quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A PORTA DA CASA DE MEUS PAIS

A porta de entrada da casa onde vivi desde o ano de idade até à minha adolescência é uma porta em madeira, envernizada, de duas partes, que abrem ao meio. Tem um postigo de cada lado, com postigos de vidro, que se podem abrir nos dias quentes de verão ou quando queríamos saber quem é que nos estava a bater à porta, a horas tardias. Os postigos são protegidos com grades em ferro forjado que lhe dão uma certa majestade  Por cima, tem uma “bandeira” com uma grade em ferro forjado, por onde entra a luz do sol .
Há noite, os ferrolhos de cima e de baixo são puxados para que haja segurança, e nos sintamos seguros dentro da casa.
A fechadura era já de pique-porte. Por isso a chave é uma chave pequena, que abre com alguma dificuldade a porta. Tem que se dar um certo jeito, para que a fechadura se abra, sempre a conheci assim...
Quando alguém quer entrar em casa, bate num batente em forma de “mãozinha”, cujas pancadas ecoam por toda a casa.
Não é uma porta muito larga, até posso dizer que é estreita, pois quando queremos passar, de verão ainda se abre razoavelmente, mas de Inverno, como empena, fica uma fresta por onde temos que nos esgueirar e apertar para podermos entrar ou sair da casa.
Esta  porta da casa dos meus pais só era usada de manhã muito cedo, à noite ou durante o fim-de-semana, pois todos as pessoas  que queriam entrar ou sair da casa iam pela porta da loja, que estava sempre aberta, desde as 9 horas da manhã até às 21 horas, hora a que se fechava definitivamente a porta da loja, depois de se varrer e se lavar o chão.
Logo muito cedo, pelas 7 horas da manhã, batia a leiteira à porta, e a minha Tita ia abrir e receber o leite no fervedor; o leite era transportado num cântaro de lata e era medido com uma das medidas também de lata que a leiteira transportava presas umas às outras por um cordel. Ela enchia a medida, que normalmente era a de 1 litro, e com muito cuidado para não entornar uma gota sequer, vertia o leite para dentro do fervedor de alumínio, que era enorme, devia levar 1,5litro ou 2 litros, pois como éramos muitos lá em casa, sempre gastámos bastante leite. Por vezes, as vacas não davam tanto leite como era habitual e a Srª Maria Chica só nos dispensava ¾ de litro, para grande arrelia da minha mãe, que queria que todos nós bebessemos um copo de leite ao pequeno-almoço. O leite era muito forte, tinha sempre muita nata, e por mais que se passasse com o passador, passava sempre para a caneca alguma gordura que sempre me agoniou imenso, ainda hoje detesto a nata do leite.
A porta tem uma caixa para o correio, com uma tampa em ferro que protege a caixa de madeira para onde caem as cartas, quando o carteiro as enfiava na ranhura da caixa de correio. A maioria das vezes, o carteiro ia entregar a correspondência à loja, pois como esta estava aberta e havia sempre alguém para recebê-lo, a minha mãe ou um empregado, o correio era entregue em mão.
A soleira ou portado, tinha uma pedra mármore branquíssima, que era esfregada todos os dias, assim como a rua era varrida todos ops dias, logo pela manhã. A pedras com o uso excessivo começou a ficar desgastada e a fazer uma grande curva por onde entrava muito pó; então, a minha mãe teve a ideia de colocar por cima dessa pedra uma outra pedra mármore e assim ficaram duas pedras em cima uma da outra o que obrigou o portado a subir. Quando vou a entrar ou a sair esbarro sempre nas pedras, pois no meu inconsciente ainda só lá se encontra a primitiva pedra mármore branquissima. Fico sempre irritada quando tenho que passar por lá, pois para além de esbarrar na pedra, também a porta não se abre completamente por estar empenada e é com algum esforço que passamos pelo espaço que a porta nos deixa abrir.
Está velha, tudo está velho, a porta, a casa e até os meus pais que eu recordo com imensa saudade ainda jovens, à porta da rua a verem-me a mim e ao meu irmão a andar de bicicleta e a brincar com os amigos e vizinhos da rua. Como eu me lembro da alegria no interior da casa, quando se ouviam as pancadas da “mãozinha” e sabíamos que vinham a chegar os tios e as primas de Estremoz. Os carros ficavam do outro lado da rua, no recanto que ainda hoje lá existe, junto à casa do prima Maria Inácia, e nós íamos numa enorme excitação abrir a porta, às visitas que vinha almoçar, lanchar ou simplesmente passar a tarde, que terminava sempre com um lanche na mesa de pedra mármore do alpendre ou do quintal.

Quando eu era pequena, adorava andar descalça no alcatrão a escaldar da rua, então descalçava as sandálias, colocava-as atrás da porta e lá ia eu toda contente jogar ao avião, à apanhada ou ao às 5 pedrinhas . Andar descalça dava-me uma enorme sensação de liberdade. Quando a minha mãe via as sandálias atrás da porta, chamava-me muito zangada  e alguma vezes, apanhei no rabo, por ter aquela mania de me descalçar. No verão, o chão das diversas dependências da casa era de cimento vermelho, de mosaicos por isso era muito fresco, eu adorava andar descalça, mas nunca me deixavam porque podia ficar com anginas. A minha vontade de andar descalça levou-me muitas vezes a levar uns sopapos da minha mãe, que tinha uma verdadeira paranóia quando me via descalça, pois segundo ela podíamo-nos constipar. Fui de tal maneira repreendida que hoje não sei andar descalça em casa. Mal tomo banho enfio logo uns chinelos e quando me levanto da cama tenho logo ali uns chinelos para calçar, mas descalça é que eu não sou capaz de andar!!!!

A JANELA


As janelas da casa da minha infância nunca me despertaram grande interesse. Há uma janela no quarto de meus pais e outra na sala de jantar São pequenas, estreitas e ficam muito  altas em relação ao chão, e por isso, mandaram fazer uns estrados em madeira de 25 centímetros de altura por 30 de largura, colocados nos vãos das janelas, para que mais facilmente se chegasse à janela e se pudesse olhar cá para fora. As janelas não são airosas nem alegres, e por isso, a luz que por elas entra não é muito forte, o que dá às duas divisões um ar triste e pouco iluminado.  
Quando queremos ver algo que se passa na rua, temos que subir para o estrado, e de cima deste, podemos então, olhar a rua. Isso, sempre fez que eu nunca gostasse daquelas janelas. De dentro para fora, quando estamos sentados à camilha não vemos nada do que se passa lá fora. Se ouvimos algum barulho diferente, então, lá temos que subir para o estrado, abrir a janela e espreitar lá para fora. De fora para dentro, vive-se a mesma situação, como são muito altas, ninguém pode vir e espreitar à janela, não se vê nada cá para dentro.
Quando eu era muito pequena, gostava de brincar com as minhas bonecas no estrado da janela da casa de jantar, sentava-me ali e passava algum tempo entretida a brincar, mas não muito tempo, porque aquele lugar não tinha sol e eu sentia-o um espaço escuro e fechado...
Aos Domingos, as amigas ou as primas da minha mãe vinham lanchar com ela, então depois do lanche, nas tardes sem chuva, punham-se à janela, onde só cabem duas pessoas, e por isso quando era mais gente, tinham que fazer à vez. Lembro-me de vê-las com os seus melhores vestidos, muito bem penteadas e algumas delas, até se atreviam a pôr um pouco de “rouge” ou de pó-de-arroz, mas nunca pintavam os lábios, pois isso não era de “bom tom” numa senhora casada.
Quando eu tinha os meus cinco ou seis anos de idade, veio para Casa Branca um casal, o Sr. Escobar que era empregado de escritório do Sr. Martinho Rovisco e a D. Rosinha, uma jovem mulher muito bonita, muito elegante, que vestia muito bem e se arranjava como uma senhora da cidade. Penteava-se com uma linda trança que era o enlevo de toda a gente, tinha uma cara muito bonita que as pinturas ajudavam a realçar. Faziam um casal muito bonito, muito elegante, eram jovens e muito bem dispostos. Tinham um filho, o Sérgio, que era da minha idade. Os meus pais fizeram amizade com eles. Todas as tardes de Domingo, os três vinham para nossa casa, onde lanchavam e jantavam. A minha mãe gostava imenso da companhia da D. Rosinha que era mais evoluída que a maioria das amigas de minha mãe, e por isso lhe dava muitos conselhos sobre as modas daquela estação, cremes para o rosto, e até sugestões para se começarem a pintar... de culinária e sobre a decoração da casa... lembro-me que nessa época a minha mãe começou a dar mais atenção à maneira como se arranjava e começou a usar creme de beleza na cara.
Há um episódio muito engraçado, que ainda hoje é falado aqui em casa. Quando se ia a Lisboa, a viagem era de quatro a cinco horas, na furgoneta de meu pai. Então tínhamos que nos levantar por volta das quatro ou cinco horas da manhã, para se chegar a Lisboa pela manhã. Eu nesse dia não ia, estava a dormir no meu quarto. A minha mãe andava a preparar-se e a arranjar-se para saírem o mais cedo possível. A minha mãe chegou ao meu quarto, com as pressas do costume e pergunta-me: - “Oh filha, onde é que está o creme para a cara?” e eu muito ensonada, disse-lhe: “ Oh mãe, está ali!” e apontei para uma das gavetas do psiché que havia no meu quarto. A minha mãe abre a gaveta e vê outro creme e não o que ela procurava, então muito rapidamente diz: “Oh filha não é este, é Benamor!!!!”  . Sempre que estamos a falar de cremes de beleza, vem esta “história” à baila “ Oh filha é  Benamor!!!” é uma risota, pois vem-nos à memória os dias felizes que vivíamos naquela época, onde os meus pais eram um jovem casal, divertido, muito trabalhadores mas ao mesmo tempo muito divertidos, e eu e o meu irmão éramos duas crianças saudáveis, bem dispostas e muito, muito felizes.



domingo, 13 de outubro de 2013

OS BAILES DE CASA BRANCA por Tia Marilena

E a propósito da Casa Branca.....
Ia-se lá na altura das festas e ia-se ao baile, e dizia o senhor ao microfone alto e em bom som ( não fosse alguém menos atento não ouvir) :
Senhoras e senhores o baile vai começar. Avisam-se todos que estão proibidas todas as mijanceiras e caganceiras à porta desta função, quem não assim proceder será chamado à direcção, mais se avisam que não podem prantar os pés arriba das mesas por môde de não aquebrantar os basaréus de vidro. Comece o baile.
E o baile começava e nós lá bailávamos. Depois, já tardinho, lá íamos para casa da avó Bárbara entre risos em surdina e pchius e argolas de massa finta (que nunca mais comi como aquelas) lá nos deitávamos para descansar os pés….

AS ARGOLAS DA AVÓ BÁRBARA

Agora é só puxar pela memória!!!
Lembram-se das argolas da avó Bárbara???? Eram célebres.
Aí vai a receita:

ARGOLAS DA AVÓ BÁRBARA

1Kg de pão em massa
1/2 kg de açucar
2 tigelas de leite ( agora serão canecas!)
1/4l de azeite (Alentejano de preferência!!!)
1 colher (sopa)Canela em pó 
Raspas da casca de 1 limão
1 colher de chá de bicarbonato
Farinha para amassar e tender
Põe-se o pão em massa num alguidar, juntam-se os ingredientes todos e vai-se amassando com farinha até tender. 
Fazem-se uma torcidas com a massa e faz-se o feitio de argola. Colocam-se no tabuleiro untado de azeite e polvilhado de farinha e vão a cozer no forno.
A avó Bárbara levava as latas com as argolas ao forno de lenha da padaria, onde as argolas eram cozidas. Algum tempo depois, iam-se buscar, lourinhas e tenrinhas.
Quando vinham mornas eram deliciosas!!!. 
Depois, a avó guardava-as dentro de uma grande panela de esmalte, na despensa, iluminada pela luz difusa da clarabóia, junto à cozinha e duravam para toda a semana. 

Quanto mais o tempo passava, melhor ficavam.
Eram comidas ao pequeno-almoço, ao lanche e ao deitar a acompanhar o caldo de farinha que a avó fazia com todo o preceito, para que não tivesse grumos. 
Quando queríamos uma argola, não a íamos buscar à panela.Pedíamos à avó Barbara: "Avó, dê-me uma argola!" e a avó, levantava-se, com toda a calma da cadeira onde estava sentada ao lume ou à camilia e com todo o vagar, dirigia-se para a despensa. Abria a porta da despensa que estava sempre fechada, dirigia-se à panela de esmalte, tirava a tampa, e dava-nos uma ( 1! ) argola! Nós tínhamos que comê-la com todo o cuidado, para não deixarmos cair migalhas, nem no chão nem no tampo da camilia." Não me sujem o chão com migalhas!!! comam devagar!!! mastiguem bem!!" e a avó continuava: "O meu pai que Deus tem, comia sempre muito devagar, até o leite mastigava!!!" e nós crianças achávamos aquilo muito estranho?!! até o leite mastigava??!!
Afinal, nos dias de hoje, em pleno século XXI, é o que os médicos dietistas e nutricionistas recomendam e aconselham - Comer muito devagar e mastigar bem...! Como a avó Bárbara diria:
" O meu pai foi sempre uma pessoa muito culta e muito inteligente! Lia muito e depois seguia os conselhos que tirava dos livros!!" Assim era o nosso bisavô João Falcato!!!
Luzazul

OS ACAMPAMENTOS DO MOUCHÃO pela Guida

Teria eu 4, 5, 6 anos quando o meu tio Vitalino organizava uns belos acampamentos no Mouchão, uma herdade perto de Casa Branca, terra de Falcatos. Era muita gente, muitas panelas enormes, umas lonas debaixo das quais se comia e dormia, muita alegria e boa disposição. Aquilo durava vários dias, pelo menos é o que me diz a memória.


Partíamos de casa da minha tia Amélia, em carroças??? ( oh Guida!! íamos na carroçaria da camioneta ou no atrelado do trator!! o meu pai nunca teve mulas para termos carroças!!!) carregadas de tralha e de gente sentada em bancos de buínho. Chegados lá, armava-se a esturgia: começava-se a fazer comida pr'aquela gente toda.
Havia uma ribeira onde alguns tomavam banho, dava-se grandes passeios pelos campos à volta, cantava-se, enfim, era uma festança.
Eu tinha umas tão grandes saudades deste tempo e apetecia-me tanto refazê-lo que combinei com o meu tio Zé Varela (também ele um saudosista destas coisas), escrevemos umas cartas acompanhadas de imagens da época assim à laia de convites e fizemos aquilo que até agora foi a última edição deste acampamento. E resultou! Que o diga quem lá foi. E as fotos atestam isso!!
Agora, com todo este entusiasmo que o blog nos tem dado, bem podíamos aproveitar e, lá pr'a Páscoa ou quando o tempo estiver melhor, fazer uma outra reedição. Quem alinha?Aceitam-se inscrições para a organização.
É que vale mesmo a pena!

O ASSOBIO

O meu tio Zé Varela, que sempre admirei e com quem tive uma relação afectiva muito forte, se não tivesse partido,  estariamos hoje a festejar os seus 80 anos. Assim, como não lhe posso dar o beijo de parabéns que ele me retribuiria  com o seu sorriso aberto, meigo e feliz que sempre mostrava, vou escrever um texto que relata bem as memórias boas e singelas que guardo dele.
Quando eu tinha 11 anos, fui estudar para o Colégio de S. Joaquim em Estremoz (actual Escola 2,3 Sebastião da Gama), e fiquei hospedada na sua casa do Bairro de Santo António (hoje é neste bairro que fica o Supermercado Pingo Doce) , logo a casa ficava num extremo oposto ao colégio. A distância era enorme, e a minha pasta tinha sido mandada fazer ao sr. Contente do Cano, famoso pelas suas carteiras, pastas e afins, em couro verdadeiro e de duração ilimitada. Pesava "toneladas", pois o meu pai pedira  o couro mais durável que ele tivesse!. Não deixavamos os livros na escola, e assim, fazia quatro vezes, o caminho do Barirro de Santo António para a zona do Caldeiro. A pé, chovesse a potes, fizesse um frio de rachar, fizesse vento que tudo levava pelos ares, fizesse o calor abrasador de Estremoz, lá ia eu de pasta na mão cheia de livros, logo pelas 8 horas da manhã, voltava de novo com a pasta ao meio dia para almoçar. Depois de almoçar muito rapidamente, mudava os livros das disciplinas da manhã para as da tarde, e lá ia eu, pasta na mão a caminho do colégio onde ia ter aulas das 14horas até às 18h. Nos dias de Ginástica, hoje Educação Física ainda levava um saco de pano branco mandado fazer de propósito para transportar o uniforme de ginástica (saia calça. blusa de malha interloc branca, meias brancas e sapatilhas de ginástica brancas), por isso, nesse dia, a carga era mais pesada e o cansaço era ainda maior.
O percurso da escola para casa e da casa para a escola era e é muito comprido, a distância era interminável. Atravessávamos o Rossio e lá iamos nós,  eu, a Aurita, a Genhinha e a Luisa, felizes, bem dispostas, sem um queixume sobre a distância que tínhamos que percorrer 4 vezes ao dia!!!
Muito esporadicamente, o Sr Dias, pai da Geninha, que tinha uma loja de tecidos no Largo da República, dava-nos boleia, o que para nós era uma festa e um alívio, pois chegávamos mais depressa e menos cansadas.
A minha pasta era forte e feia. Eu não conseguia de maneira nenhuma ver-me livre dela. Então muitas vezes, mandava a pasta com toda a força, pelo pavimento de cimento do recreio, ela escorregava pelo chão e depois eu ia buscá-la ao outro extremo do pátio. Queria que ela se estragasse para poder ter uma mais leve... mas nunca o consegui!!! a pasta durou anos, e anos, e anos... sempre impecável... os cantos não estavam a desfazer-se, a mola para fechar continuava operacional e a pega da pasta firme, mas firme!!!! e a pasta acompanhou-me sempre, durante o meu percurso escolar do 1º ano do preparatório ao 5º ano do liceu.
À tarde, quando vinha do colégio, e passava no Rossio, encontrava-me muitas vezes, mesmo quase todos os dias, com o meu tio Zé Varela, que saía religiosamente às 18 horas do escritório , onde era escriturário e se dirigia para casa. Íamos juntos de regresso. Ele andava sempre um livro debaixo do braço, pois a leitura era um dos seus melhores passatempos. Tinha uma postura muito elegante, alto, magro, cabelo preto, com o seu fato muito bem tratado, as camisas brancas impecávelmente passadas pela tia Maria Emília, as calças com um vinvo bem marcado. O meu tio interessava-se e queria saber como me tinha corrido o dia, e quando eu começava a falar sobre o meu dia na escola, ele começava a contar-me histórias do seu tempo de menino, de adolescente e naquele tempo (1961) de pai babado com a minha prima Maria Cristina, que era uma bébé adorável, muito bonita, rechonchudinha, risonha e sempre bem disposta.
Por vezes, quando íamos no Rossio, ouvíamos o assobio muito característico e muito pessoal do meu tio Jacinto, que nos tinha visto à distância e que queria juntar-se a nós. Aquele assobio era único. Pareciam rouxinóis a cantar nas árvores. Onde quer que um deles fizesse aquele assobio já sabiam que era um irmão a chamar o outro irmão.
Hoje, 52 anos passados, ainda recordo aquele assobio. Já não o posso ouvir, pois o tio Zé já cá não está e o tio Jacinto já não o pode chamar... mas, o assobio era inesquecível, bonito, harmonioso, alegre, direi mesmo que era uma pequena peça musical; era um assobio de grande cumplicidade, muito, mas mesmo muito pessoal, o que tornava esta forma de se comunicarem única.
Mais não escrevo, mas há tanta coisa a dizer deste querido tio que tanta saudade nos deixou...
Casa Branca, 28 de Setembro de 2011
zuzu

OS MEUS TIOS E TIAS "EMPRESTADOS"

Como todos vocês, meus queridos primos e primas Falcatos, sabem, sempre chamei tio e tia aos vossos pais e mães. Ora, acontece que esse tratamento faz muita confusão a certas pessoas, sobretudo aqui da Casa Branca, e que não conseguem perceber esse elo familiar!!!
Escrevi um post sobre a Tia Natália Simões e depois disso, várias pessoas, depois de lerem o texto, me perguntaram quem é a minha tia Natália??!!! ( essas pessoas sabem que os meus pais não tiveram irmãos chamados Natália, Anibal, Jaime, Adélia, etc.!!) e daí a admiração e confusão!!!
Ontem, recebi mais um mail de uma amiga, onde me perguntava quem era a "tia Natália" pois a mãe dela, estava muito intrigada!!! Assim decidi explicar a essa minha amiga a razão de eu chamar tios e tias aos filhos e filhas da minha tia Domingas e do meu tio Zé Alves. Aqui vai o que eu escrevi:
"Olá Mariana
A minha "tia Natália" do blog é a mulher do meu tio Aníbal, irmã da prima Joaquina e da prima Joana.
Desde sempre os meus pais tiveram uma forte e estreita relação com o meu tio Zé Alves e tia Domingas, íamos lá muitas vezes almoçar, íamos a todas as festas da família, aos casamentos, a todas as ocasiões em que havia " reuinão familiar"lá estávamos nós - eu, o meu irmão e os meus pais!. Assim, eu sempre convivi muito de perto com todos eles, e desde sempre lhes comecei a chamar tios e tias, talvez por influência dos meus primos Aurita, Henrique, Jorge, Zé Manel Simões, José Carlos, etc, etc, que como eram sobrinhos de verdade, lhes chamavam tios/tias. Muitos desses meus primos eram da minha idade ( todos eles estão no meu coração e eu tenho-os como primos muito, muito próximos.). Assim, todos os filhos do meu tio Zé Alves e da Tia Domingas são meus tios e tias por adopção, mas para mim é como se fossem de verdade! Eu adoro-os a todos ( os filhos homens já todos partiram, e deixaram-me muita saudade; agora só estão as tias Olga, Natália, Maria Helena e Adélia) e todos eles sempre gostaram muito de mim.
Infelizmente, com a sua partida, eu tive grandes desgostos.
Mas, o tio Aníbal foi aquele de quem eu tive um maior desgosto pela sua morte, - uns dias antes de ele morrer, atropelado na estrada para Elvas, eu tinha estado com ele no lançamento do seu novo livro. Sempre foi uma pessoa muito dada à vida intelectual e por isso, estavam lá muitos artistas, gente do teatro, agora não me lembro dos nomes, é um que faz telenovelas que tem a cara toda manchada, (Canto e Castro?) outra artista que faz telenovelas e cinema ( Gina Maria?) , escritores, como o Cardoso Pires e outros, políticos, etc.
Como o meu tio Aníbal era muito próximo dos meus tios Maria Helena e Jacinto , quando iam ao cinema, visitar uma romaria ou uma aldeia ou outras manifestações artísticas, eu ia com eles. ( Em casa dos meus tios, eu ouvi, pela primeira vez, o disco do Zeca Afonso, na altura, proibidíssimo, "os Vampiros! ( isto passa-se em 1959!!)".
O meu tio Aníbal transmitiu-me ideias e conhecimentos sobre cinema, literatura, pintura, etc. política, etc… cujas sementes ainda estão em desenvolvimento dentro de mim. Ainda hoje, adoro tudo o que se relacione com arte, com manifestações artísticas, como ver exposições, ir a concertos, olhar uma paisagem (real) do Alentejo, apreciar a boa gastronomia portuguesa, etc. etc. tudo graças ao convívio estreito que sempre tive com ele e com a minha tia Natália.
Quando fui estudar para Estremoz, tinha 11 anos ( 1959), acabados de fazer, era uma frequentadora da Livraria Aníbal. Como sempre adorei ler, quando saía um livro de um grande escritor estrangeiro ou português, que se adequasse à minha idade, o meu tio Aníbal dizia-me logo para eu o ler. "Eu tinha uma conta aberta lá, e aos fins de semana o meu pai ia lá pagar!" como vês tudo isto me tornou na pessoa que hoje sou... afinal é através do exemplo daqueles que nos rodeiam, que nós crescemos, nos educamos e nos tornamos "parecidos" com quem convivemos... Bem, que grande discurso!!! às vezes sabe-me bem, falar e escrever sobre aqueles que "moldaram" a minha personalidade, que contribuíram para a pessoa que sou hoje...
Beijos à tua mãe.
Beijos da amiga Zuzu
2008/9/18 

Pois é, meus queridos primos e primas, é por tudo isto e muito mais ( que um dia escreverei!) que eu vos adoro a todos e todas. Agora, por acréscimo, adoro os vossos filhos e vossas filhas, e fico muitooooooooo contente quando sei que uma delas está grávida, e que vai nascer mais uma Falcatinha!!!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Trabalhos arqueológicos na anta-capela de Pavia

ANTA-CAPELA DE PAVIA













Uma equipa de arqueólogos da Universidade de Évora, dirigida por Leonor Rocha, vai estar até à próxima quarta-feira em trabalhos arqueológicos na mais significativa anta-capela de Portugal, localizada em Pavia.


Aquele monumento funerário pré-histórico, com mais de 5000 anos de idade, foi adaptado a templo católico durante a Idade-Média. Tudo aponta para que durante o domínio árabe também ali tivesse funcionado um espaço de oração. 



A anta-capela de Pavia, classificado como Monumento Nacional, é agora objeto de investigação arqueológica para identificação da primitiva entrada e respetivo corredor de acesso. Procuram-se, igualmente, elementos que possibilitem uma datação absoluta do monumento e que se possa estabelecer com precisão as diferentes funcionalidades que teve até ao presente.


Recorde-se que a Anta-Capela de Pavia foi o primeiro monumento megalítico referenciado na bibliografia histórica. Manuel Severim de Faria (séc.XVI), na sua obra “Notícias de Portugal”, já mencionava a anta-capela de S. Dinis ou S. Dionísio, como também é conhecida, e que se localiza no centro histórico da vila alentejana de Pavia.



(Local.pt)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

LÍDIA JORGE

Qual a razão de aparecer aqui este texto de Lídia Jorge, perguntarão os meus leitores?? Porque fui aluna da Professora Lídia Jorge e gostava muito das suas aulas, da sua maneira suave, tranquila e serena de transmitir conhecimentos. Por vezes, a sua serenidade  não me deixava ver a mulher escritora, a mulher que através dos seus livros, oferece  uma escrita que me prende  desde a primeira página. Apropriei-me deste texto, porque me revejo nele... completamente...

Nascidos para Ler  

2007-11-05 17:31:34
Em que dia nos transformámos em leitores para sempre? Cada um de nós lembrará a sua história. Recordará um colo, um abraço, um livro colocado na mão de alguém, uma estante, um professor, uma certa noite, um certo dia. Aquele momento e aquela hora em que se associou uma voz humana com a capacidade de multiplicar imagens infinitas dentro da cabeça, e de permeio estavam folhas escritas. Alguém que de súbito põe a mão na máquina que roda o filme das letras, e o cinema começa a correr por dentro da nossa vida. Alguém que depois nos coloca diante duma estante e nos diz – Aqui tens, tantos seres humanos quanto as lombadas, tantos filmes quantas as páginas. És um homem livre.
Em que dia, então, nos transformámos em leitores para sempre? Em que dia começámos a nascer para ler? Em que mês do ano aconteceu esse acaso da multiplicação dos Espaços dentro das nossas vidas? Ao mesmo tempo Ulisses e os cinco Compson?
Faço estas perguntas e estou a pensar numa ideia nova, talvez a única ideia revolucionária que desde as últimas décadas a Europa foi capaz de criar. Que se conheça, a única que tem como sujeito um homem novo. É a ideia maravilhosa de que todas as crianças do Mundo devem ser concebidas como seres nascidos para ler. O que equivale a dizer que a leitura deve ser elevada à categoria duma segunda natureza da pessoa. E que a sociedade deve promovê-la como um elemento tão importante quanto se lhe reconhece o direito a uma família ou um alimento. A ideia de que esse direito imprescindível deve ser promovido pelos Estados e por todos aqueles que sabem que a leitura amplia a vida, como um dever de contágio formidável. Esta, sim, é uma ideia de Futuro e aponta para um novo paradigma de instrução para a Liberdade, no momento em que se desenham no horizonte rumores de pensamentos únicos e amnésias planificadas. O que os novos planos de leitura, que hoje em dia se implantam um pouco por toda a parte, trazem de novo é isso mesmo - Servem para proporcionar a hipótese de que esses momentos inaugurais de encontro com um livro colocado entre os olhos da criança e o abraço, se multipliquem, uma e outra vez, se prolonguem, mudem de local e de suporte, mudem de figuras e de géneros, mas que estejam sempre lá. À espera do acaso. O que significa que proporcionar esse acaso se transformou num dever. E porque não dizê-lo? - Para muitos países, como o nosso, talvez esta seja uma oportunidade única para nos transformarmos da antiga nação que somos com relutância à leitura, numa sociedade aberta, moderna, civilizada pelos livros.

Lídia Jorge    

   http://www.lidiajorge.com/post.php?id=63&post=6

sábado, 21 de setembro de 2013

Las últimas composiciones de Violeta Parra (Completo) - Violeta Parra

PORQUÊ ESCREVER SOBRE VIOLETA PARRA?

Porque desde muito nova me foi dado a oportunidade de conhecer a sua obra discográfica, em casa do meu tio Jacinto, homem de grande cultura, apaixonado por tudo  o que fosse boa música, grandes interpretes e pessoas que viveram sempre com o objectivo de tornar melhor o mundo em que vivemos .
Por isso, desde sempre ouvi Violeta Parra e ainda adolescente, as suas canções davam-me um enorme prazer a ouvi-las e percebia que a sua mensagem era uma mensagem forte, carregada de uma consciência política e humanitária.
Ainda hoje, quando a ouço cantar, (por isso quis partilhar convosco duas das suas melhores canções!) me sinto arrebatada pelo som melodioso da sua voz, pela forma convicta que ela utiliza para transmitir as suas ideias... adoro ouvir Violeta Parra.
Fui á Wikipédia buscar informações biográficas, pois não sabia muito bem quem era e foi Violeta Parra. Fiquei ainda mais a admirá-la, pois foi uma mulher forte, revolucionária e apaixonada, características que eu entre muitas outras qualidades, admiro numa mulher.
Bem Haja Violeta Parra por me proporcionares com as tuas canções momentos de verdadeiro e puro prazer

VIOLETA PARRA - MULHER E REVOLUCIONÁRIA

Violeta Parra
Violeta del Carmen Parra Sandoval (San Carlos4 de outubro de 1917 — Santiago do Chile5 de fevereiro de 1967) foi uma compositoracantora,artista plástica e ceramista chilena, considerada a mais importante folclorista daquele país e fundadora da música popular chilena.

Biografia

Nasceu em San Carlos, província de Ñuble. Realizou seus estudos escolares até o segundo ano do secundário, abandonando-os em 1934, para trabalhar e cantar com seus irmãos em bares e circos, desenvolvendo uma importante carreira musical, como autodidata, a partir dos 9 anos.

Em 1938, casou-se pela primeira vez e dessa união, teve dois filhos, Isabel e Ángel, que também viriam a se tornar compositores e intérpretes importantes.
Viveu em Valparaíso entre 1943 e 1945, e voltou a Santiago, para cantar junto com seus filhos. Em 1949 voltou a se casar e teve duas filhas dessa nova união. Em 1952 começou a pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais que a fariam famosa. Em 1954, quando já tinha o seu próprio programa de rádio, começou um rigoroso estudo das manifestações artísticas populares. Durante o ano de 1955 visitou a União SoviéticaLondres e Paris, cidade onde residiu por dois anos. Realizou gravações para a BBC e os selos Odeón e "Chant du Monde". Em 1957 radicou-se em Concepción, voltando a Santiago no ano seguinte para começar sua produção plástica. Percorreu todo o país, recompilando e difundindo informações sobre o folclore. Em 1961, mudou-se para a Argentina, onde fez grande sucesso com suas apresentações. Voltou a Paris e ali permaneceu por três anos, percorrendo várias cidades da Europa, destacando-se suas visitas a Genebra. Em 1965 voltou ao Chile, viajou para a Bolívia e, ao regressar a seu país, instalou uma grande tenda na comuna de La Reina, com o plano de convertê-la em um centro de referência para a cultura folclórica do Chile, juntamente com os filhos, Ángel e Isabel, e os folcloristas Patricio Manns, Rolando Alarcón e Víctor Jara, entre outros. No entanto, a iniciativa não obteve sucesso.
Emocionalmente abatida pelo fracasso do empreendimento e pelo dramático final de um relacionamento amoroso, Violeta Parra suicidou-se em 5 de fevereiro de 1967, na tenda de La Reina.

Política

Violeta Parra pode ser considerada a mãe da canção comprometida com a luta dos oprimidos e explorados, tendo sido autora de páginas inapagáveis, como a canção "Volver a los 17", que mereceu uma antológica gravação de Milton Nascimento e Mercedes Sosa. Outra de suas canções, "La Carta", cantada em momentos de enorme comoção revolucionária, nas barricadas e nas ocupações, tem entre os seus versos o que diz "Os famintos pedem pão; chumbo lhes dá a polícia". Mas suas canções não apenas são marcadas por versos demolidores contra toda a injustiça social. O lirismo dos versos de canções como "Gracias a la vida" (gravada por Elis Regina) embalou o ânimo de gerações de revolucionários latino-americanos em momentos em que a vida era questionada nos seus limites mais básicos, assim como a letra comovedora de "Rin de Angelito", quando descreve a morte de um bebê pobre: "No seu bercinho de terra um sino vai te embalar, enquanto a chuva te limpará a carinha na manhã".

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A MINHA MARTA: O avô Vitalino foi à tua procura nas nuvens do Alentejo

A MINHA MARTA: O avô Vitalino foi à tua procura nas nuvens do Alentejo...: Minha Marta Faz hoje  um mês, dia 2 de Agosto de 2013 que o avô Vitalino foi fazer-te companhia. Penso que já se encontraram os dois n...

A CASA VAZIA...

A CASA VAZIA DOS MEUS PAIS QUE NELA HABITARAM 65 ANOS 
A casa dos meus pais está fechada  desde que o meu pai Vitalino partiu e a minha mãe Amélia veio para minha casa. Entro, o vazio e o silêncio reinam ali. Tudo está no seu lugar, nada se alterou, no entanto, quando entro vejo que a casa está vazia, triste, escura, sózinha... as cadeiras onde todos os dias se sentavam à volta da camília, estão ali, postas à espera que os donos da casa regressem e se sentem tranquilamente a ver a televisão, a comer, a conversar. A casa de jantar onde sempre podíamos encontrar o pai Vitalino entusiasmado com o programa do Preço Certo, do Portugal em Directo e dos Batanetes, que o faziam rir, naquele rir fácil que sempre teve.
Eu chegava e estavam os dois sentados a ver o programa, depois do beijo da chegada, eu sentava-me disposta a fazer-lhes companhia, e a minha mãe começava a conversar comigo, enquanto o meu pai continuava entusiasmado com o programa que estava a ver. O som da televisão estava alto, pois o ouvido do meu pai já não estava nas melhores das formas, as palavras dos apresentadores interferiam com a nossa conversa, então a  minha mãe dizia logo: " Oh Vitalino, baixa isso!!! estás a levar tanto tempo a baixar o som!!!!" ao mesmo tempo que lhe fazia gestos para que ele baixasse o som... e o meu pai, com os seus 90 anos, procurava o comando, com a mão a tremer, procurava o botão do volume, e tudo isto era feito com ele a olhar entusiasmado para a televisão... a minha mãe não desarmava: " Vitalino, estás a levar tanto tempo!! baixa lá o som!"  e ele,coitado, fazia o que a minha mãe lhe pedia... então eu via que ele ia perder o melhor do programa e dizia a minha mãe: " Oh mãe!! nós é que estamos a conversar e a incomodar o pai!!... vamos para a cozinha!!!.... o pai está tão entusiasmado com a televisão!!..." Umas vezes íamos mesmo para a cozinha para conversarmos e o deixarmos à vontade com os seus programas preferidos, outras vezes a minha mãe levava a melhor, de tal maneira, que o meu pai na sua calma e tranquilidade que lhe eram características desligava a televisão. Então, nós as duas dizíamos em unissuno:" Oh pai! oh Vitalino! não era preciso desligar a televisão!!! era apenas baixar o som!!!"  e o meu pai, na sua postura habitual calma e bonacheirona dizia: " Não faz mal! o programa não me estava a interessar!" e tentava convencer-nos de que era mesmo verdade.... que não estava interessado... contudo, passados uns cinco minutos já estava a ligar de novo a televisão, na sua maneira muito peculiar de pegar no comando, com a sua mão trémula, elevava o braço e apontava o comando para a televisão enquanto carregava com toda a força nos botões ...
Assim, era muitas e muitas das vezes em que eu ia vê-los, por volta das seis horas da tarde, depois de se terem levantado da sesta e de terem lanchado o seu chá quente com bolos, bolachas ou broas. 
Hoje, entro na casa vazia, rodeada de silêncio, acendo as luzes, pois não quero abrir as janelas, e entro nos quartos, na sala, na cozinha, na loja e o cheiro dos meus pais que habitaram aquela casa 65 anos, perdura nela, nas roupas penduradas nos roupeiros, nas gavetas cheias  com as suas roupas e os seus objectos pessoais  e vejo que a casa nunca mais será a mesma, nunca mais o som da televisão se sobreporá às nossas conversas...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

MANDALAS ABUNDANCIA MÙSICA SHAMAN ABUNDANCE MANDALA MUSIC SHAMAN 頂禮豐富音樂薩滿

DIAS... TRISTES

Dos 365 dias do ano, grande parte deles são passados sem quaisquer acontecimentos relevantes... alguns dias são passados com indiferença, sem olhar a passagem do tempo, chegando à noite e vendo que nada fiz nem nada aconteceu de interessante... noutros a angústia e a tristeza entranham-se nos segundos dos dias e nesses eu sinto-me mal, angustiada e triste, por vezes sem uma razão aparente... noutros dias acontecem coisas muito importantes , que deixam a marca, de tal maneira forte que nunca mais esquecemos a data... foi assim no dia 2 de Julho.
Sem que nada o fizesse prever, o meu pai que dormia a sesta, sentiu-se mal, chamei o INEM que o transportou para o hospital, pois via-se que o meu pai não estava nada bem. Recordo-o a ser levado na maca, a tentar dizer-me qualquer coisa, que não sei o que seria, e os bombeiros a recolocarem-lhe a máscara do oxigénio que ele tinha tirado para poder falar comigo. 
Nunca pensei que seriam aqueles os últimos minutos que via o meu pai com vida; pensava que ele regressaria recuperado da indisposição que ele sentia... mas o seu coração não resistiu e a meio do caminho, na estrada de Santo Amaro a ambulância teve que parar, chamaram os paramédicos e tentaram ali, debaixo de um sol abrasador, num dia quentíssimo de verão, reanimá-lo. Não conseguiram que o seu coração voltasse a bater, assim, ele deu o seu último suspiro longe dos que ele amava... é assim que agora morremos.... sem uma mão amiga e reconfortante, que aperte a nossa para dizer adeus... para dizer que partimos para sempre... 
É tão estranho saber que não nos despedimos, que não dissemos a última palavra de conforto... 
Como tenho sentido a sua falta... palavras de amor ficaram por dizer... palavras que lhe dariam conforto no seu último suspiro... em quem pensaria ele, qual de nós, os mais próximos, teriam feito parte dos seus últimos pensamentos?
Mãe Amélia, Pai Vitalino e Zuzu, última foto do pai Vitalino
 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

citação

A vida do homem é o que os seus pensamentos fazem dela

Marco Aurélio (Imperador Romano)

palavras de um sofredor

Tu podes compreender a minha dor, mas eu é que a sinto!!!!

Madrileno a um jornalista no atentado de Atocha em 11/3/2005

Como um livro aberto: Quando não se sabe que o céu pode ser ainda mais negro

Como um livro aberto: Quando não se sabe que o céu pode ser ainda mais negro

Palavras de Mário Quintana

TEXTOS E PENSAMENTOS de Mário Quintana Nasceu em 30/7/1906    Faleceu 5/5/1994
A MINHA PANTUFA

Poeminha do contra
Todos esses que aí estão atravacancando meu caminho,
Eles passarão...  Eu passarinho!
 A arte de ser bom
Sê bom; mas ao coração prudência e cautela ajunta. Quem todo de mel se unta, os ursos o lamberão
 O milagre
Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia e do lábio amigo brotam palavras de eternp encanto
Dias mágicos em que os burgueses espiam, através das vidraças dos escritórios, a graça gratuita das nuvens.
 Quem não compreende um olhar, tão pouco compreenderá uma longa explicação.
Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo.
 O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores .
Cada pessoa pensa como pode...
Os verdadeiros analfabetos são os que aprendem a ler e não lêem...
O tempo é a insónia da eternidade.O despertador é um acidente  de tráfego do sono.

Sentir primeiro , pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, , cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois .

Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais. O excesso de gente impede de ver as pessoas...
Não importa saber se a gente acredita em Deus: o importante é saber se Deus acredita na gente.
O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você.
Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove – não poderão ir para o céu! Lá faz sempre bom tempo!
A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe...
Reflexão de Lavoisier ao descobrir que lhe tinham roubado a carteira: Nada se perde, tudo muda de dono.
O Ruim dos filmes de farwest é que os tiroteios acordam-nos no melhor do sono


domingo, 14 de julho de 2013

Amália Rodrigues - Grito

A MEU PAI


PAI VITALINO E ZUZU
A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Mix do YouTube (lista de reprodução)


Mix do YouTube (lista de reprodução)



O grito

Amália Rodrigues

Silêncio!
Do silêncio faço um grito,
Que o corpo todo me dói.
Deixai-me chorar um pouco...

Sombra, à sombra,
A um céu, tão recolhido
De sombra assombrada
Já lhe perdi o sentido.

Ó céu!
É que me falta luz,
É que me falta uma estrela.
Chora-se mais,
Quando se vive atrás dela.

E eu,
A quem o céu esqueceu,
Sou eu que o mundo perdeu.
Só choro agora
Por quem morre e já não chora.

Solidão!
Que nem mesmo essa é inteira,
Há sempre uma companheira:
Uma profunda amargura.

Ai, solidão!
Que me fora escorpião!
Ai, solidão!
E se mordera a cabeça!

Deus!
Já fui pra além da vida!
Do que já fui, tenho sede!
Sou sombra triste
Encostada a uma parede.

Adeus!
Vida que tanto duras!
Vem morte,
Que tanto tardas!
Ai, como dói
A solidão, quase loucura!

Link: http://www.vagalume.com.br/amalia-rodrigues/grito.html#ixzz2UjQiw4DT

AMÁLIA RODRIGUES

Foto de Amália Rodrigues

Grito - Amália Rodrigues


Jorge Salgueiro & Risoleta Pedro - Conquista-me


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Quando a morte não mata

Quando a morte não mata  (Poema publicado por José Manuel Varela  de Almeida
Eu não tenho muito jeito para as palavras, mas o meu Tio José Varela, tinha um dom especial para as colocar no papel. Quero deixar aqui um Poema que foi escrito por ele em 1987 após a morte de sua Mãe, nossa Avó, Barbara Falcato Varela, que é lindíssimo e que agora dedico a ele também.

O teu corpo morreu, mãe...
Só o teu corpo.
E porque, eu compreendo agora
Que um corpo morre quando a alma não cabe nele.
Almas grandes e nobres como a tua,
Sufocam, prisioneiras, das grades do corpo.
E libertam-se.
E a tua libertou-se.
E agora que o teu corpo ficou vazio, mãe,
- E porque tão viva vives dentro de mim -
Absurdo, pôr mais em dúvida a imortalidade da alma.
Mesmo o teu corpo não perecerá em vão:
Em paulatina osmose ele regressará à terra,
(À terra que ele já foi e de onde tudo vem,
A terra que guarda em si a génese de todas as coisas)

E viverá nas plantas...
E viverá nas flores...
E viverá nos frutos;
Nos frutos que darão a vida aos pássaros.
Logo, mãe, eu concluo:
A natureza é a sublimação das coisas,
E eu tenho-te agora maior do que tudo no Mundo.
Do tamanho do Universo.
Estarás agora em tudo,
E no nada,
E na natureza.

E nela viverás em cada Primavera
Que se renova,
Sempre. Sempre. SEMPRE!

MENINAS MASCARADAS

Ao centro a Marianita ( Mariana Alves Mira), filha da Tiasinha ( Monica, irmã mais velha do Tio Zé Alves). À esquerda, suponho, a Maria Guiomar , filha do Tio João Alves e à direita talvez uma prima da Maria Guiomar, enfim estes nomes também dizem muito pouco ou nada à maior parte de vós.



Como era diferente o carnaval nesta altura, e nem pensam como senti o tempo que passou ao escrever " anos 20 do século passado" e na minha memória ter muito vivas as pessoas que viveram este tempo.

AVÔ ANÍBAL

Avô Anibal - Parte I    (Texto da Ana Alves)

CASAMENTO DO TIO ANÍBAL E DA TIA NATÁLIA SIMÕES
O único Falcato com que privei ao longo da minha vida, era um Falcato arraçado de Alves, um Falcat'Alves, e era meu avô. Como não sei muitas estórias de Falcatos, apenas posso contribuir com as deste Falcato, o arraçado.
Lembro-me dele sempre meio velho, de barbas, barrigudo, careca (havia até uma gaiata parva lá na rua, que lhe chamava Pai Natal, que eu achava absurdo, o Pai Natal era a MariFelismina...), e a tremer... E o que ele tremia... Lembro-me que de manhã ele ia sempre levar o leite com nesquik e miluvit à minha avó, e não era preciso ser-se um Sherlock Homes para descobrir exactamente o caminho percorrido por ele, bastava seguir as gotas de leite, e eu um mini Watson, lá ia atrás dele com uma esponja na mão a limpar.
Era o meu avô que me acordava todas as manhã para eu ir à escola. Durante a semana, acordava-me da seguinte maneira: enfiava-me a mão debaixo dos lençois e procurava um pé, assim que o descobria, desatava a puxar-me os dedos, a fazer cócegas, a puxar os dedos, a puxar, e eu, a encolher-me, a encolher, até que ficava toda deitada só na almofada e dizia "já acordei!!", e ele ia todo contente preparar o leite com nesquik e miluvit para a minha avó. Quando chegava o fim-de-semana, era diferente, a especialidade era outra. Imaginem-se a dormir profundamente, e quando menos estão à espera, PIMBA, um saco gorduroso com cheiro a brinhol, vulgo farturas, e cheio de brinhol na cara. Era extraordinário, por mais que eu o tentasse enganar, ou esconder a cara, ele acertava sempre, eu tinha mesmo que levar com aquele saco na cara pela manhã, escusado será dizer que ainda hj o brinhol não é o doce de feira que mais me encanta...
publicada por Rosa Albardeira

O BLOG DOS FALCATOS A NU... ESPERO QUE ME PERDOEM...

Tenho uma explicação a dar aos meus queridos familiares que escrevem como eu no blog "Falcatos a nu..."
Há muito tempo que este blog está praticamente inactivo, o que é uma pena, pois há textos e fotos de família que eu não queria perder de todo. Assim, tomei a ousadia de ir buscar alguns posts ao blog e colocá-los aqui no meu. Penso que não vão ficar zangados comigo, pois esta atitude é como já anteriormente disse, uma forma de não deixar que belíssimos textos caiam no esquecimento. As fotos de tantos acontecimentos que vivemos juntos são uma forma de mostrar como somos uma família unida e divertida.
as minhas desculpas
zuzu