terça-feira, 17 de junho de 2014
sexta-feira, 13 de junho de 2014
SÚMULA
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder
quinta-feira, 12 de junho de 2014
domingo, 8 de junho de 2014
NOITE DA CONSOADA 2013
Não foi preciso abrir a mesa para a ceia de Natal. Este ano, na noite da consoada éramos três pessoas à mesa.
O pai Vitalino partiu no Verão. Já há alguns anos que ele não tinha muita paciência para ficar até tarde na festa da consoada. Mal comia o bacalhau com couves e batatas e as sobremesas preparava-se para se ir embora.
A mãe Amélia gostava de ficar a conversar mais algum tempo, mas como ele se punha a postos para ir para casa, dizia-lhe: " Oh Vitalino não te vás embora, que eu não quero ir sozinha!!! espera por mim!!" ele começava a abrir a porta do quintal e a minha mãe, muito à pressa vestia o casaco, pegava na bengala e lá ia a trás dele.
Era assim desde há alguns anos.
27 de Dezembro de 2013
A mãe Amélia gostava de ficar a conversar mais algum tempo, mas como ele se punha a postos para ir para casa, dizia-lhe: " Oh Vitalino não te vás embora, que eu não quero ir sozinha!!! espera por mim!!" ele começava a abrir a porta do quintal e a minha mãe, muito à pressa vestia o casaco, pegava na bengala e lá ia a trás dele.
Era assim desde há alguns anos.
27 de Dezembro de 2013
Não me apetece escrever mais...
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Natal 2013
SOLIDÃO
Música da Canção do mar
Solidão de quem tremeu à tentação
Do céu e dos encontrões que o céu me deu
Serei bem eu sobre este véu de pranto
Sem saber se choro algum pecado
A tremer imploro o céu fechado
Triste amor o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonada e não me abandonei
Por mim ninguém já se detém na estrada
Solo
Triste amor o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonada e não me abandonei
Por mim ninguém já se detém na estrada
Link: http://www.vagalume.com.br/amalia-rodrigues/cancao-do-mar.html#ixzz2UjRwGtFI
Amália Rodrigues
Solidão de quem tremeu à tentação
Do céu e dos encontrões que o céu me deu
Serei bem eu sobre este véu de pranto
Sem saber se choro algum pecado
A tremer imploro o céu fechado
Triste amor o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonada e não me abandonei
Por mim ninguém já se detém na estrada
Solo
Triste amor o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonada e não me abandonei
Por mim ninguém já se detém na estrada
Link: http://www.vagalume.com.br/amalia-rodrigues/cancao-do-mar.html#ixzz2UjRwGtFI
Amália Rodrigues
NANI MORETTI - CAIMÃO
Caimão, novo filme de Nanni Moretti
O Caimão
Título original: Il Caimano
Argumento: Nanni Moretti
Género: Comédia Dramática
Classificacao: M/12
Estúdios: BAC Films, France 3 Cinéma
FRA/ITA, 2006, Cores, 112 min.
O último filme de Nanni Moretti, uma metáfora sobre a Itália contemporânea, tornou-se num êxito de bilheteira no país, tendo estreado dias antes das eleições que afastaram do poder Berlusconi. É a história de um produtor em falência profissional e sentimental, Bruno Bonomo, que tem um passado de produtor de filmes de série Z com títulos inspiradores como "Os Mocassins Assassinos" ou "Maciste vs. Freud". Mas agora não consegue arranjar financiamento para o seu próximo projecto, "O Regresso de Cristóvão Colombo". Estrangulado pelas dívidas e fraquezas, com o casamento em risco e os filhos perdidos, Bruno perde o norte. É aí que o seu caminho se cruza com o de uma jovem realizadora que lhe entrega um guião, "O Caimão". A princípio Bruno pensa que é um "thriller" musculado, mas apercebe-se numa segunda leitura mais atenta - se bem que um pouco tardia - que se trata de um filme sobre o primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Bruno já não pode recuar e vê-se obrigado a cumprir o planeado, encontrar o actor principal, enquanto tenta recolar as peças da sua vida conjugal. No entanto, em todo este novelo de erros e dificuldades, começa a nascer um novo entusiasmo em Bruno Bonomo: o da afirmação da sua dignidade. Este homem para quem tudo estava acabado encontra em si a energia para levar até ao fim um projecto que começou por acaso, mas que também ele acredita agora necessário tornar realidade.
http://cinecartaz.publico.clix.pt/filme.asp?id=155846
quinta-feira, 5 de junho de 2014
quarta-feira, 4 de junho de 2014
terça-feira, 3 de junho de 2014
sábado, 31 de maio de 2014
terça-feira, 27 de maio de 2014
DESLOCADOS
Há algum tempo que vinha a conduzir. Entrou numa povoação e apeteceu-lhe fazer uma pausa para um café. Entre as árvores que ladeavam a estrada viu um café. Parou.
Lá fora o sol era intenso. Isabel entrou. Lá dentro o ambiente era taciturno. Sentou-se; pesados reposteiros tapavam as enormes janelas. Sanefas enormes do mesmo tecido, decoradas com drapeados. Os cortinados muito compridos do tecto ao chão, eram de um tecido grosso, de seda azul ou verde escuro com flores , já bastante desbotado.. Num quarto ou numa sala talvez ficassem menos mal, mas ali não estavam a condizer com o espaço. Estavam no lugar errado. Emprestavam ao local uma estranheza.
Duas mesas estavam ocupadas, por dois casais que se via serem marido e mulher, e clientes habituais da casa.O casal de cerca de 70 anos estava tranquilamente sentado na sua mesa, bebendo o café e com ar de quem se sentia ali bem. A mulher do casal mais novo, mas também de meia idade estava calmamente a comer um bolo e a beber café.
Por detrás do balcão estava uma mulher. Teria 60 anos, a atirar para o forte, muito pouco atraente.
As feições eram regulares, nem bonita nem feia. Mas, o que mais chamou a atenção de Isabel foi o cabelo e o penteado. Liso, muito comprido, caído até ao meio das costas, pintado de preto asa de corvo, com uma raiz de cabelos brancos que teimava a aparecer uma semana depois de o pintar, risca ao meio, preso com um gancho de pedras de vidro, muito brilhantes, de cada lado, uma franja rala caída na testa.
Todo o conjunto era estranho. Nada combinava com o seu aspecto de matrona, de rosto marcado pelos anos e pela idade.
Vestia uma blusa de padrão de leopardo, de malha de seda muito justa que lhe acentuava o estômago proeminente e uma saia de crepom preta, bordada com lantejoulas e missangas, pelo joelho, onde a barriga sobressaía. Sapatos/sandália de tiras, enfiados nos pés.
A mulher parecia ter saído de uma casa de prostitutas, da bilheteira de um circo, de um lugar algures no universo....
Isabel olhava para aquela mulher de olhar triste, que discretamente e sem alarido servia os clientes; pensava: quem será esta mulher? porque se prepara e se veste de uma maneira tão diferente da maioria das mulheres da região?! Como aparece aqui num café à beira da estrada? Não deve ter sido fácil enfrentar as críticas das mulheres maldizentes da vila, que estão sempre à espreita de uma oportunidade para criticar tudo e todos. Falar da vida alheia é o que elas fazem sempre que se encontram umas com as outras.
Pagou e partiu. A mulher e o café não lhe saíam da cabeça... durante muito tempo não lhe saíram do pensamento...
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| Cortinados com sanefa como os do café |
Zuzu
Casa Branca,27 Maio 2014
Casa Branca,27 Maio 2014
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