinhas, o teu narizinho tão pequenino no meio dessas bochechas rechonchudas, os teus olhinhos brilham enterrados nestas bochechas, o teu cabelo louro cheio de caracóis dão-te um ar tão meiguinho, tão celestial, de menino tão bem comportado!!! a mãe  ficava toda babada ao ouvir estes elogios da D. Conceição e ele também gostava de ouvi-los!!!.
Ela pegava na fita métrica e começava a tirar-lhe as medidas: primeiro a cintura, depois a anca, depois a coxa e finalmente junto ao joelho onde iriam terminar as pernas dos calções.  A cada medida ela ia dizendo: " Cresceste mais um pouquinho!! a cintura tem mais 5 centímetros!!" e sorria, com um sorriso feliz estampado no rosto magro e cansado.
Raúl, no recreio da escola primária procurava correr com os colegas, mas o rabo era-lhe tão pesado!!! ao fim de uma voltinha no pátio do recreio já ele estava sentado no muro baixo que ladeava o canteiro da grande acácia, de flores amarelas. Sentado à sombra da velha árvore é que ele se sentia bem... se os outros se queriam cansar e irem todos transpirados para a aula era lá com eles... ele preferia assistir calmamente às correrias e às maluqueiras dos colegas... e assim continuou a engordar, a engordar...
Nunca sonhou com desportos radicais, nada que o fizesse cansar e ficar exausto!!! gostava de coisas calminhas... jogos de computador, ler banda desenhada, deitar-se no sofá e ver televisão.... ir à cozinha buscar uma lata de coca-cola mais um pacote de bolachas Oreo e estrafado no sofá ver um filme de aventuras, de acção , de guerras, de perseguições, de polícias e ladrões a correr atrás uns dos outros... só de ver tanta acção ficava cansado!!!!
Cresceu, cresceu em idade, em tamanho e em peso!!! era um homem de 47 anos, bonacheirão, simpático, introvertido, de sorriso fácil, que estava sempre pronto a ajudar os colegas na repartição do Ministério. Estava solteiro e não pensava em casar! Aturar uma mulher era uma chatice... gostava de viver sozinho, na casa onde sempre vivera, no Alto da Ajuda. 
No dia em que lhe saiu o euromilhões, Raúl nem queria acreditar! Não sabia se devia rir, se chorar, se pular...  sentou-se e respirou fundo!!! Não era uma quantia exorbitante, mas sempre  era alguma coisa que se visse!!Ia dar para comprar uma quintinha para os lados da Lourinhã... sempre gostou tanto daqueles sítios...

Acordou estremunhado!!! sentiu uma coisa a esborrachar-se na cabeça calva... era uma maçã meio madura meio podre vinda das últimas pernadas ...

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

ONTEM VIVI HISTÓRIA

Sessão STOP Tortura na Biblioteca Municipal de Estremoz

Conceição Matos e Domingos Abrantes

Zuzu lendo a dedicatória de Domingos Abrantes

O Núcleo de Estremoz da Amnistia Internacional , a que eu pertenço, organizou um debate sobre a tortura, integrado na Campanha Stop Tortura,  na Biblioteca Municipal de Estremoz. 
Foram convidados Domingos Abrantes e sua mulher Conceição Matos, ambos de 78 anos de idade, que nos falaram das suas prisões na PIDE e de como sobreviveram a tanta brutalidade física e psicológica.
Não os conhecia. Foram-me apresentados já na Biblioteca, minutos antes de começar a sessão.
Amáveis, de sorriso aberto, serenos. Fiquei logo encantada com eles.Domingos Abrantes foi torturado na António Maria Cardoso, a sede da PIDE e depois levado para a prisão de Caxias. 
O primeiro a falar foi Domingos Abrantes  que começou por nos contar  que pior de todos os castigos é o isolamento  -uma pessoa colocada numa cela minúscula com 1 metro de largura, durante meses e meses sem nada para fazer, ler, escrever. Proibir as pessoas de lerem era uma das primeiras coisas que os guardas faziam., e os presos sentiam-se terrivelmente mal, pois ocupar o tempo com a leitura é uma das melhores ocupações. 
Foi sujeito à tortura do sono durante dias consecutivos. Durante 5 dias consecutivos, durante 10 dias, e assim por diante. O preso tem tanta necessidade de dormir que uma simples moeda a rolar no tampo da mesa parece um trovão.  Passa por fracções de segundos pelo sono. Nunca se perde a noção do que se está a sofrer, logo que se ouve a voz do polícia volta-se a ter consciência do que se está a sofrer. Mostram-lhe uma carta em que um hipotético companheiro de partido preso como ele,confessou tudo. Mas o preso está tão cansado que nem se apercebe das palavras que ali estão escritas. 
A certa altura, como ele não confessava nada, e algumas das vezes até se rebelava contra os guardas que o estavam a interrogar, começam a dizer-lhe que compraram  uma máquina americana que descobre e lê o pensamento das pessoas - então montaram todo o cenário, puseram-lhe um capacete com vários fios  ligados à "dita" máquina, mas não aconteceu rigorosamente nada. Estiveram naquilo algum tempo, até que ele lhes disse: "Vocês não têm nenhuma máquina, vocês têm é uma merda!" . 
Estava exausto. Saiu dali sempre a ser muito mal tratado pelos guardas, já não conseguia andar pelo seu próprio pé, e um guarda segurava-lhe por baixo do braço esquerdo e outro por baixo do braço direito e foi assim que o transportaram para uma cela, onde havia um colchão. Deixaram-no em pé, a meio metro do colchão, ele atirou-se para cima dele e dormiu não sabe quanto tempo. Mas quando acordou tinha recuperado algumas forças e a consciência mais clara do que se estava a passar.
Foi para Caxias  e esteve 10 dias no isolamento, às escuras, sem ver uma nesga de luz, a sanita era das romanas, no chão, e ele tinha que ir às apalpadelas para chegar lá. 
27 dias depois de estar preso é que tomou banho, mas ainda hoje não se consegue lembrar que roupa lhe vestiram depois do banho. 
Esteve mais 30 dias no isolamento, mas aí a cela era maior e já podia fazer ginástica. 
Diz Domingos Abrantes: -"Um preso sem livros ficava ainda mais perdido, por isso logo que chegava à prisão tiravam-lhe logo os livros. "
Um dos polícias que o estavam a guardar queria que ele respondesse ao seu cumprimento (Bom Dia!) , mas ele nunca lhe respondia. O guarda estava a ler o jornal  O Século onde vinha na primeira página, a notícia que os Russos mandaram para o espaço um foguetão, então o guarda muito irritado com a notícia  disse-lhe: É tudo mentira, é tudo propaganda desses Russos . Entrou um inspector e pôs-se também a olhar para a notícia. Se calhar não foram os Russos foram os Americanos! disse o guarda. Então o inspector rematou assim: " Nem foram os Russos nem os Americanos, foi a Humanidade!!" 
 Muito mais havia para contar, mas deu a palavra à sua esposa  com quem está casado há 55 anos. 
Conceição Matos é uma mulher de 78 anos,  serena, de sorriso meigo, muito bonita. Enquanto ela estava a falar eu descrevi-a assim:
Muito bonita, umas feições correctissimas, um cabelo branco acinzentado, de caracóis soltos naturais, ( confessou mais tarde que apenas o tinha lavado e secado) , muito bem arranjada, de roupas simples, argolas médias em ouro nas orelhas, sorriso meigo para o marido que revela uma enorme cumplicidade entre ambos.
Começou a falar com uma voz muito sumida, por vezes difícil de ouvir, ( disse mais tarde que fica tão emocionada a relatar o que lhe fizeram que a voz não lhe obedece!).
Foram buscá-la de madrugada à casa onde vivia com o marido ( na altura companheiro) no Montijo. Não teve tempo para nada. Entraram logo de espingardas em punho a ameaçá-la e nunca mais desviaram as espingardas do seu peito. Foi presa com a roupa que tinha vestida e foi buscar um casaco comprido que lhe serviu imenso durante a sua prisão, não no despiu durante 4 meses. 
Tinha-se dificuldade em ouvi-la. Baixava a voz de cada vez que contava um episódio doloroso e brutal. 
Levaram-na para uma sala onde ficou durante 17 dias. Para não perder a noção do tempo, havia um armário em madeira, onde os presos políticos que por ali passavam escreveram os seus nomes, estava todo escrito. Ela arranjou um sítio da madeira e com a unha ia fazendo um risco diariamente para não perder a noção do tempo. Foram 17 dias!!
Estava numa grande expectativa, pois nunca tinha sido presa, era muito jovem, e não sabia se iria resistir às torturas que lhe afligiam. Não queria nem podia falar, custasse o que custasse. Levaram-na Para a António Maria Cardoso para novos interrogatórios. Não queria falar, batiam-lhe, davam-lhe murros na cara, nas pernas, nos braços, ela sentia-se toda partida. Um dos guardas estavam já tão enervado com a situação que lhe gritou: " Se não quer falar, escreva, se não quer escrever, fale!!!!  pois daqui ninguém saiu sem ter falado!!!"
Ainda hoje tem problemas com o evacuar, pois eles não a deixavam ir à casa de banho. Era uma jovem mulher, (bonita, pois se ainda hoje com 78 anos é bonita!) e provocavam-na, metiam-se com ela, chamavam-lhe nome, para que ela começasse a perder a segurança e a autoestima que tinha. 
Começou a ter alucinações, viu um bicho na perna da mesa, as paredes a mexerem e com tantos nervos veio-lhe a menstruação. 
Mostraram-lhe uma carta a fingir que tinha sido escrita pelo companheiro, onde dizia para confessar tudo, para não sofrer mais,  mas ela viu que não era a letra dele. Deixou de comer. Emagreceu tanto que o estômago descaiu. Estava completamente destruída física e psicologicamente. Foram-lhe buscar o casaco, que foram eles a vestir-lho pois ela estava sem forças, e levaram-na de novo para a Prisão de Caxias. 
Nessa noite ouviu bater na parede. Eram sinais sonoros na parede. Começou a perceber que cada pancada correspondia a uma letra. Era um grupo grande de antifascistas, estudantes e outras pessoas que tinha sido presas, pois estava-se a aproximar o 1º de Maio. Através das pancadas perguntaram-lhe se ela tinha falado, e ela respondeu-lhes que não. Eles com as pancadas disseram-lhe: "Coragem hoje e abraços amanhã!"  ela descansou e adormeceu mais tranquila por se sentir tão apoiada. 
Voltou aos interrogatórios. Nessa vez apareceu uma mulher polícia que se chamava a Leninha, era uma mulher tenebrosa, começa a questioná-la e como ela não respondesse começa a esmurrá-la. Começou a despi-la, a cada peça faziam-lhe uma pergunta, como não respondesse, ficou completamente nua.
Ela pensava num livro que tinha lido chamado "Arco-iris....?" onde ela se inspirou, pois conta a história de uma mulher nazi que interroga uma mulher judia num  campo de concentração. Continuam a dar-lhe murros, pontapés, levantam-na pelos sovacos, outro atira-a contra uma cadeira, sempre a cair a levantar-se, a cena manteve-se durante horas. Entram imensos pides numa atitude provocatória, e ela pensa que vai ser violada, mas não, fazem-lhe perguntas e saem... ela está transida de medo, de susto, de dores...
Volta para a Prisão de Caxias. Finalmente aí começa a ter algum sossego, pois os interrogatórios são sempre na António Maria Cardoso. Um dia estava a falar com a mãe no parlatório, e a mãe pergunta-lhe qualquer coisa insignificante que o guarda não gostou, vai junto delas, e fecha a grade com um vidro e manda-a para dentro. 
Outra vez, vinha de um interrogatório da António Maria Cardoso, e de dentro do carro celular " A Ramona" numa fresca vê a mãe junto à porta da Pide, e ela começa a gritar , a gritar descontroladamente, pela mãe, e os guardas  a dizerem-lhe que não era a sua mãe, porque ninguém sabia que ela estava ali presa. A chantagem psicológica sobre os presos é muito grande. Houve pessoas que não resistiram e denunciaram camaradas e colegas. A tortura é a pior forma de destruir um ser humano, a nível físico e  psíquico. Chega-se a uma altura em que o preso não se sente um ser humano.  
Ela e Domingos Abrantes estiveram quatro anos sem se verem. Depois de sair da prisão ela teve que ir fazer um tratamento à União Soviética.