quarta-feira, 12 de março de 2014

COMO VENCER UM OBSTÁCULO

Carmen Dolores

A actriz Carmen Dolores foi entrevistada, muito recentemente,num programa de entrevistas na televisão. Por acaso, assisti ao mesmo e tive oportunidade de ouvir esta mulher linda e lúcida nos seus 80 e alguns anos.
Quando tinha já 80 anos foi convidada a fazer uma peça de teatro e deram-lhe mais de 40 páginas de texto para decorar. Olhou para aquele número de páginas e sentiu-se impotente. Então pensou que tinha que decorar o texto custasse o que custasse e pensou a melhor forma de o fazer.
 Então pensou que tinha na sua frente um caminho cheio de pedras e de vidros partidos. Como o poderia atravessar?
A correr iria ficar com os pés todos feridos!! Dar um salto para ultrapassar o caminho seria ainda pior, pois iria partir-se toda!
Então, a melhor forma que encontrou para ultrapassar este caminho tão tenebroso e tortuoso foi: ajoelhou-se e com muita paciência começou a afastar com as mãos as pedras e os vidros espalhados no chão e muito lentamente, pôde avançar, pois já tinha o caminho limpo.
Com a sua voz calma e tranquila, Carmen Dolores continuou dizendo: "Não importa o tempo que se leva a fazer uma coisa difícil, importa que no final o resultado seja positivo e compensador."
Escrever sobre esta forma sapiente de encarar as dificuldades que se nos apresentam na  vida. Dar a conhecer esta metáfora que tão importante é, para ultrapassarmos os obstáculos que diariamente se nos colocam.

AGOSTINHO DA SILVA

"Sou um especialista da curiosidade não da especialidade"

cit por Ana Zanatti

Professor Agostinho da Silva

VELHICE

Não ultrajes a velhice
Que à porta te há-de vir ter
O que tu és, já eu fui
O que eu sou, hás-de tu ser.

O destino

O destino é aquilo que nos acontece e que nós não escolhemos

sábado, 15 de fevereiro de 2014

VERDADE....

Quando morres não te apercebes de que estás morto. 
Só é doloroso para os outros. 
Acontece o mesmo quando és estúpido.

QUANDO SE TEM 65 ANOS...

De repente tudo vai ficando tão simples, que nos assusta.
A gente vai perdendo necessidades, vai reduzindo a bagagem.
As opiniões dos outros, são realmente dos outros e mesmo que sejam sobre nós, nã
o têm importância.
Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. E, isso não faz a menor falta.
Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado e sim a vida que cada um escolheu experimentar.
Por fim, entendemos que tudo o que importa é ter sossego e paz, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento.

(Autor desconhecido)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A DOENÇA DA SAUDADE

"Sofro da doença da saudade…" — ouvi há tempos de uma senhora de 86 anos. Tentei explicar-lhe que a saudade não era uma doença, mas depois da sua explicação, acabei por concordar com ela.

"Tenho saudades do tempo em que podia fazer tudo sozinha, em que sabia fazer tudo sozinha. Sobretudo, tenho saudades do tempo em que nunca estava sozinha. É uma doença que afecta principalmente as pessoas da minha idade. Tem cura, mas deve ser cara, porque ainda ninguém se curou dela! A viuvez é um dos sintomas, assim como o partir dos filhos para a cidade.

Os filhos por lá têm os netos e para cá pouco os trazem. Os que (ao contrário de mim) estão perto, ainda os ajudam a criar, mas depois a dor dobra. Perdem-se os filhos e os filhos dos filhos, que são nossos filhos a dobrar.

Vai-se piorando quando nos apercebemos de que eles só voltam no Natal e nos anos. E quando já se fizeram muitos (anos), nós deixamos de os contar e eles de se lembrar que os fizemos.

Depois, outras doenças, como a crise, entram na nossa casa e acabam por se alojar no nosso corpo.

O problema da crise é que ela entra em conflito com a medicação que até lá tomávamos e somos obrigados a parar. Ao parar os medicamentos, nós paramos. 

Eu deixei de ir ver a Emília, que mora a duas casas da minha, que as pernas desistiram de se arrastar. Deixei de ver o Goucha e a Cristina, que a visão turvou. Deixei de me baixar para alimentar o bichano, que o chão fugia-me. Percebi, nessa altura, que a saudade atingira o seu pico.

Desde então, agarro-me às fotografias. Sei que pioram o meu estado, mas gosto de me lembrar de quem fui e do que tive. Não para quantificar o que perdi, mas para valorizar o que a vida me deu até aqui. 

E estamos quase Natal, menina! O Natal está para a saudade como Agosto está para a crise. Acalmamos algo que vai voltar com mais força, quando já não temos forças para uma recaída. Triste é saber que, no final, vamos resistir a essa recaída e, ao resistir-lhe, resistimos mais um ano. 

No meu caso, vou enganando a doença com mezinhas. Às vezes aparecem uns senhores de uma associação da terra cá em casa. Perguntam-me como estou, esperam para ouvir a resposta e sinto-me logo melhor. Mas à noite, à noite fico sozinha e a alma dói-me. O corpo não me preocupa. Escorre-me uma água salgada pelos olhos e isso, menina, isso já não me dói!"

Concordei. A saudade é uma doença dos nossos dias.

Bárbara Matias, aspirante a jornalista. Estudante de Mestrado em Ciências da Comunicação na UTAD
Texto de Bárbara Matias • 06/11/2013 - 17:04



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

DIA DE NATAL


Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa toda a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.                                                               

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

FLORES PARA FLORBELA




A Conferência de S. Vicente de Paulo de Vila Viçosa debate-se com dificuldades para poder ajudar todos aqueles que lhes pedem auxilio; assim, as Vicentinas resolveram prestar uma homenagem a Florbela Espanca, elaborando uma manta de rosetas em lã, que foi rifada, revertendo esse dinheiro para a Conferência. O Projecto teve a participação activa das senhoras idosas do Chá das Quartas -Feiras e de muitas outras senhoras que quiseram fazer rosetas. A supervisão e a organização do projecto esteve a cargo da Cristina Lopes, da Oficina da Borboleta Maria , http://oficinaborboletamaria.blogspot.pt . A colcha foi exposta no Cine-Teatro Florbela Espanca no dia 7 de Dezembro, pelas 15 horas, assim como foi inaugurada a exposição sobre o mesmo tema ( Flores para Florbela) com trabalhos elaborados pelos alunos das escolas de Vila Viçosa, que apresentaram trabalhos interessantíssimos.

O dia 14 de Dezembro foi o escolhido para se realizar a festa no Cine-Teatro e se proceder ao sorteio da manta.
A festa iniciou-se às 15 horas com um grupo de jovens bailarinas
 Performance " Flores para Florbela" , interpretação 100SATION, coreografia:Ana Cravo e Susana Nascimento, Mix de som: Ana Cravo, João Alexandre e Maria João Reis a partir da recreação do poema: "AMAR" de Florbela Espanca por Teresa Almeida.

15.30H - "Florbela" um diálogo Professora Doutora Ana Luísa Vilela e Tiago Salgueiro

Poemas musicados: Adelino Silva com um grupo de jovens músicos, Cecília Frade e Maria Zulmira Baleiro

16H - Conversa informal, chá, bolos e bolachinhas

17H - Sorteio da Manta

17.30H - Encerramento da exposição

Pediram-me para dizer alguns poemas de Florbela Espanca e assim eu escolhi estes :

Li um dia, não sei onde
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados

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Nunca fui como todos...
Nunca tive amigos...
Nunca fui favorita...
Nunca fui o que os meus pais queriam...
Nunca tive alguém a quem amasse...
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
Não vivo sozinha porque gosto
Mas sim porque aprendi a ser só...

***********************
SAUDADES
Saudades! Sim...talvez...e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

*************************

Foi uma homenagem a Florbela Espanca muito original e muito sentida. O clima de festa que ali se viveu foi muito apreciado por todos os presentes. Eu senti-me bem e feliz por poder participar neste projecto.
As conferências Vicentinas são associações de leigos Cristãos, vocacionadas para o auxilio aos "pobres envergonhados" e que hoje são consideradas de Solidariedade Social, que tiveram o seu início nos bairros pobres de Paris em 1833, devido à dedicação de Frederico Ozanan, que inspirou a sua obra na missão caritativa de S. Vicente de Paulo.
A humildade de Ozana e dos seus companheiros, que silenciosamente levavam aos marginalizados não só o  pão que necessitavam, mas também uma palavra de alento e esperança, de acordo com os ditames do Evangelho. O sucesso foi tão grande, que em pouco tempo as Conferências se difundiram por toda a Europa e passado meio século já estavam implantadas em Portugal.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A PORTA DA CASA DE MEUS PAIS

A porta de entrada da casa onde vivi desde o ano de idade até à minha adolescência é uma porta em madeira, envernizada, de duas partes, que abrem ao meio. Tem um postigo de cada lado, com postigos de vidro, que se podem abrir nos dias quentes de verão ou quando queríamos saber quem é que nos estava a bater à porta, a horas tardias. Os postigos são protegidos com grades em ferro forjado que lhe dão uma certa majestade  Por cima, tem uma “bandeira” com uma grade em ferro forjado, por onde entra a luz do sol .
Há noite, os ferrolhos de cima e de baixo são puxados para que haja segurança, e nos sintamos seguros dentro da casa.
A fechadura era já de pique-porte. Por isso a chave é uma chave pequena, que abre com alguma dificuldade a porta. Tem que se dar um certo jeito, para que a fechadura se abra, sempre a conheci assim...
Quando alguém quer entrar em casa, bate num batente em forma de “mãozinha”, cujas pancadas ecoam por toda a casa.
Não é uma porta muito larga, até posso dizer que é estreita, pois quando queremos passar, de verão ainda se abre razoavelmente, mas de Inverno, como empena, fica uma fresta por onde temos que nos esgueirar e apertar para podermos entrar ou sair da casa.
Esta  porta da casa dos meus pais só era usada de manhã muito cedo, à noite ou durante o fim-de-semana, pois todos as pessoas  que queriam entrar ou sair da casa iam pela porta da loja, que estava sempre aberta, desde as 9 horas da manhã até às 21 horas, hora a que se fechava definitivamente a porta da loja, depois de se varrer e se lavar o chão.
Logo muito cedo, pelas 7 horas da manhã, batia a leiteira à porta, e a minha Tita ia abrir e receber o leite no fervedor; o leite era transportado num cântaro de lata e era medido com uma das medidas também de lata que a leiteira transportava presas umas às outras por um cordel. Ela enchia a medida, que normalmente era a de 1 litro, e com muito cuidado para não entornar uma gota sequer, vertia o leite para dentro do fervedor de alumínio, que era enorme, devia levar 1,5litro ou 2 litros, pois como éramos muitos lá em casa, sempre gastámos bastante leite. Por vezes, as vacas não davam tanto leite como era habitual e a Srª Maria Chica só nos dispensava ¾ de litro, para grande arrelia da minha mãe, que queria que todos nós bebessemos um copo de leite ao pequeno-almoço. O leite era muito forte, tinha sempre muita nata, e por mais que se passasse com o passador, passava sempre para a caneca alguma gordura que sempre me agoniou imenso, ainda hoje detesto a nata do leite.
A porta tem uma caixa para o correio, com uma tampa em ferro que protege a caixa de madeira para onde caem as cartas, quando o carteiro as enfiava na ranhura da caixa de correio. A maioria das vezes, o carteiro ia entregar a correspondência à loja, pois como esta estava aberta e havia sempre alguém para recebê-lo, a minha mãe ou um empregado, o correio era entregue em mão.
A soleira ou portado, tinha uma pedra mármore branquíssima, que era esfregada todos os dias, assim como a rua era varrida todos ops dias, logo pela manhã. A pedras com o uso excessivo começou a ficar desgastada e a fazer uma grande curva por onde entrava muito pó; então, a minha mãe teve a ideia de colocar por cima dessa pedra uma outra pedra mármore e assim ficaram duas pedras em cima uma da outra o que obrigou o portado a subir. Quando vou a entrar ou a sair esbarro sempre nas pedras, pois no meu inconsciente ainda só lá se encontra a primitiva pedra mármore branquissima. Fico sempre irritada quando tenho que passar por lá, pois para além de esbarrar na pedra, também a porta não se abre completamente por estar empenada e é com algum esforço que passamos pelo espaço que a porta nos deixa abrir.
Está velha, tudo está velho, a porta, a casa e até os meus pais que eu recordo com imensa saudade ainda jovens, à porta da rua a verem-me a mim e ao meu irmão a andar de bicicleta e a brincar com os amigos e vizinhos da rua. Como eu me lembro da alegria no interior da casa, quando se ouviam as pancadas da “mãozinha” e sabíamos que vinham a chegar os tios e as primas de Estremoz. Os carros ficavam do outro lado da rua, no recanto que ainda hoje lá existe, junto à casa do prima Maria Inácia, e nós íamos numa enorme excitação abrir a porta, às visitas que vinha almoçar, lanchar ou simplesmente passar a tarde, que terminava sempre com um lanche na mesa de pedra mármore do alpendre ou do quintal.

Quando eu era pequena, adorava andar descalça no alcatrão a escaldar da rua, então descalçava as sandálias, colocava-as atrás da porta e lá ia eu toda contente jogar ao avião, à apanhada ou ao às 5 pedrinhas . Andar descalça dava-me uma enorme sensação de liberdade. Quando a minha mãe via as sandálias atrás da porta, chamava-me muito zangada  e alguma vezes, apanhei no rabo, por ter aquela mania de me descalçar. No verão, o chão das diversas dependências da casa era de cimento vermelho, de mosaicos por isso era muito fresco, eu adorava andar descalça, mas nunca me deixavam porque podia ficar com anginas. A minha vontade de andar descalça levou-me muitas vezes a levar uns sopapos da minha mãe, que tinha uma verdadeira paranóia quando me via descalça, pois segundo ela podíamo-nos constipar. Fui de tal maneira repreendida que hoje não sei andar descalça em casa. Mal tomo banho enfio logo uns chinelos e quando me levanto da cama tenho logo ali uns chinelos para calçar, mas descalça é que eu não sou capaz de andar!!!!

A JANELA


As janelas da casa da minha infância nunca me despertaram grande interesse. Há uma janela no quarto de meus pais e outra na sala de jantar São pequenas, estreitas e ficam muito  altas em relação ao chão, e por isso, mandaram fazer uns estrados em madeira de 25 centímetros de altura por 30 de largura, colocados nos vãos das janelas, para que mais facilmente se chegasse à janela e se pudesse olhar cá para fora. As janelas não são airosas nem alegres, e por isso, a luz que por elas entra não é muito forte, o que dá às duas divisões um ar triste e pouco iluminado.  
Quando queremos ver algo que se passa na rua, temos que subir para o estrado, e de cima deste, podemos então, olhar a rua. Isso, sempre fez que eu nunca gostasse daquelas janelas. De dentro para fora, quando estamos sentados à camilha não vemos nada do que se passa lá fora. Se ouvimos algum barulho diferente, então, lá temos que subir para o estrado, abrir a janela e espreitar lá para fora. De fora para dentro, vive-se a mesma situação, como são muito altas, ninguém pode vir e espreitar à janela, não se vê nada cá para dentro.
Quando eu era muito pequena, gostava de brincar com as minhas bonecas no estrado da janela da casa de jantar, sentava-me ali e passava algum tempo entretida a brincar, mas não muito tempo, porque aquele lugar não tinha sol e eu sentia-o um espaço escuro e fechado...
Aos Domingos, as amigas ou as primas da minha mãe vinham lanchar com ela, então depois do lanche, nas tardes sem chuva, punham-se à janela, onde só cabem duas pessoas, e por isso quando era mais gente, tinham que fazer à vez. Lembro-me de vê-las com os seus melhores vestidos, muito bem penteadas e algumas delas, até se atreviam a pôr um pouco de “rouge” ou de pó-de-arroz, mas nunca pintavam os lábios, pois isso não era de “bom tom” numa senhora casada.
Quando eu tinha os meus cinco ou seis anos de idade, veio para Casa Branca um casal, o Sr. Escobar que era empregado de escritório do Sr. Martinho Rovisco e a D. Rosinha, uma jovem mulher muito bonita, muito elegante, que vestia muito bem e se arranjava como uma senhora da cidade. Penteava-se com uma linda trança que era o enlevo de toda a gente, tinha uma cara muito bonita que as pinturas ajudavam a realçar. Faziam um casal muito bonito, muito elegante, eram jovens e muito bem dispostos. Tinham um filho, o Sérgio, que era da minha idade. Os meus pais fizeram amizade com eles. Todas as tardes de Domingo, os três vinham para nossa casa, onde lanchavam e jantavam. A minha mãe gostava imenso da companhia da D. Rosinha que era mais evoluída que a maioria das amigas de minha mãe, e por isso lhe dava muitos conselhos sobre as modas daquela estação, cremes para o rosto, e até sugestões para se começarem a pintar... de culinária e sobre a decoração da casa... lembro-me que nessa época a minha mãe começou a dar mais atenção à maneira como se arranjava e começou a usar creme de beleza na cara.
Há um episódio muito engraçado, que ainda hoje é falado aqui em casa. Quando se ia a Lisboa, a viagem era de quatro a cinco horas, na furgoneta de meu pai. Então tínhamos que nos levantar por volta das quatro ou cinco horas da manhã, para se chegar a Lisboa pela manhã. Eu nesse dia não ia, estava a dormir no meu quarto. A minha mãe andava a preparar-se e a arranjar-se para saírem o mais cedo possível. A minha mãe chegou ao meu quarto, com as pressas do costume e pergunta-me: - “Oh filha, onde é que está o creme para a cara?” e eu muito ensonada, disse-lhe: “ Oh mãe, está ali!” e apontei para uma das gavetas do psiché que havia no meu quarto. A minha mãe abre a gaveta e vê outro creme e não o que ela procurava, então muito rapidamente diz: “Oh filha não é este, é Benamor!!!!”  . Sempre que estamos a falar de cremes de beleza, vem esta “história” à baila “ Oh filha é  Benamor!!!” é uma risota, pois vem-nos à memória os dias felizes que vivíamos naquela época, onde os meus pais eram um jovem casal, divertido, muito trabalhadores mas ao mesmo tempo muito divertidos, e eu e o meu irmão éramos duas crianças saudáveis, bem dispostas e muito, muito felizes.



domingo, 13 de outubro de 2013

OS BAILES DE CASA BRANCA por Tia Marilena

E a propósito da Casa Branca.....
Ia-se lá na altura das festas e ia-se ao baile, e dizia o senhor ao microfone alto e em bom som ( não fosse alguém menos atento não ouvir) :
Senhoras e senhores o baile vai começar. Avisam-se todos que estão proibidas todas as mijanceiras e caganceiras à porta desta função, quem não assim proceder será chamado à direcção, mais se avisam que não podem prantar os pés arriba das mesas por môde de não aquebrantar os basaréus de vidro. Comece o baile.
E o baile começava e nós lá bailávamos. Depois, já tardinho, lá íamos para casa da avó Bárbara entre risos em surdina e pchius e argolas de massa finta (que nunca mais comi como aquelas) lá nos deitávamos para descansar os pés….

AS ARGOLAS DA AVÓ BÁRBARA

Agora é só puxar pela memória!!!
Lembram-se das argolas da avó Bárbara???? Eram célebres.
Aí vai a receita:

ARGOLAS DA AVÓ BÁRBARA

1Kg de pão em massa
1/2 kg de açucar
2 tigelas de leite ( agora serão canecas!)
1/4l de azeite (Alentejano de preferência!!!)
1 colher (sopa)Canela em pó 
Raspas da casca de 1 limão
1 colher de chá de bicarbonato
Farinha para amassar e tender
Põe-se o pão em massa num alguidar, juntam-se os ingredientes todos e vai-se amassando com farinha até tender. 
Fazem-se uma torcidas com a massa e faz-se o feitio de argola. Colocam-se no tabuleiro untado de azeite e polvilhado de farinha e vão a cozer no forno.
A avó Bárbara levava as latas com as argolas ao forno de lenha da padaria, onde as argolas eram cozidas. Algum tempo depois, iam-se buscar, lourinhas e tenrinhas.
Quando vinham mornas eram deliciosas!!!. 
Depois, a avó guardava-as dentro de uma grande panela de esmalte, na despensa, iluminada pela luz difusa da clarabóia, junto à cozinha e duravam para toda a semana. 

Quanto mais o tempo passava, melhor ficavam.
Eram comidas ao pequeno-almoço, ao lanche e ao deitar a acompanhar o caldo de farinha que a avó fazia com todo o preceito, para que não tivesse grumos. 
Quando queríamos uma argola, não a íamos buscar à panela.Pedíamos à avó Barbara: "Avó, dê-me uma argola!" e a avó, levantava-se, com toda a calma da cadeira onde estava sentada ao lume ou à camilia e com todo o vagar, dirigia-se para a despensa. Abria a porta da despensa que estava sempre fechada, dirigia-se à panela de esmalte, tirava a tampa, e dava-nos uma ( 1! ) argola! Nós tínhamos que comê-la com todo o cuidado, para não deixarmos cair migalhas, nem no chão nem no tampo da camilia." Não me sujem o chão com migalhas!!! comam devagar!!! mastiguem bem!!" e a avó continuava: "O meu pai que Deus tem, comia sempre muito devagar, até o leite mastigava!!!" e nós crianças achávamos aquilo muito estranho?!! até o leite mastigava??!!
Afinal, nos dias de hoje, em pleno século XXI, é o que os médicos dietistas e nutricionistas recomendam e aconselham - Comer muito devagar e mastigar bem...! Como a avó Bárbara diria:
" O meu pai foi sempre uma pessoa muito culta e muito inteligente! Lia muito e depois seguia os conselhos que tirava dos livros!!" Assim era o nosso bisavô João Falcato!!!
Luzazul

OS ACAMPAMENTOS DO MOUCHÃO pela Guida

Teria eu 4, 5, 6 anos quando o meu tio Vitalino organizava uns belos acampamentos no Mouchão, uma herdade perto de Casa Branca, terra de Falcatos. Era muita gente, muitas panelas enormes, umas lonas debaixo das quais se comia e dormia, muita alegria e boa disposição. Aquilo durava vários dias, pelo menos é o que me diz a memória.


Partíamos de casa da minha tia Amélia, em carroças??? ( oh Guida!! íamos na carroçaria da camioneta ou no atrelado do trator!! o meu pai nunca teve mulas para termos carroças!!!) carregadas de tralha e de gente sentada em bancos de buínho. Chegados lá, armava-se a esturgia: começava-se a fazer comida pr'aquela gente toda.
Havia uma ribeira onde alguns tomavam banho, dava-se grandes passeios pelos campos à volta, cantava-se, enfim, era uma festança.
Eu tinha umas tão grandes saudades deste tempo e apetecia-me tanto refazê-lo que combinei com o meu tio Zé Varela (também ele um saudosista destas coisas), escrevemos umas cartas acompanhadas de imagens da época assim à laia de convites e fizemos aquilo que até agora foi a última edição deste acampamento. E resultou! Que o diga quem lá foi. E as fotos atestam isso!!
Agora, com todo este entusiasmo que o blog nos tem dado, bem podíamos aproveitar e, lá pr'a Páscoa ou quando o tempo estiver melhor, fazer uma outra reedição. Quem alinha?Aceitam-se inscrições para a organização.
É que vale mesmo a pena!

O ASSOBIO

O meu tio Zé Varela, que sempre admirei e com quem tive uma relação afectiva muito forte, se não tivesse partido,  estariamos hoje a festejar os seus 80 anos. Assim, como não lhe posso dar o beijo de parabéns que ele me retribuiria  com o seu sorriso aberto, meigo e feliz que sempre mostrava, vou escrever um texto que relata bem as memórias boas e singelas que guardo dele.
Quando eu tinha 11 anos, fui estudar para o Colégio de S. Joaquim em Estremoz (actual Escola 2,3 Sebastião da Gama), e fiquei hospedada na sua casa do Bairro de Santo António (hoje é neste bairro que fica o Supermercado Pingo Doce) , logo a casa ficava num extremo oposto ao colégio. A distância era enorme, e a minha pasta tinha sido mandada fazer ao sr. Contente do Cano, famoso pelas suas carteiras, pastas e afins, em couro verdadeiro e de duração ilimitada. Pesava "toneladas", pois o meu pai pedira  o couro mais durável que ele tivesse!. Não deixavamos os livros na escola, e assim, fazia quatro vezes, o caminho do Barirro de Santo António para a zona do Caldeiro. A pé, chovesse a potes, fizesse um frio de rachar, fizesse vento que tudo levava pelos ares, fizesse o calor abrasador de Estremoz, lá ia eu de pasta na mão cheia de livros, logo pelas 8 horas da manhã, voltava de novo com a pasta ao meio dia para almoçar. Depois de almoçar muito rapidamente, mudava os livros das disciplinas da manhã para as da tarde, e lá ia eu, pasta na mão a caminho do colégio onde ia ter aulas das 14horas até às 18h. Nos dias de Ginástica, hoje Educação Física ainda levava um saco de pano branco mandado fazer de propósito para transportar o uniforme de ginástica (saia calça. blusa de malha interloc branca, meias brancas e sapatilhas de ginástica brancas), por isso, nesse dia, a carga era mais pesada e o cansaço era ainda maior.
O percurso da escola para casa e da casa para a escola era e é muito comprido, a distância era interminável. Atravessávamos o Rossio e lá iamos nós,  eu, a Aurita, a Genhinha e a Luisa, felizes, bem dispostas, sem um queixume sobre a distância que tínhamos que percorrer 4 vezes ao dia!!!
Muito esporadicamente, o Sr Dias, pai da Geninha, que tinha uma loja de tecidos no Largo da República, dava-nos boleia, o que para nós era uma festa e um alívio, pois chegávamos mais depressa e menos cansadas.
A minha pasta era forte e feia. Eu não conseguia de maneira nenhuma ver-me livre dela. Então muitas vezes, mandava a pasta com toda a força, pelo pavimento de cimento do recreio, ela escorregava pelo chão e depois eu ia buscá-la ao outro extremo do pátio. Queria que ela se estragasse para poder ter uma mais leve... mas nunca o consegui!!! a pasta durou anos, e anos, e anos... sempre impecável... os cantos não estavam a desfazer-se, a mola para fechar continuava operacional e a pega da pasta firme, mas firme!!!! e a pasta acompanhou-me sempre, durante o meu percurso escolar do 1º ano do preparatório ao 5º ano do liceu.
À tarde, quando vinha do colégio, e passava no Rossio, encontrava-me muitas vezes, mesmo quase todos os dias, com o meu tio Zé Varela, que saía religiosamente às 18 horas do escritório , onde era escriturário e se dirigia para casa. Íamos juntos de regresso. Ele andava sempre um livro debaixo do braço, pois a leitura era um dos seus melhores passatempos. Tinha uma postura muito elegante, alto, magro, cabelo preto, com o seu fato muito bem tratado, as camisas brancas impecávelmente passadas pela tia Maria Emília, as calças com um vinvo bem marcado. O meu tio interessava-se e queria saber como me tinha corrido o dia, e quando eu começava a falar sobre o meu dia na escola, ele começava a contar-me histórias do seu tempo de menino, de adolescente e naquele tempo (1961) de pai babado com a minha prima Maria Cristina, que era uma bébé adorável, muito bonita, rechonchudinha, risonha e sempre bem disposta.
Por vezes, quando íamos no Rossio, ouvíamos o assobio muito característico e muito pessoal do meu tio Jacinto, que nos tinha visto à distância e que queria juntar-se a nós. Aquele assobio era único. Pareciam rouxinóis a cantar nas árvores. Onde quer que um deles fizesse aquele assobio já sabiam que era um irmão a chamar o outro irmão.
Hoje, 52 anos passados, ainda recordo aquele assobio. Já não o posso ouvir, pois o tio Zé já cá não está e o tio Jacinto já não o pode chamar... mas, o assobio era inesquecível, bonito, harmonioso, alegre, direi mesmo que era uma pequena peça musical; era um assobio de grande cumplicidade, muito, mas mesmo muito pessoal, o que tornava esta forma de se comunicarem única.
Mais não escrevo, mas há tanta coisa a dizer deste querido tio que tanta saudade nos deixou...
Casa Branca, 28 de Setembro de 2011
zuzu

OS MEUS TIOS E TIAS "EMPRESTADOS"

Como todos vocês, meus queridos primos e primas Falcatos, sabem, sempre chamei tio e tia aos vossos pais e mães. Ora, acontece que esse tratamento faz muita confusão a certas pessoas, sobretudo aqui da Casa Branca, e que não conseguem perceber esse elo familiar!!!
Escrevi um post sobre a Tia Natália Simões e depois disso, várias pessoas, depois de lerem o texto, me perguntaram quem é a minha tia Natália??!!! ( essas pessoas sabem que os meus pais não tiveram irmãos chamados Natália, Anibal, Jaime, Adélia, etc.!!) e daí a admiração e confusão!!!
Ontem, recebi mais um mail de uma amiga, onde me perguntava quem era a "tia Natália" pois a mãe dela, estava muito intrigada!!! Assim decidi explicar a essa minha amiga a razão de eu chamar tios e tias aos filhos e filhas da minha tia Domingas e do meu tio Zé Alves. Aqui vai o que eu escrevi:
"Olá Mariana
A minha "tia Natália" do blog é a mulher do meu tio Aníbal, irmã da prima Joaquina e da prima Joana.
Desde sempre os meus pais tiveram uma forte e estreita relação com o meu tio Zé Alves e tia Domingas, íamos lá muitas vezes almoçar, íamos a todas as festas da família, aos casamentos, a todas as ocasiões em que havia " reuinão familiar"lá estávamos nós - eu, o meu irmão e os meus pais!. Assim, eu sempre convivi muito de perto com todos eles, e desde sempre lhes comecei a chamar tios e tias, talvez por influência dos meus primos Aurita, Henrique, Jorge, Zé Manel Simões, José Carlos, etc, etc, que como eram sobrinhos de verdade, lhes chamavam tios/tias. Muitos desses meus primos eram da minha idade ( todos eles estão no meu coração e eu tenho-os como primos muito, muito próximos.). Assim, todos os filhos do meu tio Zé Alves e da Tia Domingas são meus tios e tias por adopção, mas para mim é como se fossem de verdade! Eu adoro-os a todos ( os filhos homens já todos partiram, e deixaram-me muita saudade; agora só estão as tias Olga, Natália, Maria Helena e Adélia) e todos eles sempre gostaram muito de mim.
Infelizmente, com a sua partida, eu tive grandes desgostos.
Mas, o tio Aníbal foi aquele de quem eu tive um maior desgosto pela sua morte, - uns dias antes de ele morrer, atropelado na estrada para Elvas, eu tinha estado com ele no lançamento do seu novo livro. Sempre foi uma pessoa muito dada à vida intelectual e por isso, estavam lá muitos artistas, gente do teatro, agora não me lembro dos nomes, é um que faz telenovelas que tem a cara toda manchada, (Canto e Castro?) outra artista que faz telenovelas e cinema ( Gina Maria?) , escritores, como o Cardoso Pires e outros, políticos, etc.
Como o meu tio Aníbal era muito próximo dos meus tios Maria Helena e Jacinto , quando iam ao cinema, visitar uma romaria ou uma aldeia ou outras manifestações artísticas, eu ia com eles. ( Em casa dos meus tios, eu ouvi, pela primeira vez, o disco do Zeca Afonso, na altura, proibidíssimo, "os Vampiros! ( isto passa-se em 1959!!)".
O meu tio Aníbal transmitiu-me ideias e conhecimentos sobre cinema, literatura, pintura, etc. política, etc… cujas sementes ainda estão em desenvolvimento dentro de mim. Ainda hoje, adoro tudo o que se relacione com arte, com manifestações artísticas, como ver exposições, ir a concertos, olhar uma paisagem (real) do Alentejo, apreciar a boa gastronomia portuguesa, etc. etc. tudo graças ao convívio estreito que sempre tive com ele e com a minha tia Natália.
Quando fui estudar para Estremoz, tinha 11 anos ( 1959), acabados de fazer, era uma frequentadora da Livraria Aníbal. Como sempre adorei ler, quando saía um livro de um grande escritor estrangeiro ou português, que se adequasse à minha idade, o meu tio Aníbal dizia-me logo para eu o ler. "Eu tinha uma conta aberta lá, e aos fins de semana o meu pai ia lá pagar!" como vês tudo isto me tornou na pessoa que hoje sou... afinal é através do exemplo daqueles que nos rodeiam, que nós crescemos, nos educamos e nos tornamos "parecidos" com quem convivemos... Bem, que grande discurso!!! às vezes sabe-me bem, falar e escrever sobre aqueles que "moldaram" a minha personalidade, que contribuíram para a pessoa que sou hoje...
Beijos à tua mãe.
Beijos da amiga Zuzu
2008/9/18 

Pois é, meus queridos primos e primas, é por tudo isto e muito mais ( que um dia escreverei!) que eu vos adoro a todos e todas. Agora, por acréscimo, adoro os vossos filhos e vossas filhas, e fico muitooooooooo contente quando sei que uma delas está grávida, e que vai nascer mais uma Falcatinha!!!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Trabalhos arqueológicos na anta-capela de Pavia

ANTA-CAPELA DE PAVIA













Uma equipa de arqueólogos da Universidade de Évora, dirigida por Leonor Rocha, vai estar até à próxima quarta-feira em trabalhos arqueológicos na mais significativa anta-capela de Portugal, localizada em Pavia.


Aquele monumento funerário pré-histórico, com mais de 5000 anos de idade, foi adaptado a templo católico durante a Idade-Média. Tudo aponta para que durante o domínio árabe também ali tivesse funcionado um espaço de oração. 



A anta-capela de Pavia, classificado como Monumento Nacional, é agora objeto de investigação arqueológica para identificação da primitiva entrada e respetivo corredor de acesso. Procuram-se, igualmente, elementos que possibilitem uma datação absoluta do monumento e que se possa estabelecer com precisão as diferentes funcionalidades que teve até ao presente.


Recorde-se que a Anta-Capela de Pavia foi o primeiro monumento megalítico referenciado na bibliografia histórica. Manuel Severim de Faria (séc.XVI), na sua obra “Notícias de Portugal”, já mencionava a anta-capela de S. Dinis ou S. Dionísio, como também é conhecida, e que se localiza no centro histórico da vila alentejana de Pavia.



(Local.pt)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

LÍDIA JORGE

Qual a razão de aparecer aqui este texto de Lídia Jorge, perguntarão os meus leitores?? Porque fui aluna da Professora Lídia Jorge e gostava muito das suas aulas, da sua maneira suave, tranquila e serena de transmitir conhecimentos. Por vezes, a sua serenidade  não me deixava ver a mulher escritora, a mulher que através dos seus livros, oferece  uma escrita que me prende  desde a primeira página. Apropriei-me deste texto, porque me revejo nele... completamente...

Nascidos para Ler  

2007-11-05 17:31:34
Em que dia nos transformámos em leitores para sempre? Cada um de nós lembrará a sua história. Recordará um colo, um abraço, um livro colocado na mão de alguém, uma estante, um professor, uma certa noite, um certo dia. Aquele momento e aquela hora em que se associou uma voz humana com a capacidade de multiplicar imagens infinitas dentro da cabeça, e de permeio estavam folhas escritas. Alguém que de súbito põe a mão na máquina que roda o filme das letras, e o cinema começa a correr por dentro da nossa vida. Alguém que depois nos coloca diante duma estante e nos diz – Aqui tens, tantos seres humanos quanto as lombadas, tantos filmes quantas as páginas. És um homem livre.
Em que dia, então, nos transformámos em leitores para sempre? Em que dia começámos a nascer para ler? Em que mês do ano aconteceu esse acaso da multiplicação dos Espaços dentro das nossas vidas? Ao mesmo tempo Ulisses e os cinco Compson?
Faço estas perguntas e estou a pensar numa ideia nova, talvez a única ideia revolucionária que desde as últimas décadas a Europa foi capaz de criar. Que se conheça, a única que tem como sujeito um homem novo. É a ideia maravilhosa de que todas as crianças do Mundo devem ser concebidas como seres nascidos para ler. O que equivale a dizer que a leitura deve ser elevada à categoria duma segunda natureza da pessoa. E que a sociedade deve promovê-la como um elemento tão importante quanto se lhe reconhece o direito a uma família ou um alimento. A ideia de que esse direito imprescindível deve ser promovido pelos Estados e por todos aqueles que sabem que a leitura amplia a vida, como um dever de contágio formidável. Esta, sim, é uma ideia de Futuro e aponta para um novo paradigma de instrução para a Liberdade, no momento em que se desenham no horizonte rumores de pensamentos únicos e amnésias planificadas. O que os novos planos de leitura, que hoje em dia se implantam um pouco por toda a parte, trazem de novo é isso mesmo - Servem para proporcionar a hipótese de que esses momentos inaugurais de encontro com um livro colocado entre os olhos da criança e o abraço, se multipliquem, uma e outra vez, se prolonguem, mudem de local e de suporte, mudem de figuras e de géneros, mas que estejam sempre lá. À espera do acaso. O que significa que proporcionar esse acaso se transformou num dever. E porque não dizê-lo? - Para muitos países, como o nosso, talvez esta seja uma oportunidade única para nos transformarmos da antiga nação que somos com relutância à leitura, numa sociedade aberta, moderna, civilizada pelos livros.

Lídia Jorge    

   http://www.lidiajorge.com/post.php?id=63&post=6