quinta-feira, 23 de maio de 2013
O TIO CARREÇO
O TIO CARREÇO TEXTO DO JOÃO

Lucas EvangelistaTorres
n. 18 de Outubro de 1822
f. 4 de Agosto de 1895
Quem quiser ler mais é só carregar aqui





Destas fotos só conheço o mestre Jaime , o Zagalo que costumava ser o chofer da familia, e o tio António Alves,o mais carrundo dos Alves que conheci, nunca falava a ninguem mas depois ia queixar-se ao meu pai que eu tinha passado por ele e não o tinha cumprimentado, eu e outros primos...aqui por estranho que pareça está a rir-se

No fim da Guerra Peninsular repelidos os franceses com a ajuda inglesa, pagou-se esta com atribuições de propriedades a interventores notáveis e seus familiares. Os ingleses do Mouchão, D. João e Aravia deveriam ter sido dos recompensados. Uma vez instalados, com preocupação de rentabilidade e povoamento, iniciaram um processo de distribuição de terra com o estabelecimento de "foros". Este era um imposto pago ao senhor e dono da terra, que conferia um direito vitalício e transmissível pela posse da fracção que era concedida. Os meus Avós ainda pagavam "foro" por um olival que tinham na D.João.
Provavelmente esta a razão do minifúndio da região e da convergência de famílias de várias proveniências.
Isto ajuda a perceber porque na Casa Branca encontramos gerações com atitudes e motivações como as do Tio Carreço e que nelas ele é na verdade um dos de maior relevo.
Com 11 anos o Tio deixa a casa paterna, munido com a instrução base emprega-se como marçano na Granja, concelho de Mourão. Depois desta primeira experiência muda-se para Évora onde por alguns anos trabalha numa grande firma comercial. Com evidência das suas qualidades é lhe proposto trabalho no escritório da firma Barbosa & Irmão com actividade diversa, mas com relevo no campo financeiro. A empresa localizava-se em Estremoz e aí gozava de grande consideração. O seu sócio maioritário era Constantino Barbosa, casado sem filhos, homem culto e republicano militante.
Este homem contribuiu muito para a formação profissional e politica do Tio, e não mais se separaram. O Tio Carreço tornou-se num elemento fundamental do funcionamento da firma, amigo dedicado e correlegionário da acção politica. ( Por aqui ficamos hoje, se estiver a ser pesado digam que se sintetiza ).
Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
O TIO CARREÇO
Em 13 de Março de 1954 morre em Estremoz na sua casa, João Francisco Carreço Simões. Nessa data a grande parte dos participantes e leitores deste blogue ainda não tinha nascido. Contudo a sua vida foi de certo modo influenciada por este homem, e suponho que para muitos não é desconhecido o Tio Carreço.
Na verdade ele foi um grande patriarca da família. Sem ter casado, o seu grande amor faleceu jovem, e ao longo da vida foi dando o nome da amada Judite a todas as jovens que os pais convidaram para ser padrinho.
Montou uma grande casa de família com a sua irmã Mariana, Tia Mariana, onde criou e educou muitos sobrinhos.
Nasceu na Casa Branca em 30 de Agosto de 1862, filho de pequenos agricultores com sete irmãos. Foi lá que passou a sua juventude e fez a instrução básica. Nesta família entendia-se a aquisição de conhecimento como factor fundamental da valorização humana. Há condições que determinam que a aprendizagem e a racionalização do conhecimento seja uma postura de vida de Carreços, Alves, Falcatos e Simões.
Nos fins da década de 40 e até meados da de 50 do século passado, vivi na Casa Branca longos períodos da minha infância e início de adolescência, senti que na Aldeia não se vivia mal. Mais tarde adulto alinhando recordações , reflectindo sobre esse passado, confirmo essa constatação.
Todos tinham um pouco de seu, casa, quintal, uma ou duas courelas ( pequenas propriedades com olival e/ou terreno de cultura ) que lhes permitia viver com independência trabalhando o que lhes pertencia. Havia vários artesãos do ferro e da madeira que produziam os artigos para a casa, faziam os carros e os engenhos da lavoura. ( continuarei em breve )
Na verdade ele foi um grande patriarca da família. Sem ter casado, o seu grande amor faleceu jovem, e ao longo da vida foi dando o nome da amada Judite a todas as jovens que os pais convidaram para ser padrinho.
Montou uma grande casa de família com a sua irmã Mariana, Tia Mariana, onde criou e educou muitos sobrinhos.
Nasceu na Casa Branca em 30 de Agosto de 1862, filho de pequenos agricultores com sete irmãos. Foi lá que passou a sua juventude e fez a instrução básica. Nesta família entendia-se a aquisição de conhecimento como factor fundamental da valorização humana. Há condições que determinam que a aprendizagem e a racionalização do conhecimento seja uma postura de vida de Carreços, Alves, Falcatos e Simões.
Nos fins da década de 40 e até meados da de 50 do século passado, vivi na Casa Branca longos períodos da minha infância e início de adolescência, senti que na Aldeia não se vivia mal. Mais tarde adulto alinhando recordações , reflectindo sobre esse passado, confirmo essa constatação.
Todos tinham um pouco de seu, casa, quintal, uma ou duas courelas ( pequenas propriedades com olival e/ou terreno de cultura ) que lhes permitia viver com independência trabalhando o que lhes pertencia. Havia vários artesãos do ferro e da madeira que produziam os artigos para a casa, faziam os carros e os engenhos da lavoura. ( continuarei em breve )
O TIO CARREÇO
Pequenos comerciantes promoviam o abastecimento logístico da aldeia que vivia com dois médicos, uma escola sexo masculino e outra feminino, nada de misturas, assim gostava a Igreja Católica e punha em prática o Estado Novo, escolas que tinham elevada frequência com bom aproveitamento.
Latifundiários um ou dois e as grandes herdades de famílias inglesas do Mouchão, D. João e Aravia. Na aldeia vivia-se com solidariedade e sem crises económicas, tão comuns e frequentes no Alentejo.
Os Carreços de apelido, talvez de alcunha de início, deviam ser provenientes de Carreço Minho. Os Alves com ascendência da Estremadura Espanhola. Há tradições de gastronomia na família que reforçam estas suspeitas de origem. Em casa do tio Carreço e depois em muitas casas da família, comia-se bacalhau com couves e batatas cozidas na consoada do Natal, o que nessa altura não era hábito no Alentejo, mas sim desde que se começou a pescar e salgar o bacalhau tradição no Minho. Também se cozinhava um denominado "chibinho", que era o dito estufado ( suponho que o Rui ainda se lembra como sabia bem este pitéu, eu sei a receita para os interessados ), e à falta de chibo que no Alentejo não era fácil encontrar, o prato era feito com borreguinho novo. Este era manjar de tradição na Páscoa, só em casas de nossa família. As "migas à espanhola" com carne de porco e pão esfarelado frito no pingo da carne e a acompanhar o prato. Este prato come-se na Beira-Baixa junto à Raia (Maria de Lurdes Modesto, cozinha tradicional portuguesa), e eu comi-o em Espanha Placenzia, há uns anos, no Alentejo só o conheço na nossa família.
Tudo o que alinhavei atrás levou-me a pensar que esta zona de Casa Branca foi depois de 1820 ponto de convergência de várias família com origens distantes.
Bom, hoje ficamos por aqui, voltarei para continuar a dar-vos a conhecer o que me lembra e sei do Tio Carreço.
Latifundiários um ou dois e as grandes herdades de famílias inglesas do Mouchão, D. João e Aravia. Na aldeia vivia-se com solidariedade e sem crises económicas, tão comuns e frequentes no Alentejo.
Os Carreços de apelido, talvez de alcunha de início, deviam ser provenientes de Carreço Minho. Os Alves com ascendência da Estremadura Espanhola. Há tradições de gastronomia na família que reforçam estas suspeitas de origem. Em casa do tio Carreço e depois em muitas casas da família, comia-se bacalhau com couves e batatas cozidas na consoada do Natal, o que nessa altura não era hábito no Alentejo, mas sim desde que se começou a pescar e salgar o bacalhau tradição no Minho. Também se cozinhava um denominado "chibinho", que era o dito estufado ( suponho que o Rui ainda se lembra como sabia bem este pitéu, eu sei a receita para os interessados ), e à falta de chibo que no Alentejo não era fácil encontrar, o prato era feito com borreguinho novo. Este era manjar de tradição na Páscoa, só em casas de nossa família. As "migas à espanhola" com carne de porco e pão esfarelado frito no pingo da carne e a acompanhar o prato. Este prato come-se na Beira-Baixa junto à Raia (Maria de Lurdes Modesto, cozinha tradicional portuguesa), e eu comi-o em Espanha Placenzia, há uns anos, no Alentejo só o conheço na nossa família.
Tudo o que alinhavei atrás levou-me a pensar que esta zona de Casa Branca foi depois de 1820 ponto de convergência de várias família com origens distantes.
Bom, hoje ficamos por aqui, voltarei para continuar a dar-vos a conhecer o que me lembra e sei do Tio Carreço.
Domingo, 4 de Novembro de 2007
OS MEUS ANTEPASSADOSMAIS PRÓXIMOS
Os meus pais Domingas de Andrade Falcato Alves e José Simões Alves nasceram em Casa Branca, onde se casaram e tiveram o filho mais velho, Armando Alves Falcato Simões*.
Os meus avós maternos, com quem ainda convivi muitos anos, eram Leonarda Rita Capela e João António de Andrade Falcato e tiveram 4 filhos: Bárbara Andrade Falcato, Domingas de Andrade Falcato, Júlio Alves Falcato e José Alves Falcato(Zé da Rita) e Júlio Alves Falcato.Os outros a si próprios puseram as alcunhas de Júlio Chanquinhas, Bárbara Charrua e Domingas Rompeta. Brincadeiras de crianças e, quando adultos, já ninguém se lembrava disso.
Os meus avós paternos, eram Joana Maria Carreço Simões e Joaquim Alves. Conheci a minha avó e lembro-a sentada no corredor da casa do tio Carreço numa larga cadeira de braços a fazer meia. Ouvia dizer que, para o fim da sua vida, já só fazia pegas as quais, por vezes, tinham calcanhares...
Tiveram 6 filhos: José Simões Alves, meu pai , João Simões Alves, António Simões Alves, Francisco Simões Alves, Vicência Simões Alves e Mónica Simões Alves(tiazinha).
Com um programa próprio,que eu não conheço, poderia fazer-se uma árvore genealógica simples e legível.
Assim torna-se confuso e enfadonho para quem quer fazer uma consulta.
Por isso paro por aqui e volto aos meus pais e irmãos.
Já aqui ouvi falar na árvore que eu construí. O que ninguém sabe é que, depois de distribuir várias cópias pela família e muitos anos passados, descobri que eu e os meus filhos não constavam do processo... .)
Por hoje não aborreço mais os visitantes do blogue, que a conversa jávai longa. O próximo capítulo seguirá dentro de dias.
* Não parece ser irmão dos outros 9, pois não?
Para todos bjs da tilena
O meu outro lado.
Este era o meu tetravô (se as minhas contas estão certas) da parte da minha mãe.
Perdi a fotografia, mas era um senhor de barbas brancas de palmo e meio.
n. 18 de Outubro de 1822
f. 4 de Agosto de 1895
Decano dos tipógrafos portugueses. N. a 18 de Outubro de 1822 e fal. A 4 de Agosto de 1895. Era filho dum convicto liberal, Manuel de Jesus, voluntário das tropas de D. Pedro IV, onde chegou ao posto de capitão.
Quando seu pai morreu, andava Lucas Torres estudando para medico, tendo já o curso muito adiantado, pois, que frequentava o 1.º ano de hospital, porém essa morte não lhe permitiu continuar os estudos. Todavia há indicações de que seu pai era riquíssimo, negociava em larga escala em vinhos, tinha grandes armazéns na rua doa Bacalhoeiros, junto da célebre Casa dos bicos; tendo, porém, um sócio, e por não haver escritura nem outras maiores provas que pudessem valer nas épocas calamitosas das lutas civis que atravessava a nossa pátria, Lucas Torres viu-se esbulhado da herança paterna: Assim, muito novo, órfão e pobre, foi para a tipografia dum seu parente, e ali aprendeu a arte, a qual fez progredir, e se engrandeceu no honroso mister de editor inteligente o consciencioso, adquirindo grande fama entre os da sua classe, e contando numerosos amigos. Lucas Torres honrou muito a arte tipográfica, de que foi um prestimoso propagandista. Era homem ilustrado, muito conhecedor da sua arte, e dedicado à leitura de livros bons e instrutivos, enriquecendo assim o espírito, tornando-se um repositório de literatura histórica e amena. Principiando a exercer a sua indústria em épocas agitadas de bem triste memória, bastantes vezes foi vítima das perseguições civis que a ele, como liberal convicto que era, lhe moviam os inimigos da liberdade. Quantas vezes a sua tipografia foi assaltada por emissários do governo, e quantas vezes destruída. Na verdade, os inimigos tinham razão, porque dali saíam os mais vibrantes brados de liberdade, impressos em segredo nos prelos manuais por Lucas Torres, saíam alguns jornais e panfletos que muito contribuíram para a propaganda liberal. Todavia, escondido, ora aqui, ora acolá, ia imprimindo os vibrantes originais de António Rodrigues Sampaio, para o Espectro; os originais biliosos e chocarreiros do padre João Cândido de Carvalho, esse célebre jornalista satírico e verrinoso do Cortador, do Azorrague, do Democrata, e redactor do Rabecão de impagável memória.Quem quiser ler mais é só carregar aqui
Ainda os Falcatos
Perguntava a Tilena aí mais abaixo, onde é que eu tinha arranjado aquele Carro Falcato.
É só googalar um pouco.
Estive agora à procura dos falcatos mais antigos que encontrasse.
Pois aqui vão eles:
O campeão é o Exmo Sr. Diogo Mendes Falcato que casou a sua adorada filha Brites Mendes Falcato com o Exmo Sr. António Fernandes Cheiroso, em Vila Viçosa, no ano de 1565.
Por outro lado, corria o ano de 1688 e houve uma "ordem de missa", seja isto o que seja, encomendada ou em memória, ou qualquer outra coisa, relativa a António Mendes Falcato, natural de Estremoz.
Quer dizer que pelo menos os Falcatos já andavam por aí há bué de anos...
É só googalar um pouco.
Estive agora à procura dos falcatos mais antigos que encontrasse.
Pois aqui vão eles:
O campeão é o Exmo Sr. Diogo Mendes Falcato que casou a sua adorada filha Brites Mendes Falcato com o Exmo Sr. António Fernandes Cheiroso, em Vila Viçosa, no ano de 1565.
Por outro lado, corria o ano de 1688 e houve uma "ordem de missa", seja isto o que seja, encomendada ou em memória, ou qualquer outra coisa, relativa a António Mendes Falcato, natural de Estremoz.
Quer dizer que pelo menos os Falcatos já andavam por aí há bué de anos...
petisco no guadiana





Destas fotos só conheço o mestre Jaime , o Zagalo que costumava ser o chofer da familia, e o tio António Alves,o mais carrundo dos Alves que conheci, nunca falava a ninguem mas depois ia queixar-se ao meu pai que eu tinha passado por ele e não o tinha cumprimentado, eu e outros primos...aqui por estranho que pareça está a rir-se
ESTRADA DO CANO
MÃE AMÉLIA, FRANCISCA, GUIDA E AMÉLIA MOUQUINHO
Assim como que guardiãs da menina Guida, a tia Amélia, a Amélia Mouquinho e a Francisca. Esta senhora não tem nenhum apelido da família, mas segundo se consta é tão da família como outras. Integrada - desde muito nova- na família, manteve sempre intensa ligação e hoje é companhia indispensável, quer nos momentos felizes, quer nos menos bons. E parece que há umas estórias dignas de virem para este blog. Como a do sobretudo do Sr. José Simões Alves...Não sei quem postou esta foto, mas na verdade a Quiquica merece que se escreva um longo texto sobre ela.
A MINHAAVÓ VICÊNCIA
A minha bisavó Vicência (TEXTO DA PAPU)
PS: Se alguém tiver por aí uma fotografia da avó Vicência, que a prante aqui, por favor. Agradecida :)
Eu não me lembro da minha bisavó.
Ou melhor, lembro-me: dos seus cabelos brancos, do lenço preto que usava sempre, do brilho dos olhos, entalados entre as rugas do rosto, e do vestido preto. Lembro-me dela sempre sentada numa cadeira na sala de jantar da casa dos meus avós, no meio de bocados de tecido e panos cortados, carrinhos de linhas, e, depois, sentada na velha máquina de costura, que na altura não era nada velha.
Ainda tenho nos ouvidos o som da máquina a trabalhar. Também eu cosi muito nela, anos mais tarde. Fiz uma boneca e lençóis e roupas para ela.
Mas não me lembro dela (da minha bisavó) a rir, ou a falar, ou sentada à mesa a comer, num daqueles almoços e jantares em que se reunia toda a família. Não me lembro de a ver connosco, sentada a ouvir rádio, ou a conversar. Aliás, e para falar a verdade, acho que nem sabia lá muito bem quem era aquela senhora velhota sentada na sala sempre a costurar. Claro que me devem ter dito quem era, devem ter-me dito que era a mãe da minha avó, mas eu não devo ter acreditado, e quase de certeza me ri para dentro. Como é que era possível, a minha avó ter mãe? Naquela época ninguém tinha mãe, para além de mim, é claro.
Só me lembro de a ver naquela sala, as linhas a caírem até ao chão, onde eu me entretinha a apanhá-las, bem como aos pedacinhos de pano, que fingia serem lencinhos para as bonecas. E aquelas caixas de costura a abarrotar de cores vivas, deslumbramentos de flores, dedais, e tesouras, muitas tesouras. Todas de pontas redondas. Havia uma de pontas bicudas, assim já muito velha, o metal enegrecido e sem brilho, e que nós não podíamos tocar. Nós, as crianças.
Lembro-me de uma vez em que ela me fez uma roupinha para uma das minhas bonecas. Era um vestido. O tecido era azul escuro às bolinhas brancas. Era muito bonito. Lembro-me da pequena alegria de ter um vestido novo para a boneca (a boneca tinha nome, mas já não sei qual era). Eu adorei vê-la com o seu novo vestido. O pior foi quando tentei despi-lo. É que o vestido tinha sido cosido à volta do corpo da boneca, pelo que era impossível tirá-lo. Fiquei destroçada. A minha brincadeira preferida era vestir e despir a boneca. Um vestido que não se podia despir, aí estava uma coisa sem utilidade nenhuma. E que dizer de uma boneca que está sempre vestida da mesma maneira? Era, sei lá, bem pior do que uma boneca que nunca toma banho. Ou que nunca lava as mãos. O que diriam as vizinhas? E as amigas?
É claro que não tinha importância nenhuma o que diriam as pessoas, mas para mim aquilo era um escândalo. Lembro-me que a boneca ainda ostentou aquele vestido durante algum tempo (para mim foram séculos) e que eu não descansei enquanto não o desfiz à tesourada, para finalmente poder mudar-lhe a roupa.
Lembro-me da noite em que ela morreu. Lembro-me da luz, uma luz quente, alaranjada, que se derramava pelas escadas, e que era coada por um candeeiro de palhinhas, com uma forma oval, que estava pregado na parede. Acho que a luz se misturava com a do sol a pôr-se muito ao longe, apenas uma lâmina vermelha no céu escuro que já deixava entrar a noite, multifacetada pelos rectângulos de vidro da parede das escadas, cada um com um pequeno arco-íris imerso nas sombras das árvores que se agitavam, lá fora. Era essa luz que eu via, deitada na cama, enquanto a minha mãe me dizia o que tinha acontecido. Nessa altura eu não sabia o que era morrer, e devo ter achado que era uma coisa muito mal-cheirosa. Ela explicou-me que a avó estava a dormir e que não ia acordar mais, e por isso teria de ir para debaixo da terra, porque senão o corpo começaria a cheirar mal. Lembro-me que achei isto muito natural e acho que nem fiz mais perguntas. Nessa noite ficámos só as crianças (já não me lembro quem ficou connosco), e era uma coisa mesmo muito estranha e diferente, todos os adultos saírem ao mesmo tempo. Nunca tinha acontecido antes. Era para se despedirem da avó, que nunca mais iam ver. Acho que haviam algumas lágrimas misturadas às vozes em surdina e àquela luz macia e alaranjada, quente como um rissol acabado de sair do forno. Um pequeno sol, na escuridão de toda aquela ausência que eu ainda nem sabia que existia e que tinha nome. Deixei-me ficar no escuro, no quentinho dos cobertores, a réstia de luz a entrar pela porta entreaberta e a poisar numa carícia na alcatifa vermelha, enquanto afugentava as bruxas e os papões, e depressa adormeci, vencida pelo cansaço.
Ou melhor, lembro-me: dos seus cabelos brancos, do lenço preto que usava sempre, do brilho dos olhos, entalados entre as rugas do rosto, e do vestido preto. Lembro-me dela sempre sentada numa cadeira na sala de jantar da casa dos meus avós, no meio de bocados de tecido e panos cortados, carrinhos de linhas, e, depois, sentada na velha máquina de costura, que na altura não era nada velha.
Ainda tenho nos ouvidos o som da máquina a trabalhar. Também eu cosi muito nela, anos mais tarde. Fiz uma boneca e lençóis e roupas para ela.
Mas não me lembro dela (da minha bisavó) a rir, ou a falar, ou sentada à mesa a comer, num daqueles almoços e jantares em que se reunia toda a família. Não me lembro de a ver connosco, sentada a ouvir rádio, ou a conversar. Aliás, e para falar a verdade, acho que nem sabia lá muito bem quem era aquela senhora velhota sentada na sala sempre a costurar. Claro que me devem ter dito quem era, devem ter-me dito que era a mãe da minha avó, mas eu não devo ter acreditado, e quase de certeza me ri para dentro. Como é que era possível, a minha avó ter mãe? Naquela época ninguém tinha mãe, para além de mim, é claro.
Só me lembro de a ver naquela sala, as linhas a caírem até ao chão, onde eu me entretinha a apanhá-las, bem como aos pedacinhos de pano, que fingia serem lencinhos para as bonecas. E aquelas caixas de costura a abarrotar de cores vivas, deslumbramentos de flores, dedais, e tesouras, muitas tesouras. Todas de pontas redondas. Havia uma de pontas bicudas, assim já muito velha, o metal enegrecido e sem brilho, e que nós não podíamos tocar. Nós, as crianças.
Lembro-me de uma vez em que ela me fez uma roupinha para uma das minhas bonecas. Era um vestido. O tecido era azul escuro às bolinhas brancas. Era muito bonito. Lembro-me da pequena alegria de ter um vestido novo para a boneca (a boneca tinha nome, mas já não sei qual era). Eu adorei vê-la com o seu novo vestido. O pior foi quando tentei despi-lo. É que o vestido tinha sido cosido à volta do corpo da boneca, pelo que era impossível tirá-lo. Fiquei destroçada. A minha brincadeira preferida era vestir e despir a boneca. Um vestido que não se podia despir, aí estava uma coisa sem utilidade nenhuma. E que dizer de uma boneca que está sempre vestida da mesma maneira? Era, sei lá, bem pior do que uma boneca que nunca toma banho. Ou que nunca lava as mãos. O que diriam as vizinhas? E as amigas?
É claro que não tinha importância nenhuma o que diriam as pessoas, mas para mim aquilo era um escândalo. Lembro-me que a boneca ainda ostentou aquele vestido durante algum tempo (para mim foram séculos) e que eu não descansei enquanto não o desfiz à tesourada, para finalmente poder mudar-lhe a roupa.
Lembro-me da noite em que ela morreu. Lembro-me da luz, uma luz quente, alaranjada, que se derramava pelas escadas, e que era coada por um candeeiro de palhinhas, com uma forma oval, que estava pregado na parede. Acho que a luz se misturava com a do sol a pôr-se muito ao longe, apenas uma lâmina vermelha no céu escuro que já deixava entrar a noite, multifacetada pelos rectângulos de vidro da parede das escadas, cada um com um pequeno arco-íris imerso nas sombras das árvores que se agitavam, lá fora. Era essa luz que eu via, deitada na cama, enquanto a minha mãe me dizia o que tinha acontecido. Nessa altura eu não sabia o que era morrer, e devo ter achado que era uma coisa muito mal-cheirosa. Ela explicou-me que a avó estava a dormir e que não ia acordar mais, e por isso teria de ir para debaixo da terra, porque senão o corpo começaria a cheirar mal. Lembro-me que achei isto muito natural e acho que nem fiz mais perguntas. Nessa noite ficámos só as crianças (já não me lembro quem ficou connosco), e era uma coisa mesmo muito estranha e diferente, todos os adultos saírem ao mesmo tempo. Nunca tinha acontecido antes. Era para se despedirem da avó, que nunca mais iam ver. Acho que haviam algumas lágrimas misturadas às vozes em surdina e àquela luz macia e alaranjada, quente como um rissol acabado de sair do forno. Um pequeno sol, na escuridão de toda aquela ausência que eu ainda nem sabia que existia e que tinha nome. Deixei-me ficar no escuro, no quentinho dos cobertores, a réstia de luz a entrar pela porta entreaberta e a poisar numa carícia na alcatifa vermelha, enquanto afugentava as bruxas e os papões, e depressa adormeci, vencida pelo cansaço.
PS: Se alguém tiver por aí uma fotografia da avó Vicência, que a prante aqui, por favor. Agradecida :)
O primo Máximo Rocha Falcato
Na mesma rua e perto do meu avô morava outro primo de ambos, Máximo Rocha Falcato que tinha uma loja de fazendas, como se dizia naquele tempo. O primo Máximo tinha 3 filhos: o José , o Júlio e o Jica . O José Falcato era da minha idade e éramos companheiros de paródia.
Como os pais viviam bem, compraram-lhe uma bicicleta coisa que, por muito que o desejasse, a minha mãe nuca me poderia comprar. E era na bicicleta dele que eu andava muitas vezes mas, quando o passeio era mais demorado, para o Cano ou para o campo e ele também ia, então alugava uma bicicleta ao primo José Tomás.
Infelizmente, o José morreu num desastre de moto quando regressava com um primo dele, o Arnaldo, de um baile de máscaras em Estremoz. Dizem que ainda trazia vestidos os "dominós"-traje de carnaval muito usado naquela época- que, com o vento, lhe tapou a cara, originando o despiste fatal e a morte dos dois.
O Arnaldo era primo direito do Constantino , vivia na casa ao lado e , como o quintais comunicavam este ia muito para lá com a tilena.
Jacinto
Como os pais viviam bem, compraram-lhe uma bicicleta coisa que, por muito que o desejasse, a minha mãe nuca me poderia comprar. E era na bicicleta dele que eu andava muitas vezes mas, quando o passeio era mais demorado, para o Cano ou para o campo e ele também ia, então alugava uma bicicleta ao primo José Tomás.
Infelizmente, o José morreu num desastre de moto quando regressava com um primo dele, o Arnaldo, de um baile de máscaras em Estremoz. Dizem que ainda trazia vestidos os "dominós"-traje de carnaval muito usado naquela época- que, com o vento, lhe tapou a cara, originando o despiste fatal e a morte dos dois.
O Arnaldo era primo direito do Constantino , vivia na casa ao lado e , como o quintais comunicavam este ia muito para lá com a tilena.
Jacinto
Porque estão doentes, porque estão magros, porque estão gordos, tudo a preocupa e está sempre pronta a ajudar.
É uma amiga e é mais que família.
tilena
É uma amiga e é mais que família.
tilena
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