- Hoje, dia 14, a aula de Poesia e Conto, na Academia Sénior de Estremoz foi dedicada à minha apresentação na Tertúlia Mulheres com M grande. Quis partilhar com as minhas queridas alunas o trabalho que realizei. Gostaram e as 2 horas foram curtas para tanta participação e achegas sobre as Mulheres que apresentei. Valeu a pena. Ficou combinado que acabaríamos de ver o Power Point na próxima aula. Tenho as alunas mais interessadas de Portugal!!! como eu disse à Tânia Ribas de Oliveira: - " As minhas alunas são extraordinárias!!!!" e ela comentou a minhas palavras em directo na Praça da Alegria. São mesmo!!!
quinta-feira, 15 de maio de 2014
AULA DO DIA 14 DE MAIO
O MEU BISAVÔ JACINTO - EU DOU, EU DOU!!!
O meu bisavô Jacinto André Varela, nasceu em Azaruja, em 15 de Agosto de 1860.
Sabia ler e escrever. Com 18 anos, veio trabalhar para Casa Branca, como escriturário na Herdade do Mouchão, propriedade da família Reynolds.
Sabe-se que os irmãos a tia Inácia, a tia Maria, a tia Guilhermina e o tio Manuel foram com a mãe, já viúva, viver para Lisboa, mais propriamente para a Rua da Caridade.
Jacinto André Varela veio aqui para Casa Branca. Começou a namorar com Anna Rita Ferreira, natural de Casa Branca e casaram. Desse casamento nasceram dois filhos André Ferreira Varela e José Ferreira Varela ( meu avô materno).
Viveram sempre em casa própria, junto ao Adro da Igreja Matriz, no início da Rua da República, que calhou de herança ao meu tio Jacinto Varela e que ele vendeu posteriormente.
O meu avô como empregado de escritório desta grande casa agrícola, sempre teve uma vida desafogada. Para ir para o Mouchão, deslocava-se a cavalo.
Conta-se, que uma vez, o cavalo caiu dentro de um poço que não tinha protecção. Então o meu avô começou a gritar e a chamar pelos homens que trabalhavam na herdade, que o ajudassem a tirar o cavalo de dentro do poço, e dizia: " Tirem-me o cavalo de dentro do poço, eu dou, eu dou, eu dou!!!"
Os homens vieram e com muito custo e trabalho conseguiram tirar o cavalo são e salvo de dentro do poço. Então disseram-lhe: "Oh Sr Jacinto, então o que é que nos dá???"
"Oh rapazes, eu não lhes posso dar nada, não tenho nada meu, sou tão pobre como vocês!!" Respondeu prontamente o meu bisavô. Deve-lhes ter dado um copo de vinho e pouco mais !!!
Trabalhou durante 50 anos na Herdade do Mouchão. Quando já não podia trabalhar, veio para casa com uma pequena reforma dada pelos patrões.
Ele gostava muito de beber um copinho, e como já não era novo, não aguentava muito vinho. Um dia, ia a cambalear para casa e passou o patrão por ele. Não gostou de o ver bêbado e tirou-lhe a reforma que lhe dava. " Oh, Jacinto olha como vais!!! se o dinheiro que recebes da reforma é para gastares em vinho, a partir de hoje, vou mandar-ta cortar!!" e assim aconteceu. A partir desse dia, deixou de receber reforma.O meu bisavô ficou muito triste e revoltado com o sucedido, pois tinha dedicado uma vida àqueles ingleses vaidosos e autoritários. Faleceu dia 18 de Abril de 1937, cinco anos depois da morte do seu filho José Ferreira Varela de 38 anos, de enfarte do miocárdio.
| Casa Branca |
Sempre me indignou muito esta história, pois vê-se bem a prepotência do patrão. Não se preocupou em saber se aquele dinheiro lhe ficaria a fazer falta ou não, simplesmente cortou e pronto. ( Afinal agora , eu reformada também estou a sofrer do mesmo, com os cortes nas reformas, que este governo faz indiscriminadamente e injustamente!).
| Rua da República |
| Casa Igual à do meu bisavô |
| Herdade do Mouchão |
| Herdade do Mouchão |
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Avô Jacinto
ONDE ESTAVAS NO 25 DE ABRIL DE 1974?
Estava em casa!!!! Tinha sido mãe há 3 meses da minha filha Marta. A Rita tinha 4 aninhos. Então eu estava a tempo inteiro, em casa.
Por volta das 9 horas, levantei-me para preparar o biberon da bébé e ouvi vozes na rua. Havia pessoas a falarem, da rua para as pessoas que estavam à janela. Abri a janela da sala e vi as minhas vizinhas da frente entusiasmadíssimas a falar umas com as outras. Ouvia palavras soltas. Não conseguia perceber o que se estava a passar. Percebi que algo de anormal se passava. Tentei chamar a atenção de uma delas, e perguntei-lhe o que estava a acontecer??!!
"Não sabemos ao certo, mas parece que há uma revolução em Lisboa. Na rádio, estão a pedir às pessoas que não saiam de casa. Que se mantenham em casa" - respondeu-me a D. Nisa."Foram os militares que fizeram uma revolução!!"
Fiquei apreensiva, um pouco preocupada, pois o Zé tinha saído, como todas as manhãs, às 7 horas da manhã e trabalhava no Banco Espírito Santo, na Rua do Comércio.
Passadas uma ou duas horas chegou o Zé a casa. Quando ele ia apanhar o comboio, alguém o avisou de que tinha havido uma revolução e que ninguém podia passar. A Baixa estava cheia de militares, que obrigavam as pessoas a apanharem o combóio e voltar para casa. O Zé e o colega Barros decidiram não ir para o Rossio. Foram calmamente à praça de Queluz, compraram cada um 1Kg de carapaus e regressaram para casa, em Massamá. Quando ele chegou a casa, fiquei bastante aliviada, pois não sabia nada dele.
Ao almoço, comemos os carapaus fritos com um arrozinho de tomate. Não saímos de casa. Acatámos os conselhos da rádio e da televisão. Não despegámos os olhos da televisão durante todo o dia. Esperávamos ansiosos a apresentação da Junta de Salvação Nacional. Quando vimos aqueles militares, todos medalhados todos muito sérios, muito aprumados, o Galvão de Melo com uma cara que era de fugir, fiquei receosa, não estava a perceber o que aqueles homens de aspecto tão austero e sisudos nos poderiam dar...
A Cacilda e o Barros vieram para nossa casa, passaram a tarde e a noite connosco. Foi um dia muito, muito especial. Lembro-me de sentir um misto de alegria e de ansiedade. Sentir que finalmente o meu desejo de viver num país livre e democrático estava prestes a acontecer... mas o aspecto dos militares da Junta de Salvação Nacional não me tranquilizou muito....
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| Zuzu e Marta 8 dias |
sábado, 10 de maio de 2014
TERTÚLIA MULHERES COM M GRANDE
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| Cartaz |
Fui convidada para fazer uma conferência sobre um dos temas que mais me apaixonam : As mulheres.
Escolhi o título MULHERES COM M GRANDE e fiz a apresentação em Power Point. Escolhi 15 mulheres que se destacaram na política, na escrita, no desporto, na pintura.
A tertúlia foi apresentada no dia 30 de Abril de 2014, na Sociedade Musical Odivelense, integrada nas Conversas com Principio e Fim, organizadas pelo Carlos Moura e sua mulher a Margarida.
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| No hall da Sociedade Odivelense |
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| Zuzu |
Saímos, eu e o Zé, de Casa Branca por volta das 11 horas da manhã. Fizemos uma viagem calma e tranquila. O tempo estava muito agradável. Chegámos por volta da 1 e meia da tarde a Odivelas. Deixámos o carro junto ao Instituto de Odivelas e fomos procurar a Sociedade Musical Odivelense, eu sabía que era perto da Câmara Municipal e da Biblioteca.
Comemos qualquer coisa num café mesmo junto ao largo do Instituto e aí perguntámos qual o caminho para a Sociedade. Estávamos muito perto. Era atravessar a rua e subir uma escadinhas e estávamos logo lá.
Assim, cerca das 14 e 30 horas chegámos à Sociedade. Fomos muito bem recebidos pela funcionária, D. Elisabete. Sentámo-nos e aguardámos a chegada do Carlos Moura e da Margarida.
| A assistência |
| A assistência |
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| A assistência - D. Matilde muito entusiasmada, com intervenções muito pertinentes |
Entretanto chegou o Filipe Ferreira que eu tinha convidado para assistir. O Carlos Moura chegou e começou a preparar o data show , o som e tudo o resto para a apresentação. A Margarida começou a colocar as cadeiras que estavam empilhadas junto à parede. Colocou imensas cadeiras, e eu pensei que não seriam necessárias tantas.
Pouco a pouco, começaram a chegar pessoas. Conversei com algumas delas. todas estavam muito interessadas na minha conferência. O tema era apelativo.
À hora marcada deu-se inicio à Tertúlia. Estava muito entusiasmada por poder apresentar o trabalho que tinha feito para a conferência. O ambiente estava muito bom. A assistência muito interessada. Foi muito agradável e senti-me muito bem. Quando chegou a altura de falar de Maria Lamas, estava uma senhora na plateia, que tinha convivido de muito perto com Maria Lama. Foi muito bom o seu contributo e todos ficámos encantados por sabermos mais alguns pormenores da vida desta mulher. Curiosamente, em Odivelas há um parque com o nome de Maria Lamas, e isso também foi referenciado pela assistência.
| Apresentação |
| Apresentação |
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| Carlos Moura, Margarida e D. Matilde que conheceu muito bem Maria Lamas |
Foi uma tarde muito boa. Senti-me muito bem com as observações que complementaram a minha apresentação, das pessoas da assistência. Convidaram-me para uma próxima conferência do próximo ano. Concordei feliz, pois gostei muito de partilhar os meus poucos conhecimentos com tantas pessoas interessadas
http://conversascomprincipioefim.blogspot.pt/
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zuzu
O MEU TIO JACINTO - OS MEUS PRIMEIROS LIVROS
O meu tio Jacinto é o meu padrinho de baptismo e de casamento.
Generoso, como todos nós o conhecemos, foi ele quem me ofereceu os primeiros livros que tive.
Lembro-me de um, muito infantil, com desenhos muito bonitos, que contava a história de um ratinho. Adorei aquele livro, passava horas a ver os desenhos e quando aprendi a ler, lia a história vezes sem fim. Anos mais tarde, comprei um igual para as minhas filhas que também o adoravam. Infelizmente perdi-lhe o rasto... Tenho a certeza que se o vir, o conheço pela capa...
Um dia, ofereceu-me um livro de contos e lendas tradicionais, que eu li e reli dezenas e dezenas de vezes. Uma das histórias, contava a lenda da solha e de Nossa Senhora. O livro perdeu-se. Já adulta quando encontrava uma loja de alfarrabista entrava a perguntar se tinha um livro, de contos tradicionais, onde vinha a referida lenda... os livreiros olhavam para mim, admirados e diziam-me que não conheciam tal livro!! um dia, passei por uma loja de alfarrabista fui perguntar se conhecia o dito livro e ele disse-me que sim, que conhecia, mas que não tinha o livro em questão. Fiquei contente, pois finalmente alguém me confirmava que não era invenção minha, que na verdade existia aquele livro com a lenda. Nunca deixei de procurar, mas sem resultado. Um dia na escola de Sousel onde dava aulas, apareceu o meu livrinho de contos!!! a escola de Vale de Freixo foi desmantelada e todas as coisas que lhe pertenciam foram para a escola de Sousel. Fiquei maravilhada quando peguei naquele livrinho, muito pequeno, mais pequeno que um livro de bolso, de papel de muito, muito má qualidade, quase insignificante e que fazia parte de uma colecção que estava guardada num armário muito pequeno, onde eram guardados todos os livros. Nunca um livro me marcou tanto!!! Quando peguei no livro, vi que se chamava Contos tradicionais do povo português, de uma grande autor Teófilo Braga. O livro ficou na Escola de Sousel e mais uma vez lhe perdi o rasto.
A Lenda de Nossa Senhora e a Solha
Conta-se que Nossa Senhora andava a passear à beira mar.
Viu uma solha e perguntou-lhe: Oh solha a maré enche ou vasa?
A solha em vez de responder, gozou com Nossa Senhora e respondeu, escarnecendo dela:
Oh, solha, a maré enche ou vasa!??
Nossa Senhora aborrecida com esta atitude, disse-lhe: A partir de hoje vais ficar com a boca à banda!
Fim
Um dia, trouxe-me uma caderneta de cromos, da Branca de Neve e os sete anões. Não havia cromos a vender em Casa Branca, então o tio Jacinto trazia-me todos os fins-de-semana um molhinho de pacotes com os cromos. Para mim, era uma festa. Abrir os pacotinhos, colar os cromos, e a ler as legendas. Comecei a ter muitos repetidos. Já tinha mais cromos repetidos do que os que tinha colados na caderneta, não sabia como resolver isso. Pouco a pouco, comecei a aborrecer a caderneta. Por baixo de cada cromo havia uma legenda, e a história era contada, mas sem o colorido do cromo, a história perdia o seu encanto. Durante muitos e muitos anos, a caderneta esteve na estante com os meus poucos livros que tinha.
O livro da Madame Curie foi outro dos livros que me fez companhia e que eu lia e relia vezes e vezes sem conta. A vida daquela mulher e do seu marido parecia-me quase impossível de ter existido. Da mesma colecção ofereceu-me a vida de Vasco da Gama. Ainda hoje gosto muito de ler biografias.
Ofereceu-me dois ou três livros da Condessa de Ségur: João que chora João que ri, O enjeitado, As férias
e da colecção dos Cinco Os cinco salvaram o tio e outro que não me lembro o nome
Quando lia os livros da Condessa de Ségur, ficava tão embrenhada na leitura, que me abstraía de tudo o que me rodeava, chorava e escondia a minha emoção, porque nunca gostei que me vissem a chorar.
Estes foram aqueles que mais me marcaram e que eu nunca mais esqueci o nome.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Liberdade, Liberdade
Liberdade gera espaço
De respirar e sonhar,
De aprender a voar
E também realizar
Projectos dum mundo novo,
Sobre os pilares da paz,
Da justiça e da verdade,
Do respeito pela harmonia
Do direito e do dever,
Base da educação
Para a cidadania,
Com atenção ao diferente
E ao bem de toda a gente.
O uso da liberdade
Exige responsabilidade
Pessoal e colectiva,
Sentido do bem comum,
Onde todos e cada um,
Vivem em solidariedade,
Pelo amor feito partilha.
A cultura do respeito
Fará luzir cravos novos,
Nas lapelas e no peito
De quem semeia esperança,
Exercendo a segurança
Das pessoas e dos povos,
Com hinos à confiança.
Sendo tudo permitido,
Nem tudo à vida convém.
Basta olhar a liberdade,
Com a grande dignidade
Duma escola de amizade,
Onde se aprende a oferecer
A toda a humanidade,
Flores de Paz e de Bem.
Liberdade é um direito,
Maravilhoso e sagrado,
Impresso no coração
Humano, por Deus criado,
A exigir de nós respeito,
Por quem vive ao nosso lado.
A LIBERDADE SE EXERCE,
NO AMOR QUE SE OFERECE,
RESPEITANDO A DIGNIDADE
DO OUTRO COM QUEM CONVIVO,
NA JUSTIÇA E NA VERDADE,
QUE DÁ VOZ À CARIDADE
E CONSTRÓI FRATERNIDADE.
Maria Lina da Silva, fmm
Lisboa, 25.4.2014
Poema da minha querida amiga Irmã Lina, que eu não posso de deixar de colocar aqui no meu blog.
domingo, 4 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
quinta-feira, 17 de abril de 2014
quarta-feira, 12 de março de 2014
COMO VENCER UM OBSTÁCULO
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| Carmen Dolores |
A actriz Carmen Dolores foi entrevistada, muito recentemente,num programa de entrevistas na televisão. Por acaso, assisti ao mesmo e tive oportunidade de ouvir esta mulher linda e lúcida nos seus 80 e alguns anos.
Quando tinha já 80 anos foi convidada a fazer uma peça de teatro e deram-lhe mais de 40 páginas de texto para decorar. Olhou para aquele número de páginas e sentiu-se impotente. Então pensou que tinha que decorar o texto custasse o que custasse e pensou a melhor forma de o fazer.
Então pensou que tinha na sua frente um caminho cheio de pedras e de vidros partidos. Como o poderia atravessar?
A correr iria ficar com os pés todos feridos!! Dar um salto para ultrapassar o caminho seria ainda pior, pois iria partir-se toda!
Então, a melhor forma que encontrou para ultrapassar este caminho tão tenebroso e tortuoso foi: ajoelhou-se e com muita paciência começou a afastar com as mãos as pedras e os vidros espalhados no chão e muito lentamente, pôde avançar, pois já tinha o caminho limpo.
Com a sua voz calma e tranquila, Carmen Dolores continuou dizendo: "Não importa o tempo que se leva a fazer uma coisa difícil, importa que no final o resultado seja positivo e compensador."
Escrever sobre esta forma sapiente de encarar as dificuldades que se nos apresentam na vida. Dar a conhecer esta metáfora que tão importante é, para ultrapassarmos os obstáculos que diariamente se nos colocam.
AGOSTINHO DA SILVA
VELHICE
Não ultrajes a velhiceQue à porta te há-de vir ter
O que tu és, já eu fui
O que eu sou, hás-de tu ser.
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O destino
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o destino
sábado, 15 de fevereiro de 2014
VERDADE....
Quando morres não te apercebes de que estás morto.
Só é doloroso para os outros.
Acontece o mesmo quando és estúpido.
Só é doloroso para os outros.
Acontece o mesmo quando és estúpido.
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zuzu
QUANDO SE TEM 65 ANOS...
De repente tudo vai ficando tão simples, que nos assusta.
A gente vai perdendo necessidades, vai reduzindo a bagagem.
As opiniões dos outros, são realmente dos outros e mesmo que sejam sobre nós, nã
o têm importância.
Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. E, isso não faz a menor falta.
Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado e sim a vida que cada um escolheu experimentar.
Por fim, entendemos que tudo o que importa é ter sossego e paz, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento.
(Autor desconhecido)
A gente vai perdendo necessidades, vai reduzindo a bagagem.
As opiniões dos outros, são realmente dos outros e mesmo que sejam sobre nós, nã
o têm importância.
Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. E, isso não faz a menor falta.
Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado e sim a vida que cada um escolheu experimentar.
Por fim, entendemos que tudo o que importa é ter sossego e paz, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento.
(Autor desconhecido)
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zuzu
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
A DOENÇA DA SAUDADE
"Sofro da doença da saudade…" — ouvi há tempos de uma
senhora de 86 anos. Tentei explicar-lhe que a saudade não era uma doença,
mas depois da sua explicação, acabei por concordar com ela.
"Tenho saudades do tempo em que podia fazer tudo sozinha, em
que sabia fazer tudo sozinha. Sobretudo, tenho saudades do tempo em que nunca
estava sozinha. É uma doença que afecta principalmente as pessoas da minha
idade. Tem cura, mas deve ser cara, porque ainda ninguém se curou dela! A
viuvez é um dos sintomas, assim como o partir dos filhos para a cidade.
Os filhos por lá têm os netos e para cá pouco os trazem. Os que
(ao contrário de mim) estão perto, ainda os ajudam a criar, mas depois a dor
dobra. Perdem-se os filhos e os filhos dos filhos, que são nossos filhos a dobrar.
Vai-se piorando quando nos apercebemos de que eles só voltam no
Natal e nos anos. E quando já se fizeram muitos (anos), nós deixamos de os
contar e eles de se lembrar que os fizemos.
Depois, outras doenças, como a crise, entram na nossa casa e acabam
por se alojar no nosso corpo.
O problema da crise é que ela entra em conflito com a medicação
que até lá tomávamos e somos obrigados a parar. Ao parar os medicamentos,
nós paramos.
Eu deixei de ir ver a Emília, que mora a duas casas da minha, que
as pernas desistiram de se arrastar. Deixei de ver o Goucha e a Cristina, que a
visão turvou. Deixei de me baixar para alimentar o bichano, que o chão
fugia-me. Percebi, nessa altura, que a saudade atingira o seu pico.
Desde então, agarro-me às fotografias. Sei que pioram o meu
estado, mas gosto de me lembrar de quem fui e do que tive. Não para quantificar
o que perdi, mas para valorizar o que a vida me deu até aqui.
E estamos quase Natal, menina! O Natal está para a saudade como
Agosto está para a crise. Acalmamos algo que vai voltar com mais força, quando
já não temos forças para uma recaída. Triste é saber que, no final, vamos
resistir a essa recaída e, ao resistir-lhe, resistimos mais um ano.
No meu caso, vou enganando a doença com mezinhas. Às vezes
aparecem uns senhores de uma associação da terra cá em casa. Perguntam-me como
estou, esperam para ouvir a resposta e sinto-me logo melhor. Mas à noite, à
noite fico sozinha e a alma dói-me. O corpo não me preocupa. Escorre-me uma
água salgada pelos olhos e isso, menina, isso já não me dói!"
Concordei. A saudade é uma doença dos nossos dias.
Bárbara Matias, aspirante a
jornalista. Estudante de Mestrado em Ciências da Comunicação na UTAD
Texto de Bárbara Matias • 06/11/2013 -
17:04
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Saudade
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
DIA DE NATAL
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa toda a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá- tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão
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Natal
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
FLORES PARA FLORBELA


A Conferência de S. Vicente de Paulo de Vila Viçosa debate-se com dificuldades para poder ajudar todos aqueles que lhes pedem auxilio; assim, as Vicentinas resolveram prestar uma homenagem a Florbela Espanca, elaborando uma manta de rosetas em lã, que foi rifada, revertendo esse dinheiro para a Conferência. O Projecto teve a participação activa das senhoras idosas do Chá das Quartas -Feiras e de muitas outras senhoras que quiseram fazer rosetas. A supervisão e a organização do projecto esteve a cargo da Cristina Lopes, da Oficina da Borboleta Maria , http://oficinaborboletamaria.blogspot.pt . A colcha foi exposta no Cine-Teatro Florbela Espanca no dia 7 de Dezembro, pelas 15 horas, assim como foi inaugurada a exposição sobre o mesmo tema ( Flores para Florbela) com trabalhos elaborados pelos alunos das escolas de Vila Viçosa, que apresentaram trabalhos interessantíssimos.
O dia 14 de Dezembro foi o escolhido para se realizar a festa no Cine-Teatro e se proceder ao sorteio da manta.
A festa iniciou-se às 15 horas com um grupo de jovens bailarinas
Performance " Flores para Florbela" , interpretação 100SATION, coreografia:Ana Cravo e Susana Nascimento, Mix de som: Ana Cravo, João Alexandre e Maria João Reis a partir da recreação do poema: "AMAR" de Florbela Espanca por Teresa Almeida.
15.30H - "Florbela" um diálogo Professora Doutora Ana Luísa Vilela e Tiago Salgueiro
Poemas musicados: Adelino Silva com um grupo de jovens músicos, Cecília Frade e Maria Zulmira Baleiro
16H - Conversa informal, chá, bolos e bolachinhas
17H - Sorteio da Manta
17.30H - Encerramento da exposição
Pediram-me para dizer alguns poemas de Florbela Espanca e assim eu escolhi estes :
Li um dia, não sei onde
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados
**********************
Nunca fui como todos...
Nunca tive amigos...
Nunca fui favorita...
Nunca fui o que os meus pais queriam...
Nunca tive alguém a quem amasse...
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
Não vivo sozinha porque gosto
Mas sim porque aprendi a ser só...
***********************
SAUDADES
Saudades! Sim...talvez...e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
*************************
Foi uma homenagem a Florbela Espanca muito original e muito sentida. O clima de festa que ali se viveu foi muito apreciado por todos os presentes. Eu senti-me bem e feliz por poder participar neste projecto.
As conferências Vicentinas são associações de leigos Cristãos, vocacionadas para o auxilio aos "pobres envergonhados" e que hoje são consideradas de Solidariedade Social, que tiveram o seu início nos bairros pobres de Paris em 1833, devido à dedicação de Frederico Ozanan, que inspirou a sua obra na missão caritativa de S. Vicente de Paulo.
A humildade de Ozana e dos seus companheiros, que silenciosamente levavam aos marginalizados não só o pão que necessitavam, mas também uma palavra de alento e esperança, de acordo com os ditames do Evangelho. O sucesso foi tão grande, que em pouco tempo as Conferências se difundiram por toda a Europa e passado meio século já estavam implantadas em Portugal.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
A PORTA DA CASA DE MEUS PAIS
A porta de entrada da
casa onde vivi desde o ano de idade até à minha adolescência é uma porta em
madeira, envernizada, de duas partes, que abrem ao meio. Tem um postigo de cada
lado, com postigos de vidro, que se podem abrir nos dias quentes de verão ou
quando queríamos saber quem é que nos estava a bater à porta, a horas tardias.
Os postigos são protegidos com grades em ferro forjado que lhe dão uma certa majestade Por cima, tem uma “bandeira” com uma grade em ferro forjado, por
onde entra a luz do sol .
Há noite, os ferrolhos
de cima e de baixo são puxados para que haja segurança, e nos sintamos seguros
dentro da casa.
A fechadura era já de pique-porte.
Por isso a chave é uma chave pequena, que abre com alguma dificuldade a porta.
Tem que se dar um certo jeito, para que a fechadura se abra, sempre a conheci
assim...
Quando alguém quer
entrar em casa, bate num batente em forma de “mãozinha”, cujas pancadas ecoam
por toda a casa.
Não é uma porta muito
larga, até posso dizer que é estreita, pois quando queremos passar, de verão
ainda se abre razoavelmente, mas de Inverno, como empena, fica uma fresta por
onde temos que nos esgueirar e apertar para podermos entrar ou sair da casa.
Esta porta da casa dos meus pais só era usada de
manhã muito cedo, à noite ou durante o fim-de-semana, pois todos as
pessoas que queriam entrar ou sair da
casa iam pela porta da loja, que estava sempre aberta, desde as 9 horas da
manhã até às 21 horas, hora a que se fechava definitivamente a porta da loja,
depois de se varrer e se lavar o chão.
Logo muito cedo, pelas
7 horas da manhã, batia a leiteira à porta, e a minha Tita ia abrir e receber o
leite no fervedor; o leite era transportado num cântaro de lata e era medido com
uma das medidas também de lata que a leiteira transportava presas umas às
outras por um cordel. Ela enchia a medida, que normalmente era a de 1 litro, e
com muito cuidado para não entornar uma gota sequer, vertia o leite para dentro
do fervedor de alumínio, que era enorme, devia levar 1,5litro ou 2 litros, pois
como éramos muitos lá em casa, sempre gastámos bastante leite. Por vezes, as
vacas não davam tanto leite como era habitual e a Srª Maria Chica só nos
dispensava ¾ de litro, para grande arrelia da minha mãe, que queria que todos
nós bebessemos um copo de leite ao pequeno-almoço. O leite era muito forte, tinha
sempre muita nata, e por mais que se passasse com o passador, passava sempre
para a caneca alguma gordura que sempre me agoniou imenso, ainda hoje detesto a
nata do leite.
A porta tem uma caixa
para o correio, com uma tampa em ferro que protege a caixa de madeira para onde
caem as cartas, quando o carteiro as enfiava na ranhura da caixa de correio. A
maioria das vezes, o carteiro ia entregar a correspondência à loja, pois como
esta estava aberta e havia sempre alguém para recebê-lo, a minha mãe ou um empregado,
o correio era entregue em mão.
A soleira ou portado,
tinha uma pedra mármore branquíssima, que era esfregada todos os dias, assim
como a rua era varrida todos ops dias, logo pela manhã. A pedras com o uso
excessivo começou a ficar desgastada e a fazer uma grande curva por onde
entrava muito pó; então, a minha mãe teve a ideia de colocar por cima dessa
pedra uma outra pedra mármore e assim ficaram duas pedras em cima uma da outra
o que obrigou o portado a subir. Quando vou a entrar ou a sair esbarro sempre
nas pedras, pois no meu inconsciente ainda só lá se encontra a primitiva pedra
mármore branquissima. Fico sempre irritada quando tenho que passar por lá, pois
para além de esbarrar na pedra, também a porta não se abre completamente por
estar empenada e é com algum esforço que passamos pelo espaço que a porta nos
deixa abrir.
Está velha, tudo está
velho, a porta, a casa e até os meus pais que eu recordo com imensa saudade
ainda jovens, à porta da rua a verem-me a mim e ao meu irmão a andar de bicicleta
e a brincar com os amigos e vizinhos da rua. Como eu me lembro da alegria no
interior da casa, quando se ouviam as pancadas da “mãozinha” e sabíamos que
vinham a chegar os tios e as primas de Estremoz. Os carros ficavam do outro
lado da rua, no recanto que ainda hoje lá existe, junto à casa do prima Maria
Inácia, e nós íamos numa enorme excitação abrir a porta, às visitas que vinha
almoçar, lanchar ou simplesmente passar a tarde, que terminava sempre com um lanche
na mesa de pedra mármore do alpendre ou do quintal.
Quando eu era pequena,
adorava andar descalça no alcatrão a escaldar da rua, então descalçava as
sandálias, colocava-as atrás da porta e lá ia eu toda contente jogar ao avião, à apanhada ou ao às 5 pedrinhas . Andar descalça dava-me uma enorme sensação de
liberdade. Quando a minha mãe via as sandálias atrás da porta, chamava-me muito
zangada e alguma vezes, apanhei no rabo,
por ter aquela mania de me descalçar. No verão, o chão das diversas
dependências da casa era de cimento vermelho, de mosaicos por isso era muito
fresco, eu adorava andar descalça, mas nunca me deixavam porque podia ficar com
anginas. A minha vontade de andar descalça levou-me muitas vezes a levar uns
sopapos da minha mãe, que tinha uma verdadeira paranóia quando me via descalça,
pois segundo ela podíamo-nos constipar. Fui de tal maneira repreendida que hoje
não sei andar descalça em casa. Mal tomo banho enfio logo uns chinelos e quando
me levanto da cama tenho logo ali uns chinelos para calçar, mas descalça é que
eu não sou capaz de andar!!!!
A JANELA
As janelas da casa da
minha infância nunca me despertaram grande interesse. Há uma janela no quarto
de meus pais e outra na sala de jantar São pequenas, estreitas e ficam muito altas em relação ao chão, e por isso, mandaram
fazer uns estrados em madeira de 25 centímetros de altura por 30 de largura, colocados
nos vãos das janelas, para que mais facilmente se chegasse à janela e se
pudesse olhar cá para fora. As janelas não são airosas nem alegres, e por isso,
a luz que por elas entra não é muito forte, o que dá às duas divisões um ar
triste e pouco iluminado.
Quando queremos ver
algo que se passa na rua, temos que subir para o estrado, e de cima deste, podemos
então, olhar a rua. Isso, sempre fez que eu nunca gostasse daquelas janelas. De
dentro para fora, quando estamos sentados à camilha não vemos nada do que se
passa lá fora. Se ouvimos algum barulho diferente, então, lá temos que subir
para o estrado, abrir a janela e espreitar lá para fora. De fora para dentro,
vive-se a mesma situação, como são muito altas, ninguém pode vir e espreitar à
janela, não se vê nada cá para dentro.
Quando eu era muito
pequena, gostava de brincar com as minhas bonecas no estrado da janela da casa
de jantar, sentava-me ali e passava algum tempo entretida a brincar, mas não
muito tempo, porque aquele lugar não tinha sol e eu sentia-o um espaço escuro e
fechado...
Aos Domingos, as amigas
ou as primas da minha mãe vinham lanchar com ela, então depois do lanche, nas
tardes sem chuva, punham-se à janela, onde só cabem duas pessoas, e por isso
quando era mais gente, tinham que fazer à vez. Lembro-me de vê-las com os seus
melhores vestidos, muito bem penteadas e algumas delas, até se atreviam a pôr
um pouco de “rouge” ou de pó-de-arroz, mas nunca pintavam os lábios, pois isso
não era de “bom tom” numa senhora casada.
Quando eu tinha os meus
cinco ou seis anos de idade, veio para Casa Branca um casal, o Sr. Escobar que
era empregado de escritório do Sr. Martinho Rovisco e a D. Rosinha, uma jovem
mulher muito bonita, muito elegante, que vestia muito bem e se arranjava como
uma senhora da cidade. Penteava-se com uma linda trança que era o enlevo de
toda a gente, tinha uma cara muito bonita que as pinturas ajudavam a realçar. Faziam
um casal muito bonito, muito elegante, eram jovens e muito bem dispostos.
Tinham um filho, o Sérgio, que era da minha idade. Os meus pais fizeram amizade
com eles. Todas as tardes de Domingo, os três vinham para nossa casa, onde
lanchavam e jantavam. A minha mãe gostava imenso da companhia da D. Rosinha que
era mais evoluída que a maioria das amigas de minha mãe, e por isso lhe dava
muitos conselhos sobre as modas daquela estação, cremes para o rosto, e até
sugestões para se começarem a pintar... de culinária e sobre a decoração da
casa... lembro-me que nessa época a minha mãe começou a dar mais atenção à
maneira como se arranjava e começou a usar creme de beleza na cara.
Há um episódio muito
engraçado, que ainda hoje é falado aqui em casa. Quando se ia a Lisboa, a
viagem era de quatro a cinco horas, na furgoneta de meu pai. Então tínhamos que
nos levantar por volta das quatro ou cinco horas da manhã, para se chegar a
Lisboa pela manhã. Eu nesse dia não ia, estava a dormir no meu quarto. A minha
mãe andava a preparar-se e a arranjar-se para saírem o mais cedo possível. A
minha mãe chegou ao meu quarto, com as pressas do costume e pergunta-me: - “Oh
filha, onde é que está o creme para a cara?” e eu muito ensonada, disse-lhe: “
Oh mãe, está ali!” e apontei para uma das gavetas do psiché que havia no meu
quarto. A minha mãe abre a gaveta e vê outro creme e não o que ela procurava,
então muito rapidamente diz: “Oh filha não é este, é Benamor!!!!” . Sempre que estamos a falar de cremes de
beleza, vem esta “história” à baila “ Oh filha é Benamor!!!” é uma risota, pois vem-nos à
memória os dias felizes que vivíamos naquela época, onde os meus pais eram um
jovem casal, divertido, muito trabalhadores mas ao mesmo tempo muito divertidos,
e eu e o meu irmão éramos duas crianças saudáveis, bem dispostas e muito, muito
felizes.
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