terça-feira, 22 de julho de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
DOCE AMÉLIA
DOCE AMÉLIA
Quis fazer-te uma poesia
Lindas palavras diria
Mas não tive inspiração.
E por mais simples que fosse
O coração só me trouxe
Por ti, grande admiração.
Implorei com sentimento
Palavras vindas do vento
Pr’aquela mulher formosa.
Apesar da sua idade
Guarda ainda mocidade
E é linda como uma rosa.
Qu’importa os cabelos brancos
Olha! Não são assim tantos
E as rugas que o rosto tem.
Só tens é que ter vaidade
Pois tiveste a felicidade
De seres mulher e seres mãe.
Não tenhas pena Amelinha
De já não seres garotinha
Como ainda querias ser.
O tempo passa e não pára
E a gente nunca repara
Que a vida é água a correr.
Com amor
Lúcia Cóias
Estremoz, 25 Junho 2014
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Lucia Cóias
domingo, 22 de junho de 2014
CANÇÃO DE UMA SOMBRA
Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar, para ouvir a voz das coisas,
Eu não era o que sou.
Se não fosse esta fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou...
E este sol, que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.
Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluído mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.
E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.
Ah, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombra provocou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.
Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as assas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos,
Eu não era o que sou.
Teixeira de Pascoaes
in Primeiro livro de poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen
CARIDADE
Caridade é, sobretudo, amizade.
Para o faminto - é o prato de sopa.
Para o triste - é a palavra consoladora.
Para o mau - é a paciência com que nos compete auxiliá-lo.
Para o desesperado - é o auxílio do coração.
Para o ignorante - é o ensino despretensioso.
Para o ingrato - é o esquecimento.
Para o enfermo - é a visita pessoal.
Para o estudante - é o concurso no aprendizado.
Para a criança - é a protecção construtiva.
Para o velho - é o braço irmão.
Para o inimigo - é o silêncio.
Para o amigo - é o estímulo.
Para o transviado - é o entendimento.
Para o orgulhoso - é a humildade.
Para o colérico - é a calma.
Para o preguiçoso - é o trabalho.
Para o impulsivo - é a serenidade.
Para o leviano - é a tolerância.
Para o deserdado da Terra - é a expressão de carinho.
Caridade é amor, em manifestação incessante e crescente.
É o sol de mil faces, brilhando para todos, e o gênio de mil mãos, amparando, indistintamente, na obra do bem, onde quer que se encontre, entre justos e injustos, bons e maus, felizes e infelizes.
Autor desconhecido
Para o faminto - é o prato de sopa.
Para o triste - é a palavra consoladora.
Para o mau - é a paciência com que nos compete auxiliá-lo.
Para o desesperado - é o auxílio do coração.
Para o ignorante - é o ensino despretensioso.
Para o ingrato - é o esquecimento.
Para o enfermo - é a visita pessoal.
Para o estudante - é o concurso no aprendizado.
Para a criança - é a protecção construtiva.
Para o velho - é o braço irmão.
Para o inimigo - é o silêncio.
Para o amigo - é o estímulo.
Para o transviado - é o entendimento.
Para o orgulhoso - é a humildade.
Para o colérico - é a calma.
Para o preguiçoso - é o trabalho.
Para o impulsivo - é a serenidade.
Para o leviano - é a tolerância.
Para o deserdado da Terra - é a expressão de carinho.
Caridade é amor, em manifestação incessante e crescente.
É o sol de mil faces, brilhando para todos, e o gênio de mil mãos, amparando, indistintamente, na obra do bem, onde quer que se encontre, entre justos e injustos, bons e maus, felizes e infelizes.
Autor desconhecido
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caridade
QUANDO FORES VELHA
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.
When You Are Old - Yeats
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YEATS
sábado, 21 de junho de 2014
QUADRA
Quem ganha três e gasta quatro
Não precisa de bolsa nem saco
D. Esperança (87 anos )
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Esperança
QUADRAS DA QUINTA-FEIRA DA ASCENÇÃO / ORAÇÕES DIVERSAS
Quinta-feira da Ascenção
É que se arranjam amores
Quando o trigo está em chão
E todo o campo cheio de flores
Levantei-me um dia cedo
Quinta-feira da Ascenção
Encontrei Nossa Senhora
Com um raminho d’ouro na mão
Quinta-feira da Ascenção
Toda a erva tem virtude
Quis amar teu coração
Fiz excepção, mas não pude
Quinta-feira da Ascenção
Fiz um risco na parede
Amei o teu coração
Deixá-lo também não hei-de.
*****************
Encontrei Nossa senhora
Quinta-feira da Ascenção
Pedi-lhe uma florinha
Ela me disse que não
Eu lhe tornei a pedir
Deu-me o seu divino cordão
Pintador que tão bem pintas
Pinta-me este divino cordão
Que me deu Nossa Senhora
Quinta-feira da Ascenção
*******************
Levantei-me um dia cedo
Espetei um pico no pé
Bradei a Nossa Senhora
Acudiu-me S. José
S. José foi lá acima
Acender seu candeeiro
Encontrou Nossa Senhora
Com o Menino Verdadeiro
***************
Levantei-me um dia cedo
Por um grande mistrério que havia
Encontrei o Padre Santo
Rezando à Virgem Maria
Padre Santo me procurou
Como ficou por lá Maria?
Ficou numa cama de ouro
Coberta de seda fina
Ainda isso não é nada
Para o que Maria merecia
O sangue dela corria
Para o Cálice consagrado
Quem esta oração rezar quatro almas há-de salvar, a 1ª é a
sua, a 2ª de sua mãe, a 3ª de seu pai, a 4ª de quem mais bem lhe quiser
Amem
*******************
Padre Nosso pequenino
Tem a chave um anjinho
Quem lha deu quem lha daria?
Foi o Filho de Deus
E da Virgem Maria
Já os galos cantam
já os anjinhos se levantam
Já o Deus subiu à cruz
para sempre Jesus
Amem
***************
Oração para a Erzipela ( Erisipela )
Pedro Paulo foi a Roma
Jesus Cristo encontrou e lhe procurou:
De que mal morrem por lá?
De Erzipela, ersiplá
Volta atrás Pedro Paulo
Com este esparto* benzerás
Olho lito** curarás
Fique em louvor da Virgem Maria
Pai Nosso Avé Maria
* corda ** azeite
Reza-se um Pai Nosso e uma Avé Maria
***********
ORAÇÃO DAS QUEIMADELAS ( queimaduras)
Santa Sabina tem sete filhas
Todas sete no fogo ardiam
A Santa, como era Santa
Pedia a Deus e à Virgem
para que este fogo apague
Mas que por adiante não lavre.
Fique em louvor de Deus e da Virgem Maria
Pai Nosso Avé Maria
D. Joaquina Carreiras( 83 anos) natural
de Almadafe
um abraço à prima Joaquina
bom que ela tenha recolhido tantas preciosidades da avó Maria da Barroca - incrível senhora
mulher de 3 maridos
e muito mais atividades
ela própria, analfabeta, tinha a sua produção própria de poesia - lembro-me disso
parabéns à ZU, pela sensibilidade de fazer esta recolha cheia de interesse antropológico
António Saias
bom que ela tenha recolhido tantas preciosidades da avó Maria da Barroca - incrível senhora
mulher de 3 maridos
e muito mais atividades
ela própria, analfabeta, tinha a sua produção própria de poesia - lembro-me disso
parabéns à ZU, pela sensibilidade de fazer esta recolha cheia de interesse antropológico
António Saias
História «O velho, o rapaz e o Burro»
A D. Mónica ( 86 anos) viva e entusiasta de ouvir e contar histórias, lembrou-se da História do Velho, do rapaz e do burro. Costumava contá-la aos netos e assim contou com todo o entusiasmo:
Vivia no monte um homem muito velho que tinha na sua companhia um neto.
Certo dia o velho resolveu descer ao povoado com o seu burro fazendo-se acompanhar
do neto. Seguia a pé o velho e sentado no burro ia o neto. Ao passarem por uma
povoação logo foram criticados pelos que observavam a sua passagem:
- O garoto que é forte montado no burro e o velho coitado é que vai a pé!
Então o velho mandou apear o neto e montou-se ele no burro. Andaram um pouco mais, e pararam numa fonte para matar a sede e aí encontraram duas mulheres a encherem os seus cântaros e elas
disseram:
- Olha para isto! A pobre criança a pé e ele repimpado no burro!
Ordenou então o velho ao neto:
- Sobe rapaz, seguimos os dois montados no burro!
O rapaz obedeceu de imediato e continuaram a viagem. Mas um pouco mais adiante um
homem enfrentou-os com indignação:
- Apeiem-se homens cruéis, querem matar o burrinho?!
O velho resolveu levar o burro às costas, com a ajuda do rapaz. Um pegou nas patas da frente e o outro pelas patas de trás. Iam eles assim, quando passaram por uns homens que andavam a trabalhar no campo e estes disseram:
- Olha, olha, que grande estupidez, levam o burro às costas!! o burro é que os devia carregar, e eles é que carregam com ele!! ah, ah, ah...
O homem e o rapaz resolveram pôr o burro no chão e o velho disse ao rapaz:
Sobe para o burro; continuamos a viagem como começámos. Está visto que não podemos calar a boca
ao mundo. Daqui para a frente faremos o que acharmos mais correcto!
Vivia no monte um homem muito velho que tinha na sua companhia um neto.
Certo dia o velho resolveu descer ao povoado com o seu burro fazendo-se acompanhar
do neto. Seguia a pé o velho e sentado no burro ia o neto. Ao passarem por uma
povoação logo foram criticados pelos que observavam a sua passagem:
- O garoto que é forte montado no burro e o velho coitado é que vai a pé!
Então o velho mandou apear o neto e montou-se ele no burro. Andaram um pouco mais, e pararam numa fonte para matar a sede e aí encontraram duas mulheres a encherem os seus cântaros e elas
disseram:
- Olha para isto! A pobre criança a pé e ele repimpado no burro!
Ordenou então o velho ao neto:
- Sobe rapaz, seguimos os dois montados no burro!
O rapaz obedeceu de imediato e continuaram a viagem. Mas um pouco mais adiante um
homem enfrentou-os com indignação:
- Apeiem-se homens cruéis, querem matar o burrinho?!
O velho resolveu levar o burro às costas, com a ajuda do rapaz. Um pegou nas patas da frente e o outro pelas patas de trás. Iam eles assim, quando passaram por uns homens que andavam a trabalhar no campo e estes disseram:
- Olha, olha, que grande estupidez, levam o burro às costas!! o burro é que os devia carregar, e eles é que carregam com ele!! ah, ah, ah...
O homem e o rapaz resolveram pôr o burro no chão e o velho disse ao rapaz:
Sobe para o burro; continuamos a viagem como começámos. Está visto que não podemos calar a boca
ao mundo. Daqui para a frente faremos o que acharmos mais correcto!
CASA BRANCA
Refrão:
A Nossa aldeia linda
e modesta
De garça Cheia é noiva sempre em festa
Viva a sua gente honesta e franca
Que a baptizou, tão
bem casa branca.
A nossa terra é
pequena
Mas é mais linda que as mais olaré
Lembra uma linda
açucena
Que nasceu entre os
trigais, tão branca é .
De manhã cedo ao
Sol-pôr
Andam risos e
cantigas pelo ar
Vão e vêm do labor
Rapazes e raparigas,
sempre a cantar.
Tem sempre um ar
prazenteiro
Com sua casas
branquinhas, como arminho
Onde há sol o dia
inteiro
E onde vão as
andorinhas fazer o ninho .
Depois ao anoitecer
Reina uma paz tão
fagueira que conforta
Descansa-se com prazer
De inverno junto à lareira, de verão à porta
![]() |
| O POÇO LARGO |
D. Teresinha Leão ( feita nos anos de 1940 para uma peça de teatro que se representou na fábrica de moagem )
Poesia ditada pela Prima Isabelinha ( 84 anos)
Etiquetas:
Casa Branca
AS CANTIGAS DE ANTIGAMENTE
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| Almoço |
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| D. Margarida e D. Joaquina Carreiras |
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| Grupo |
Ontem, como é habitual às 6ª feiras, fui ler as minhas histórias às velhotas do Lar da 3ª idade de Casa Branca. Depois de ouvirem os contos, quiseram cantar. Então, a Srª Margarida Reloja ( 82 anos) , a Srª Mónica (86 anos) , a Srª Joaquina Carreiras (84 anos) , a prima Dulce (89 anos), a prima Isabelinha ( 84 anos) , a minha mãe (86 anos), a D. Ana (92 anos) e eu cantámos cantigas que eram cantadas antigamente.
Foi um agradável momento e quanto mais cantávamos mais elas se lembravam doutras. Assim, consegui ficar com algumas letras ditadas por elas, como a que se seguem:
Margarida vai à Fonte
Margarida vai à fonte (bis)
Vai encher a cantarinha (bis)
Brotam lírios pelos montes
Margarida vai à fonte,
Margarida vai à fonte e vem sozinha
É tão linda a casa dela (bis)
Tem aspectos no jardim
Os canteiros na janela
Tão bonitos como ela
Têm aroma a alecrim
Cantiga do MAIO
A D. Ana (92 anos) é do Ervedal. Gosta muito de cantar. Contou que no seu tempo de juventude, no dia 1º de Maio, grupos de raparigas, com flores campestres nos cabelos, cantavam pelas ruas, ao Maio
Oh Maio, oh Maio das barrocas
Para onde vai o Maio
Para estas cachopas
Oh Maio, oh Maio das solteiras
Para onde vai o Maio
Para essas barreiras
A 13 de Maio
A 13 de Maio na Cova da Iria
No céu apareceu a Virgem Maria
Avé, avé avé Maria
Avé, avé, avé Maria
A 13 de Outubro foi o seu adeus
A Virgem Maria voltou para os céus
Avé avé avé Maria
Avé, avé, avé Maria
A Virgem nos manda o terço rezar
Dizendo que o terço nos há-de salvar
Avé, avé avé Maria
Avé avé avé Maria
Foi aos pastorinhos que a Virgem falou
desde então nas almas nova luz brilhou
Avé, avé avé Maria
Avé avé avé Maria
OS ACABAMENTOS
OS ACABAMENTOS
Nas casas dos grandes lavradores, durante os meses de inverno, grandes ranchos de mulheres e homens andavam na apanha da azeitona.
Quando terminavam de apanhar o último olival, faziam o acabamento. O patrão oferecia um borrego para fazer um ensopado ou outra coisa para comerem, um garrafão de 5 l de vinho, e iam comer para um barracão do patrão.
Vinham do campo, com um arco feito de rama de oliveira enfeitado com flores do campo e em grupo percorriam a pé as ruas da aldeia. Cantando a cantiga dos acabamentos.
Maria do Carmo, linda padroeira
Dá-me quatro figos, olaré sim, sim, da tua figueira
Ah sim, sim há mais quem queira
Gorou, gou gou o galo cantou
O galo cantou, Deixá-lo cantar
Maria do Carmo olaré sim, sim hei-de-te amar
Ah sim, sim há mais quem queira
gorou gou gou o galo cantou.
![]() |
| OLIVAL |
Etiquetas:
acabamentos
O EXAME DA 4ª CLASSE
![]() |
| Maria Zulmira, Maria Augusta Anica, Elisabete Borralho |
O EXAME DA 4º CLASSE
Quando chegava o mês de Junho,
era a época dos exames. Os meninos e meninas que frequentavam a 4ª classe, tinham
que se deslocar à escola de Sousel, para fazerem o exame. Era uma coisa de grande
responsabilidade. Muitos poucos de nós tínhamos saído aqui da aldeia, por isso,
ir fazer exame a Sousel, era um acontecimento. Espaço e professores
desconhecidos, que nos impunham muito receio e respeito. Nem para os
professores nós tínhamos coragem de olhar!! A timidez era enorme.
Deslocávamo-nos como podíamos,
mas a maior parte ia no carro do Sr. Zé Delfino. Vestíamos os nossos melhores vestidos
de verão, sandálias de couro feitas nos
sapateiros da aldeia, e lá íamos nós, de manhã muito cedo. A prova escrita era
da parte da manhã, e da parte da tarde a prova oral. Uma sala enorme, com
carteiras afastadas umas das outras, onde nos sentávamos dois a dois. Era expressamente
proibido olhar para a prova do companheiro. As professoras cirandavam pela
sala, com um ar de grande solenidade e
de grande tensão.
Fazia sempre muito calor. As mãos
suadas, deixavam escorregar a caneta de tinta permanente ou a caneta de aparo,
que era molhada no tinteiro da carteira. As mãos escorriam água, então tínhamos
uma folha de papel branco , dobrada, que púnhamos debaixo da mão, e que ia
acompanhando a progressão da escrita. Alguns, mais nervosos, deixavam cair um
borrão de tinta em cima da prova, o que desfeava a mesma. Começavam a chorar,
por lhes ter acontecido aquilo que mais temiam. Tanto que a professora
recomendou que pusessem pouca tinta no aparo, para que não houvesse borrões!!!
Não me lembro onde almoçávamos,
mas lembro-me de no fim do dia comer um gelado no quiosque do jardim.
Depois das provas realizadas,
chegávamos a Casa Branca por volta das 4 ou 5 horas da tarde. O grupo dos
alunos e das alunas que fizeram exame começava a percorrer as ruas da aldeia e a a cantar esta cantiga
Bate palmas, bate
palmas
Amor aperta-me a mão
Tenho a sina de ser
tua (bis)
Mas por hora ainda
não (bis)
Bate palmas, bate
palmas (bis)
Amor aperta-me a mão (bis)
Viva a Srª D. Amélia
Que nos deu educação
Parávamos em casa de cada
companheira, onde na casa de entrada estava a mesa posta, com pratos de bolos e
licores muito coloridos, verde, azul, vermelho, que nós bebíamos em copinhos pequeninos. Depois continuávamos a volta à aldeia e
entrávamos em casa doutra colega, e assim, íamos a casa de todas as companheiras,
sempre cantando a cantiga “ Bate palmas...”
Para a maioria das minhas
colegas, o fazer exame da 4ª classe, implicava que começariam a ter uma vida
completamente diferente da que tiveram até ali. Ou iam trabalhar no campo, ou
tomar conta dos irmãos mais novos, ou ir “servir” para casa de pessoas que tinham
criadas. No universo de 40 a 50 alunos,
éramos 10 ou 12 ( entre rapazes e raparigas) que se preparavam ( com
explicações particulares ) para fazer o exame de admissão aos liceus afim de prosseguirem os estudos nas grandes cidades.
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zuzu
terça-feira, 17 de junho de 2014
sexta-feira, 13 de junho de 2014
SÚMULA
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder
quinta-feira, 12 de junho de 2014
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